02 abr IA não decide sozinha, mas transforma o que fazemos e como decidimos
Claudia Marchetti da Silva[1]
Pensar, ouvir e falar sobre inteligência artificial se tornou inevitável. O tema invadiu as nossas vidas pessoais e começa a impactar as nossas profissões, a rotina, os processos e as decisões dentro das empresas.
Não por acaso. A IA é uma tecnologia de propósito geral (TPG).
Isso significa que não se trata apenas de mais uma inovação, mas de uma tecnologia capaz de reorganizar setores inteiros e a própria lógica de funcionamento da economia e da sociedade. Foi assim com a máquina a vapor, com a eletricidade, com o motor de combustão, com a internet. E é assim, agora, com a inteligência artificial.
No dia 11 de março, a convite da Abinee, estive com profissionais das empresas associadas para uma conversa sobre o tema. O workshop Inteligência Artificial: o que muda nas pessoas e nas empresas foi estruturado como um espaço de diálogo. Partimos de uma provocação — quais são as primeiras palavras que vêm à mente quando pensamos em inteligência artificial — e, a partir dessa ambivalência entre entusiasmo e cautela, iniciamos a construção da discussão.
Ao longo do workshop, exploramos os fundamentos da IA, distinguindo algoritmos, modelos de linguagem e agentes, e, aos poucos, avançamos para aquela que deve ser a pergunta fundamental: o que muda quando esses sistemas passam a participar das atividades dentro das empresas? Não apenas nas tarefas, mas na forma como as pessoas decidem, confiam, se responsabilizam e se relacionam com o próprio trabalho.
A discussão mostrou que a transformação não está apenas na tecnologia, mas, sobretudo, nas práticas. Parte das tarefas repetitivas tende a ser automatizada, ao mesmo tempo em que emergem novas exigências relacionadas à supervisão, interpretação e validação. O trabalho não desaparece — ele muda de natureza.
Também se alteram as responsabilidades. As decisões passam a incorporar recomendações algorítmicas, exigindo dos profissionais não apenas capacidade técnica, mas julgamento crítico sobre quando confiar, como usar e até onde delegar.
Outro ponto relevante foi a distinção entre automação tradicional e automação inteligente. Se antes a automação substituía tarefas operacionais, hoje ela avança sobre dimensões cognitivas, colocando em evidência outra questão: o que permanece como diferencial humano no trabalho?
As contribuições dos participantes reforçaram uma percepção importante: o impacto da IA não é um destino inevitável, mas o resultado de escolhas tecnológicas, organizacionais e humanas. Entre automatizar e substituir ou ampliar e colaborar, há sempre uma decisão humana em curso.
Também foram debatidas tendências do mercado de trabalho e os desafios regulatórios associados, em um cenário em que a tecnologia avança em ritmo superior à capacidade de construção de normas.
Dando continuidade a essa agenda de reflexão e aprofundamento, a Abinee passa a contar com uma coluna quinzenal dedicada ao tema da inteligência artificial e seus impactos nas diferentes áreas das empresas.
A proposta é ampliar o debate iniciado no workshop, trazendo análises, pesquisas empíricas, provocações e aplicações práticas — sempre com foco nas pessoas, na responsabilidade organizacional e no uso consciente da tecnologia.
Vamos juntos nessa. Porque discutir inteligência artificial é também discutir futuro e, principalmente, quem decide sobre ele. Como lembra o sociólogo italiano Domenico De Masi, “se deixarmos de projetar o nosso futuro, alguém o projetará por nós — não em função dos nossos interesses, mas do seu próprio proveito.”
[1] Doutoranda em Direito Fiscal pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e investigadora no Centro de Investigação em Direito Europeu, Económico, Financeiro e Fiscal (CIDEEFF), desenvolve investigação em ambientes interdisciplinares na interseção entre tributação, tecnologia e trabalho.