Crise de chips de memória aumenta preços no Brasil

Valor Econômico – 28/01/2026

A valorização das ações de grandes fornecedores do mercado global de chips de memória animou o mercado financeiro, mas está longe de ser uma boa notícia para a indústria de eletroeletrônicos.

A prioridade para a manufatura de chips de memória de alta largura de banda (HBM, na sigla em inglês) para atender a crescente demanda de servidores de inteligência artificial (IA), por fabricantes como a americana Micron Technology e as sul-coreanas Samsung e SK Hynix, vem provocando uma escalada de preços de componentes para celulares, computadores, TVs e outros dispositivos eletrônicos. O resultado é um inevitável aumento de preços de eletroeletrônicos para consumidores e empresas no mundo todo.

Os preços dos chips de memória devem subir globalmente de 40% a 50% no primeiro trimestre de 2026 e mais 20% no segundo trimestre de 2026, prevê a consultoria Counterpoint Research.

O aumento nos preços da memória DRAM, sigla em inglês para Memória de Acesso Aleatório Dinâmica, um tipo de memória usada para armazenar dados que o computador precisa acessar rapidamente e temporariamente, já elevou os custos dos componentes para celulares em 25% para aparelhos de baixo custo, 15% para celulares intermediários e 10% para os aparelhos premium, respectivamente, informa outro relatório da Counterpoint publicado em dezembro. Neste cenário, a consultoria projeta uma queda de 2,1% nas vendas de celulares em 2026.

No Brasil já houve reajuste de pelo menos 20% dos preços de PCs e celulares vendidos pelos fabricantes ao varejo em dezembro, conforme apurou o Valor.

Para o diretor de informática da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) Maurício Helfer, o cenário que se desenha com a crise de chips de memória “é muito pior” do que o observado com a escassez de chips durante o auge da pandemia da covid-19. “Na pandemia houve um ‘boom’ de demanda que logo se acomodou. O que estamos encarando agora é que a busca pela expansão dos data centers de IA será realidade em 2026, 2027 e 2028”, afirma. E a adaptação dos fabricantes de semicondutores à demanda de memórias é um processo lento. A americana Micron, anunciou, na quarta-feira (27) um investimento de US$ 24 bilhões, em dez anos, para ampliar a produção de wafers de silício – matéria-prima essencial para a produção de memórias – em sua fábrica de Cingapura. O início da produção está previsto para a segunda meta de 2028

Segundo Helfer, o mercado global e o Brasil já sentem os impactos de preços e de recuo de demanda após reajustes de valores de memórias que superaram 100%. O diretor da Abinee estima que os preços tenham reajuste em torno de 30% nos equipamentos vendidos ao cliente final. “Desde o fim de dezembro, grandes fabricantes vem renegociando valores de contratos com empresas no país”, relata.

A tendência de alta contínua nos preços de memórias também levam a uma corrida de fabricantes de eletroeletrônicos para elevar os estoques provocando um salto artificial de demanda.

“Quando as empresas de IA saem fazendo compras, as empresas tradicionais desse mercado querem comprar mais cedo como proteção”, diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), Rogério Nunes.

“No Brasil, não há como não ter impacto quando preços [de waffers de silício, matéria-prima para a produção de memórias e dispositivos de armazenamento de dados] sobem de 38% a 50% do terceiro para o quarto trimestres de 2025. E a tendência é subir outros 50%”, afirma o executivo que é presidente da fabricante de memórias Zilia Technologies.

A escalada de preços dobrou o peso das memórias no custo total de um computador ou celular, para 15% a 20%, desde o final do ano passado, nota Nunes. “Esse aumento de custos será repassado ao mercado. E ao fazer esse repasse corremos o risco de redução de demanda”, observa o presidente da Abisemi.

Para o Brasil, que em 2025 registrou vendas fracas, com queda de 4% em unidades de celulares e sem crescimento em computadores, o salto nos preços globais de memórias acrescentam complexidade a um setor sujeito à flutuação do dólar, inflação e taxa de juros alta, observa o diretor de pesquisas da IDC na América Latina, Reinaldo Sakis.

“O único ponto positivo para estimular a demanda é a chegada de um ciclo de troca de computadores, que foram adquiridos no auge da pandemia, há cinco anos, tanto no mercado corporativo e como no doméstico. No entanto, em um cenário de alta de preços, o consumidor deve adiar essa compra”, avalia Sakis. Para organizações privadas e públicas, a avaliação de troca de máquinas será mais criteriosa este ano, observa.

A redução no número de memórias embarcadas nos produtos é uma das saídas encontradas por fabricantes para mitigar o impacto dos custos e equilibrar preços de computadores, por exemplo, observa Nunes, da Abisemi. “’Há empresas reduzindo a quantidade de memórias inseridas nos PCs” diz o executivo. Ele dá um exemplo: o mercado deve ter mais modelos de 8 gigabytes (GB) de memória RAM, do que de 16 GB.

O chamado “downgrade” dos produtos – configurações mais simples, com menos chips de memória – pode gerar mais adiante um movimento inverso, de queda na demanda de memórias, observa Nunes. “É uma situação sui generis”, observa. Mas por enquanto, o momento é de demanda acelerada. “Empresas que trabalhavam com uma ou duas semanas de estoque já estão trabalhando com meses”.

A demanda por TVs e celulares para quem vai assistir à Copa do Mundo de futebol, este ano, é outra preocupação do setor, lembra o presidente da fabricante de memórias Adata no Brasil, Paulo Júnior. “Hoje, nosso maior desafio, e no qual conseguimos gerar menor impacto, é conseguir matéria-prima para atender a demanda da Copa”, afirma Júnior.

O diretor de Tecnologias Avançadas e Relações Institucionais da brasileira HT Micron, Willyan Hasenkamp, lembra que o mercado é cíclico e já passou por picos de valorização em 2011 e 2018, seguidos por quedas drásticas de preços nos anos seguintes. Assim, a estratégia da fabricante de memórias controlada pelo grupo sul-coreano Hana Micron com fornecedores envolve “contratos fixos, planejamento conjunto de demanda e suavização de variações para evitar choques na cadeia de PCs, TVs, celulares e servidores”, diz o executivo.

A indústria brasileira também está de olho nas memórias para “data centers”. Em dezembro, a Zilia Technologies anunciou que investirá R$ 1 bilhão na expansão de sua capacidade produtiva até 2030 no Brasil, incluindo a produção de memórias HBM. Neste mesmo intervalo, a Adata destinará R$ 400 milhões em pesquisa e desenvolvimento de componentes no país. Já Hasenkamp, da HT Micron, informa que pode começar a produção de memórias HBM em 2028, “dependendo do mercado e das condições.”