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Como numa luta de boxe, a indústria eletroeletrônica instalada no Brasil está encurralada no corner, cercada pelo Real valorizado, que traz consigo uma enxurrada de produtos importados e provoca a perda de competitividade no mercado internacional.
Mesmo estando preparadas para atender às demandas, as empresas têm se sentido acuadas pela falta de medidas governamentais que garantam a manutenção e expansão de seus investimentos produtivos.
Esta dificuldade vivida por empresas do nosso setor foi escancarada pela situação semelhante por qual passa o setor automobilístico, que, recentemente, desnudou os efeitos da concorrência dos produtos importados, estimulada pelo patamar cambial.
Independente de apoiar ou não a decisão do governo de elevar o IPI para veículos importados como forma de proteger quem produz no país, é importante destacar que o governo saiu do imobilismo e entendeu que o Brasil vive um forte processo de desindustrialização, e que a facilidade de importação de produtos acabados está gerando empregos em outros países.
Outro fato que, apesar de não resolver tudo, nos trouxe algum alento, foi a redução em meio ponto percentual da taxa SELIC. A decisão do COPOM, alvo de críticas descabidas de especuladores do mercado financeiro, mostrou que o governo começou a entender os efeitos negativos dos juros elevados sobre o câmbio.
Se havia imobilismo não era por falta de alerta. Temos nos manifestado há pelo menos quatro anos, denunciando os riscos da valorização exagerada do Real.
Agora é hora de avançar nas medidas e olhar para outros setores da indústria, além das meninas dos olhos – automobilístico e commodities.
Quando do anúncio do aumento do IPI, afirmei que medidas semelhantes deveriam ser estendidas para quem está sofrendo com a desvalorização do Dólar e com as importações de bens finais, principalmente as vindas da China, que mantém sua moeda desvalorizada propositadamente em pelo menos 30%.
O setor eletroeletrônico é um destes.
Há anos, enfrenta um elevado déficit em sua balança. Mais recentemente, este déficit cresceu de forma galopante, justamente em função do descontrole cambial. Em 2010, o déficit do setor passou dos US$ 27 bilhões, e, neste ano, ultrapassará a casa dos US$ 33 bilhões.
Nossas exportações, nos últimos dois anos, permaneceram no mesmo patamar, na casa dos US$ 7,5 bilhões em 2009 e 2010. Neste ano, não chegarão aos US$ 8 bilhões. As importações, estas sim, vão de 'vento em popa'. Em 2010, atingiram US$ 34,8 bilhões, e neste ano superarão a marca dos US$ 40 bilhões.
Como é do conhecimento de muitos, não é de hoje que a Abinee tem apresentado estudos e propostas ao governo para compensar o impacto nocivo causado pelo Real valorizado.
Numa das últimas reivindicações está a elevação temporária da alíquota do Imposto de Importação para produtos que tenham similar nacional em alguns segmentos da indústria eletroeletrônica, utilizando os limites permitidos pela OMC.
Outra proposta trata da desoneração da contribuição patronal ao INSS da parcela exportada da produção dos bens do setor eletroeletrônico, nos moldes do setor de software.
Mesmo apresentando argumentos e números que evidenciam a dificuldade das empresas e o processo de desindustrialização pelo qual estão passando, até o momento não recebemos qualquer aceno do governo, o que nos leva a imaginar que o nosso setor não está entre as prioridades do país.
Mais recentemente, por solicitação do próprio governo, que nos informou que trataria da política para microeletrônica separadamente do programa 'Brasil Maior', elaboramos um detalhado estudo visando o desenvolvimento da indústria de componentes no Brasil.
O documento foi entregue a vários ministros, entre eles o da Ciência e Tecnologia, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e da Fazenda. Porém, passados quase dois meses, também não tivemos qualquer resposta.
O fato é que estamos encurralados, pressionados pelo processo crescente de desindustrialização e precisando urgentemente de ações que garantam a competitividade das nossas empresas, o desenvolvimento do país e a manutenção dos empregos aqui no nosso território.
A recente bolha cambial, estimulada pelo desdobramento da crise mundial, que elevou a cotação do Dólar, não deve ser antecipadamente comemorada. O que precisamos é de um planejamento adequado e correto na área cambial, promovendo medidas 'preventivas' que impeçam a valorização futura do Real.
Tal iniciativa foi tomada pelo BC num momento de aguda instabilidade do câmbio.
Porém, parece que a vontade do governo, é atuar para que a taxa de câmbio volte a patamares do início de setembro, o que lhe dá conforto para perseguir sua meta de inflação, deixando, novamente, a indústria sem saída.
(*)Humberto Barbato, presidente da ABINEE
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