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Há anos convivemos com a interpretação de que a valorização do Real é fruto do sucesso do modelo de estabilização e crescimento perseguido nos últimos 15 anos. Porque devemos nos conformar (ou nos confortar) com essa idéia?
Nos últimos dias, a moeda americana beirou cotação próxima (R$ 1,53/US$ 1) a que assistimos antes da crise financeira de 2008. Superamos o contágio da crise, ainda que a produção industrial sinalize fraquezas e as importações cresçam a ritmo alarmante, mas repetimos o erro ao permitir a forte valorização do Real. A luta por ganhos de produtividade da nossa indústria é inócua mediante esse ritmo de valorização.
Para ilustrar com números, ressalte-se que a comparação entre a cotação média do dólar no primeiro semestre de 2010 contra o mesmo período de 2009 apresentou desvalorização de 18%. No confronto entre os primeiros semestres de 2010 e 2011, a desvalorização soma mais 9,2%. Em outras palavras, ao compararmos o primeiro semestre de 2009 com igual período de 2011, o Real acumula uma valorização média da ordem de 25%.
Portanto, do que vale o “sucesso” se nele reside o germe da nossa derrota futura? Espera aí, dirão alguns, veja o estrondoso volume de investimento direto estrangeiro (afinal, foram US$ 32,5 bilhões) alcançado no primeiro semestre deste ano. É o maior volume da série histórica desde 1947. É preciso maiores evidências do sucesso brasileiro?
Até certo ponto, poderíamos concordar com o argumento, mas, por outro lado, somos obrigados a alertar para o fato de boa parte desses recursos serviu a aquisições e fusões de empresas locais, ou seja, corremos o risco de estarmos desnacionalizando o parque produtivo nacional.
Essa situação reforça o quadro de desindustrialização à brasileira, que vimos denunciando há vários anos. Corretamente, as corporações multinacionais trabalham dentro de uma lógica mundial, portanto, constituem canais de distribuição próprios, mais eficientes, e que operam em escala global. Se importar for o caminho para contornar custos, elas o farão sem nenhuma cerimônia.
As autoridades econômicas brasileiras precisam compreender que o crescimento sustentável, aquele que possa durar pelos próximos 10 ou 15 anos, requer a preservação da taxa real de câmbio em patamar que seja confortável para a exportação de bens manufaturados e que preserve, portanto, a saúde econômico-financeira das empresas instaladas no País, principalmente, das pequenas e médias empresas.
Adotar medidas paliativas e atrasadas, como tem feito o governo nos últimos meses, pouco resolve o problema cambial brasileiro. As recentes decisões de taxar o mercado de derivativos por meio da aplicação de alíquota de 1% do IOF e de elevar a capacidade de intervenção do governo nesse mercado pouco resolvem.
Ao analisarmos a cotação do Real apenas no decorrer do primeiro semestre de 2011, percebemos que nos momentos que o governo adotou alguma medida cambial restritiva ou o mercado internacional esteve mais instável, a nossa moeda desvalorizou-se para em seguida retomar a sua trajetória de valorização.
Esta tem sido a tônica nos últimos anos. Definitivamente, precisamos de um planejamento adequado e correto na área cambial, promovendo antecipadamente medidas que impeçam a valorização futura do câmbio. Chega de improvisos nesse espetáculo!
(*)Humberto Barbato, presidente da ABINEE
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