Home
Apresentação Dados do Setor - 2011
Pilhas e Baterias
Campanha Produto Seguro
Padrão Brasileiro de Plugues e Tomadas
Artigo: Para além das oscilações transitórias do Dólar (*)

Em primeiro de agosto deste ano a moeda americana estava cotada a R$ 1,55. De lá para cá, a valorização do dólar frente ao Real empurrou a sua cotação para a casa de R$ 1,80 - uma valorização de mais de 16% no período. Imediatamente, analistas do mercado financeiro passaram a identificar nas medidas adotadas pelo governo para conter a valorização da moeda doméstica as causas para a exacerbação desse comportamento do câmbio. Em paralelo, e ao largo da identificação das causas desse fenômeno, sugiram variados alertas sobre o risco que a depreciação do Real imporia ao alcance da meta de inflação neste e no próximo ano.

Sem questionar o mérito dessas análises (caberia talvez perguntar se ao retornar à sua trajetória de valorização, o câmbio não devolverá o estímulo para a contenção dos preços domésticos, beneficiando assim a meta de inflação), pretendemos oferecer uma singela contribuição ao debate, mirando fatores externos e não decisões de caráter interno. O cerne do impasse atual reside na ampla e complexa situação que vivenciam as principais economias desenvolvidas, particularmente aquelas do mediterrâneo europeu, cujos desdobramentos recentes alarmaram investidores e outros agentes.

As referências estatísticas de algumas dessas nações falam por si. No caso das economias européias identificadas com o acrônimo Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), a relação Dívida/PIB atingiu proporções inimagináveis: Grécia: 153% do PIB; Itália: 120% do PIB; Irlanda: 96% do PIB; Portugal: 93% do PIB; Espanha: 60% do PIB. Não bastasse o “tsunami” do endividamento, agrava-se o quadro financeiro dessas nações pela incapacidade das autoridades da região do Euro em adotar medidas de política econômica que estimulem o crescimento. Com taxas de juros próximas a zero e déficits fiscais ingovernáveis, pouco se pode esperar para o futuro. Em recente encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI), ficou claro que é baixa a confiança das autoridades em sua capacidade de equacionar a crise. Os governos gastaram tanto para evitar a derrocada financeira do sistema financeiro privado internacional (estima-se em US$ 10 trilhões o custo da crise iniciada em 2008) que esgotaram os recursos para novas ações de socorro. Soma-se a isto o baixo crescimento que repercute nos cofres públicos por meio de fraca arrecadação de impostos.

Percebe-se que a crise foi transferida do sistema financeiro privado e dos maiores bancos - fruto da “lambança” com derivativos e títulos hipotecários – para as contas públicas, sem livrar, no entanto, parcela do sistema do risco da insolvência. Em verdade, o remédio que os governos adotaram para eliminar os riscos sistêmicos, imprimindo uma política monetária frouxa e um pacote de ajuda aos bancos e países mais encalacrados transformou-se no veneno que hoje ameaça a vida dessas nações, quiçá, da própria sobrevivência da região do Euro.

Mas, afinal, o que a desvalorização do Real tem a ver com isto? Tudo. Em nossa visão, reside no cenário internacional a principal explicação para o comportamento recente da taxa de câmbio. Vale frisar, todavia, que ao turbulento cenário externo se somaram situações e ações, concentradas nos últimos dois meses, que serviram para acirrar os ânimos.

As complicações se iniciaram com o impasse político para a elevação do teto da dívida federal americana. Após exaustivas e frustradas tentativas de alcançar o consenso, o presidente americano conseguiu anunciar, no início de agosto, a solução para o que já era visto como a insolvência dos EUA. No entanto, para obter o acordo que elevou o teto da dívida em US$ 2,1 bilhões, o governo se comprometeu com um acordo bipartidário visando enxugar US$ 1,0 trilhão do orçamento dos EUA nos próximos 10 anos, ou seja, menos fôlego para o crescimento.

Tivemos ainda o rebaixamento da classificação da dívida soberana da Itália de A+ para A pela Standard & Poors, lembrando que fizera o mesmo, pela primeira vez na história, com a nota dos títulos da dívida americana. O agravamento da crise na Grécia, tornando iminente a moratória, o impasse nas negociações entre as autoridades européias para encontrar uma saída e o anúncio do Federal Reserve de um novo plano financeiro (US$ 400 bilhões) para fomentar o consumo/crescimento americano, denominado “Operação Twist”, serviram para agravar o que era notado sem estar evidente. Nos meses de agosto e setembro intensificaram-se os problemas e os impasses, elevando o risco sistêmico e deixando os investidores em estado de alerta, com os nervos à flor da pele.

Tudo isto tem pouco a ver com as condições econômicas do Brasil. A fonte da crise está lá fora, cujos desdobramentos são imprevisíveis e dificilmente estimáveis. Para corroborar nossa opinião é válido notar que no período em tela (agosto e setembro), embora as variações diárias do Índice Bovespa tenham sido mais intensas do que em períodos anteriores, elas foram bem mais amenas do que as variações da cotação da moeda americana. A maior volatilidade no mercado cambial sinaliza para o nervosismo dos estrangeiros por causa dos acontecimentos que agravaram a crise lá fora. Em outras palavras, as nossas empresas estão saudáveis e o arranjo da política econômica não é foco de insegurança, pelo contrário, com o real desvalorizado a situação tende a melhorar para as nossas exportações e para a ampliação no uso de componentes e insumos produzidos internamente.

Cremos que a desvalorização do Real é passageira. Em razão de fatores externos é uma janela de oportunidade que o setor produtivo deve aproveitar. O temor quanto ao impacto na taxa de inflação não se sustenta se o horizonte considerado for de longo prazo. Ainda que os próximos anos apresentem solavancos pontuais, sabemos que nos períodos de calmaria mais e mais dólares regressarão ao País, como receitas de exportações, investimentos estrangeiros e empréstimos entre empresas. E as cotações voltarão a mergulhar no câmbio interno.

Por isso, entendemos que este é um bom momento para as nossas autoridades refletirem e proporem um debate aberto sobre a política cambial brasileira. Como a desvalorização do Real tende a ser passageira, ainda que a cotação se sustente em nível superior a R$ 1,50 pelos próximos meses, consideramos ser oportuno o momento para travarmos - governo, setor produtivo e agentes financeiros - um amplo debate sobre o tema, visando corrigir certas distorções no regime cambial brasileiro que agravam a nossa desindustrialização.

*Carlos Eduardo Cavalcanti, assessor econômico da ABINEE


INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Carlos Eduardo Cavalcanti
Assessor Econômico
11 2175-0011

ACESSO RESERVADO    
ASSOCIAR    
ANUNCIAR    
ABINEE no Twitter
Mensagens do Presidente
Revista ABINEE - No 64
Panorama Econômico 2011
Posto de Informações ABINEE
Código de autorregulação dos fabricantes de telefones celulares
A Indústria Elétrica e Eletrônica em 2020 - Detalhamento e Atualização de Propostas
Almoço Anual da Indústria Elétrica e Eletrônica 2011