Artigo: Qual o papel da indústria neste negócio da China? (*)

26/06/2015

Passado o primeiro impacto do anúncio dos acordos bilionários assinados pelo Brasil com a China, que motivam expectativas de investimento de mais de US$ 53 bilhões, cabe-nos uma reflexões profunda sobre os possíveis efeitos para a nossa indústria.

É amplamente sabido que o país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, representando 18,7% das nossas vendas e 16% das nossas compras. As altas taxas de crescimento que observamos de 2003 a 2008, não teriam sido registradas se não fosse a emergência chinesa e seu apetite pelas commodities agrícolas e minerais brasileiras.

Além desse extraordinário crescimento ter se comprovado fugaz a partir da crise internacional de 2008/09, a indústria instalada no país, a partir do governo Lula, passou a conviver com um câmbio altamente valorizado e irreal, que culminou com a gradativa degradação das cadeias produtivas e a aceleração do processo de desindustrialização. Ao mesmo tempo, com sua competitividade deteriorada, a indústria teve que enfrentar uma enxurrada de produtos manufaturados chineses que se espalharam pelo mercado interno, atingindo diversos setores da nossa economia. No caso da indústria elétrica e eletrônica, a participação chinesa nas importações atingiu 40% no primeiro trimestre deste ano.

Os chineses têm interesse, por exemplo, na licitação remanescente da faixa de 4G (tecnologia de telefonia móvel), e em investimentos na área de estaleiros e refinarias. Outros acordos, como o firmado entre a Eletrobrás e a China Three Gorges Corporation, assinalam a intenção de negociar parcerias em futuro leilão da mega usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós (PA). Também foi lançada a pedra fundamental das obras da linha de transmissão - erguida pela chinesa State Grid com as brasileiras Furnas e Eletronorte - que escoará energia da usina de Belo Monte para centros consumidores da região Sudeste.

Entretanto, ao que nos parece, os acordos anunciados se aproximam de uma tentativa de “fuga à crise”, muito semelhante ao Convênio Complementar de Cooperação de Infraestrutura feito entre a Argentina e a China. Com a economia em frangalhos, o país vizinho recorreu dos chineses em sua busca de financiamentos, em troca, as empresas chinesas passaram a ter vantagens inéditas naquele país, o que determinou um forte avanço do país asiático em vários setores da economia portenha.

Voltando ao caso brasileiro, apesar do discurso oficial da presidente Dilma Rousseff apontar que os acordos pretendem consolidar as relações com a China, com base não só nas nossas vantagens comparativas em commodities, mas, também, abrindo novas áreas, o que observamos é justamente o contrário.

Afinal, é necessário compreender o cenário de transformação chinês e as forças que se colocam de cada lado. Em um primeiro aspecto, é preciso resgatar a ideia de que as reformas em curso naquele país implicarão não apenas em transformações domésticas importantes, mas também em um novo tipo de integração no mundo.

A expansão do mercado interno, com forte avanço da classe média, impulsionará, sem dúvida, oportunidades para segmentos de bens duráveis e não duráveis. Estimativas do Banco Mundial mostram que a procura chinesa por produtos agrícolas e alimentícios poderá crescer entre 11% e 13% ao ano, até 2030. Dentro dessa lógica, é que se insere, portanto, a preocupação do governo chinês em realizar investimentos em infraestrutura mundo a fora.

De outra parte, no entanto, a competição no segmento industrial tende a se acirrar frente aos avanços tecnológicos incorporados às exportações dos manufaturados da China. Neste aspecto, podemos observar que as forças em campo são muito desiguais. Enquanto as exportações chinesas estão representadas por 53,6% de alta intensidade tecnológica, 32% média e 14,4% baixa; as brasileiras configuram-se em 28,7% de alta, 43,6% de média e 27,8% de baixa. Logo, o que esperar diante desse quadro?

Com foco na capacidade de financiamento chinês em um momento de crise, estamos diante de um sério risco de aprofundarmos a complementaridade subsidiária entre as duas economias, exacerbando a nossa desindustrialização. E, no quadro econômico atual brasileiro, não nos parece razoável aceitar o declínio ou mesmo a atrofia de setores industriais relevantes para o emprego e para o desenvolvimento. Ou seja, não podemos assistir impassíveis ao aumento da invasão de produtos chineses no nosso país, o que, certamente, acabará por gerar empregos lá e não aqui.

O que não cabe, sob qualquer hipótese, é ver a China como panaceia para nossos problemas e mazelas. No momento em que nos deparamos com a possibilidade de um maior estrangulamento por conta das medidas de ajuste fiscal, a nossa indústria se pergunta, já receosa da resposta: qual o seu papel nesse negócio da China?

(*)Humberto Barbato, Presidente da Abinee

 
 
Abinee - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica

Escritório Central: Avenida Paulista, 1313 - 7º andar - 01311-923 - São Paulo - SP
Fone: 11 2175-0000 - Fax: 11 2175-0090