Exportações e investimentos em infraestrutura são válvulas para sair da crise

08/05/2015

O país tem duas saídas para a recuperação do crescimento da economia: estímulo às exportações e aumento do investimento em infraestrutura. A avaliação é do economista Raul Velloso, que participou nesta quinta-feira (7), da Reunião da Diretoria Plenária da Abinee. “São as duas válvulas para tirar a gente dessa situação”, afirmou.

Neste sentido, citando o caso da proposta de alteração da desoneração da folha, Velloso salientou que as medidas de ajuste não podem tirar o fôlego da indústria, pois, dessa forma, o país perderá a capacidade de que uma destas saídas se materialize. “O governo não pode atrapalhar o setores que exportam, onde está a solução, assim como não deve interferir na tendência de alta da taxa de câmbio”.

Ao mesmo tempo, o economista afirmou que o governo precisa eliminar as travas que inibem o investimento privado em infraestrutura. “Tem que haver estímulo, mas o investidor não pode ter a perspectiva de uma taxa de retorno de filantropia”, criticou.

Raul Velloso destacou que, para se fazer os ajustes efetivos e necessários na economia, é preciso entender o que aconteceu para se chegar a atual crise fiscal, que parecia ter ficado no passado. “O governo seguiu um modelo que se esgotou, com a condução econômica baseada em uma visão equivocada que estimula o consumo, esperando que o investimento acompanhasse. Este modelo gera conflito entre a expansão dos gastos correntes e a capacidade de investir. Não dá para chupar cana e assobiar ao mesmo tempo”, disse.

Usando como analogia a imagem de um balão de gás para explicar o modelo econômico adotado pelo governo, o economista ressaltou a necessidade de se alterar o seu conteúdo. “Precisamos retirar o déficit do governo e o consumo privado (que já é menor por conta da restrição de crédito), e adicionar gás de exportações e investimento privado”.

Ele acrescentou que, nos últimos anos, a poupança do governo era gerada a partir de financiamento externo, com a apreciação cambial. “Todas as fichas neste modelo condenaram a indústria a viver num cenário de câmbio valorizado, prejudicando sua competitividade”.

O economista observou que o país chegou ao pleno emprego sem aumento da capacidade produtiva, o que impõe limites ao crescimento. “A utilização da capacidade cresce mais que a capacidade em si”.

Segundo Velloso, este modelo gera inflação, crise fiscal e déficit externo difícil de financiar. “Por último, o resultado é a economia estagnada. A taxa de investimento cai, assim como o crescimento da economia. Não há força produtiva para crescer, até por que a indústria perdeu muito com o câmbio apreciado durante muito tempo e não tem como investir”.

A situação se agrava pois, num contexto de baixo crescimento, a despesa do governo segue rígida, pouco ligada ao PIB. “O governo já deveria ter feito um gigantesco programa de redução de gastos quando a economia começou a desacelerar lá atrás. Agora é quase tarde”, enfatizou.

Ao analisar os gastos do governo, ele destacou que transferência assistencial e de previdência, ao lado dos gastos com pessoal incluindo aposentadoria, representam 72% do total das despesas. “Essas duas rubricas são o que eu chamo de a grande folha de pagamento”. Segundo Velloso, segurar aumentos nestes componentes não representa corte, mas, sim, adiamento de gastos. “Vira restos a pagar”.

Ele concluiu que, neste sentido, o governo tem que dar sinal de austeridade, por exemplo, com a redução de ministérios. “O governo quer promover o ajuste mas também terá que sangrar, ter desgaste.

Veja a apresentação do economista Raul Velloso

Desoneração da Folha

Durante a reunião Plenária, coordenada pelo presidente do Conselho de Administração da Abinee, Irineu Govêa, e pelo presidente executivo da entidade, Humberto Barbato, foi destacada preocupação do setor em relação à proposta de ajuste do governo, no que se refere à alteração na desoneração da folha de pagamentos.

Barbato destacou que a Abinee está se articulando para fazer um trabalho junto ao Congresso no sentido de sensibilizar o governo para que a alteração proposta pelo Ministro da Fazenda Joaquim Levy não seja levada adiante.

Lembrando que a desoneração da folha havia sido perenizada pela presidente Dilma Rousseff no ano passado, antes das eleições de outubro, Barbato destacou que, hoje, cerca de 600 NCMs da indústria eletroeletrônica são contempladas pela medida, o que representa 50% do universo total de produtos do setor.

Segundo ele, ao se avaliar os números da desoneração observa-se que a medida gerou saldo positivo para o governo, uma vez que os valores correspondentes à redução da arrecadação da contribuição social foram plenamente compensados com o adicional de um ponto percentual na alíquota da Cofins sobre as importações dos produtos desonerados, sem o direito a crédito. Barbato destacou que, no caso específico da indústria eletroeletrônica, a renúncia correspondeu, em 2014, a R$ 485 milhões, e o adicional da Cofins foi de R$ 619 milhões. “Portanto, o governo ganhou com a desoneração do setor”, enfatizou.

O presidente da Abinee finalizou dizendo que, por conta disso, a entidade utilizará todas as forças políticas e informações disponíveis para que a mudança na desoneração não seja aprovada como foi proposta pelo governo.

 
 
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