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Tratar dos avanços reconhecidamente obtidos pelo País nas últimas duas décadas exige um olhar cuidadoso que não permita turvar nossa visão frente ao propalado sucesso. Inegavelmente, o Brasil do presente tem muito pouco em comum com o País dos anos 80 – a chamada década perdida – ou de até meados da década de 90. Planos mirabolantes foram descartados, “pirotecnias” em termos de política econômica foram afastadas e, de maneira sensata e madura, os responsáveis pela condução das diretrizes econômicas foram colocando “ordem na casa”.
A nosso juízo, o ciclo de transição de um modelo fechado – pautado na substituição de importações – para um modelo aberto, fundamentado nas relações externas, no esforço pela conquista da qualidade e na consequente ampliação da competitividade produtiva, se completou no período recente. Hoje em dia, as empresas brasileiras estão fortalecidas e prontas para enfrentar o jogo da competição global. Corporações como BRF (fusão entre Perdigão e Sadia), Braskem, Marcopolo, Weg, Vale e Petrobras, entre tantas outras, tornaram-se players forjadas pelo desafio da conquista de novos mercados.
Em relação ao nosso sistema bancário, a solidez foi ratificada no transcurso da crise internacional. Enquanto bancos americanos e europeus eram dissolvidos no emaranhado das operações sub-prime e derivativos de alto risco, não tivemos notícias de ruptura ou ameaça de crise sistêmica no sistema financeiro pátrio.
Por tudo isso, analistas de diversas matizes vaticinam que o Brasil poderá crescer a taxas entre 4% a 5% ao ano durante os próximos 10 ou 15 anos. Sem dúvida, a notícia não poderia ser melhor, mas, para que a “profecia” se confirme, é necessária a correção das distorções que persistem.
Em primeiro lugar, a sobrevalorização do Real é um forte empecilho para a competitividade das empresas locais, desestimulando as exportações, ampliando o mix de produtos importados e gerando dificuldades para o equilíbrio financeiro das empresas exportadoras.
Independentemente da reação do governo, que instituiu recentemente IOF sobre capitais especulativos, a nossa crença é de que a taxa de câmbio adequada, ou “de equilíbrio” como preferem alguns, precisa ser compatível com o grau de desenvolvimento das nossas empresas e deve assegurar razoável compensação pelos elevados custos tributários, de juros e trabalhistas que as nossas empresas incorrem. O que se procura com uma taxa mais desvalorizada é a justa compensação para o impacto nefasto do “Custo Brasil”.
Em segundo lugar, entendemos que é urgente a adequação dos gastos correntes do governo à realidade econômica do País. Economias maduras não suportam crescimento das despesas correntes em ritmo superior ao da receita tributária, oprimindo a parcela dos investimentos públicos no total do orçamento. Sabemos que os investimentos nas três esferas de governo não alcançam 5% do PIB nos dias de hoje. Algo impensável para um País que ainda tem muito por fazer. A superação dos problemas da nossa precária infraestrutura não será lograda apenas pelas mãos da iniciativa privada. O PAC representou importante avanço, mas a sua execução caminha a passos de tartaruga. As autoridades governamentais precisam atuar de modo intenso, promovendo as obras necessárias para eliminação dos gargalos, como a recuperação das estradas brasileiras, a ampliação dos transportes ferroviário e aquático, a organização e a modernização de nossos portos, a garantia de investimentos para geração e transmissão de energia que afastem por definitivo os riscos de um novo apagão. Afinal, com Copa do Mundo e Olimpíadas no calendário esportivo nacional, muito precisa ser feito, e de forma célere, para que não ocorra um fiasco.
Em terceiro lugar, julgo desnecessário ocupar várias linhas para tratar das reformas eternamente prometidas e nunca concluídas. Melhorar relações de comércio com parceiros do Mercosul e de outros blocos econômicos requer a eliminação das distorções tributárias, a correção dos excessos que se colocam na legislação trabalhista e a influência direta que essas alterações terão sobre a taxa de câmbio no Brasil. As reformas deveriam estar na ordem do dia e como estamos em ano eleitoral, renovam-se as esperanças de que o próximo presidente se debruce sobre o tema com afinco e determinação. Esperamos que 2011 seja o ano das reformas.
Por fim, mas não menos importante, julgamos ser de vital importância para o crescimento sustentado do País a promoção de uma revolução educacional. O brasileiro goza, em média, de oito anos de estudos, enquanto nos países desenvolvidos e nos emergentes asiáticos, a média salta para 12 a 15 anos. Se não fizermos uma transformação profunda no processo educacional brasileiro, muito pouco teremos a oferecer em futuro próximo. Ressalve-se que não basta ampliar os anos de estudo, mas é preciso oferecer qualidade e capacitação prática aos nossos jovens.
De forma consistente e ininterrupta, o Brasil crescerá nos próximos 10 ou 15 anos. Ótimo para os brasileiros, principalmente os mais jovens, que precisam estar inseridos nesse processo para que a redução da pobreza e das desigualdades represente a principal conquista nesse cenário futuro. O País poderá crescer em ritmo mais intenso se os requisitos aqui tratados forem colocados em prática. Só assim podemos confiar na hipótese de que, em 2020, o Brasil alcance o status de quinta maior economia do mundo. É o que esperamos.
(*) Humberto Barbato, presidente da ABINEE
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