Pronunciamento Humberto Barbato no Almoço Anual da Abinee

05/12/14

Senhoras e senhores, boa tarde...

É sempre uma satisfação recebê-los neste tradicional Almoço Anual da Indústria Elétrica e Eletrônica, uma oportunidade de reencontrarmos os amigos, de avaliarmos a atuação do nosso setor e de tentarmos prever o futuro, o que, ultimamente, não tem sido uma tarefa das mais fáceis.

Meus amigos,

Mais um ano chega ao fim sem que o nosso setor tenha conseguido escapar do crônico processo de desindustrialização, iniciado há cerca de uma década, e, também, do recorrente baixo crescimento do PIB nacional, que neste ano, ficará muito próximo de ZERO, o pior resultado desde 2009.

Recentemente, o FMI revisou suas projeções de crescimento para a economia mundial, destacando várias nações, entre elas o Brasil. Em que pesem ainda os efeitos da crise internacional, a avaliação do FMI para a economia brasileira é, no mínimo, decepcionante.

Embora não cause surpresa, pois alertávamos há algum tempo para o cenário de dificuldades, não deixa de ser amarga a percepção de que o Brasil volta para o fim da fila das nações.

Enquanto a economia mundial aponta para um crescimento de 3,3% este ano, e de 3,8% em 2015, o Brasil parou. O FMI estima que a expansão da economia brasileira será de apenas 0,3% neste ano, e de 1,4%, para o ano que vem.

Esta previsão do crescimento brasileiro será, em média, dois pontos percentuais abaixo do apresentado pelos países da América Latina.

Reafirmo que uma das principais causas do nosso raquítico crescimento reside no quadro adverso por que passa a nossa indústria.

No nosso caso, o setor eletroeletrônico deverá encerrar 2014 registrando queda da ordem de 3% no faturamento real em relação ao ano passado.

Ao mesmo tempo, a produção física do nosso setor registrou, até o mês de outubro, retração de 2,6%. Esta queda de atividade refletiu diretamente na nossa capacidade de gerar empregos. Vamos encerrar este ano com 3 mil vagas a menos que em dezembro de 2013.

Também o fluxo de comércio da nossa indústria apresentará retração. As exportações deverão cair 9%, e as importações 4%. Com isso, o déficit da balança comercial do setor deverá ser 3% menor que o registrado em 2013, atingindo US$ 35 bilhões.

Estes números evidenciam o esfriamento do mercado interno, a dificuldade para se recuperar os mercados internacionais e o quadro de perda de competitividade da indústria instalada no país.

Meus amigos,

Recentemente, o ex-ministro Delfim Netto, nosso convidado especial para este almoço, disse que a progressiva redução da taxa de crescimento do PIB deve-se à pouca atenção dada à destruição que vem ocorrendo com a capacidade de competir da indústria nacional.

É triste, mas é real esta afirmação, e a recuperação só ocorrerá com um plano estratégico de médio e longo prazo para que possamos ver nossa indústria forte novamente.

Nossa inserção nas cadeias globais de valor não pode limitar-se ao agronegócio e às commodities.

Para alterar esta situação, é necessária uma agenda de reformas que recupere a confiança do empresariado e dos consumidores, revertendo o clima de pessimismo que tem represado os investimentos em diversas áreas da economia, e que tem afetado diretamente o nosso setor.

Assim, a mais emergencial das reformas é a do sistema tributário, cujo grau de complexidade dificulta a vida dos empresários.

Outro aspecto que deve ser urgentemente corrigido diz respeito ao prazo de recolhimento dos tributos. Não é saudável e aceitável que a indústria, já tão onerada e sem competitividade, siga sendo, além de agente arrecadador, financiador do governo.

É fundamental que, o quanto antes, os prazos de recolhimento sejam estendidos, o que fará, naturalmente, menor pressão sobre o caixa das empresas, quiçá, sobre as próprias taxas de juros. Além disso, precisamos acelerar os investimentos em infraestrutura. Esta é uma das medidas mais efetivas para retomarmos nossa capacidade de crescimento.

É preciso, portanto, dar prosseguimento nos processos de concessão ou privatização. Hoje, o governo atua como o principal investidor, mas com um orçamento cada vez mais comprometido com o custeio, a única solução está na parceria com a iniciativa privada nos investimentos.

Sem isso, continuaremos tendo um país caro, onde o Custo Brasil vai prosseguir imperando, e a nossa indústria não vai conseguir voltar a ser competitiva e gerar os empregos necessários.

Também como forma de destravar os investimentos, é essencial uma mudança efetiva na atuação das agências reguladoras, conferindo a elas um papel muito mais profissional e menos político, o que daria mais segurança jurídica para quem quiser investir no Brasil.

Estas questões devem estar aliadas a uma condução da política econômica, que priorize os cortes dos gastos públicos correntes, além de juros mais condizentes, controle inflacionário e, principalmente, câmbio equilibrado.

Senhores e senhores,

Quero destacar aqui que não podemos deixar de citar importantes ações que foram adotadas pelo atual governo, como a forte atuação do BNDES, a prorrogação do programa BNDES-PSI, a desoneração da folha de pagamentos e outras medidas que foram fundamentais para a sobrevivência da indústria.

Apesar delas, o setor industrial ainda sofre sérias dificuldades, geradas a partir de uma taxa de câmbio, por vezes, volátil, e há anos valorizada, o que torna inócuas as medidas de política industrial e de competitividade.

Mas também temos o que celebrar. Depois de muita negociação, e com o apoio de todos os deputados que se encontram nesta mesa, e em especial do secretário Virgílio Almeida, conseguimos que a Lei de Informática fosse prorrogada.

Foram dias e dias de trabalho, definindo estratégias para obtermos esta importante vitória para o Brasil. Não se trata apenas, como alguns pensam, de uma Lei de incentivo, mas sim, da prorrogação de uma Lei que efetivamente contribui para a pesquisa e desenvolvimento.

Porém, apesar destas medidas e conquistas, ainda há muito que se fazer. Neste sentido, a Abinee elaborou o documento Propostas para o Desenvolvimento da Indústria e do Setor Elétrico e Eletrônico, que traz uma visão sobre os caminhos que podem levar à recuperação e à expansão da indústria no Brasil e, em particular, da indústria eletroeletrônica.

Para os diversos segmentos que compõem a Abinee, o melhor e mais rápido caminho para a retomada do desenvolvimento é o uso do comércio internacional como alavanca para o crescimento, além da desoneração dos investimentos produtivos.

Ao lado da redução e simplificação da carga tributária e da ampliação dos investimentos em infraestrutura, o documento destaca a necessidade da desburocratização do Executivo e do Judiciário; da criação de instrumento de crédito fiscal para investimentos produtivos; e da Isenção tributária dos bens de capital.

O documento defende o redirecionamento da política externa brasileira, tendo como foco a realização de acordos comerciais bilaterais e regionais; a manutenção da taxa de câmbio depreciada e estável; a implementação de uma política realista de preços administrados; além da expansão do programa “Ciência sem Fronteiras”.

O trabalho da Abinee apresenta, também, propostas específicas para cada uma das áreas da indústria elétrica e eletrônica, com foco no adensamento de cadeias produtivas.

Meus amigos,

Superada a fase da eleição presidencial, é hora de tranquilizarmos o espírito e iniciar uma ação crítica, mas construtiva, em prol da retomada do crescimento e do desenvolvimento do país.

Acredito que todos estejam de acordo que o equilíbrio da economia precisa ser retomado, as mazelas sociais combatidas, os investimentos em infraestrutura acelerados, e as forças do empreendedorismo e da inovação canalizados à produção.

Independente das questões ideológicas ou partidárias, o chamamento aos cidadãos deve tomar o caminho da busca pelo bem estar da nação. Neste momento, é fundamental buscarmos uma reflexão sobre o que deve ser melhorado e como promover tais melhorias.

Sabemos que os desafios são gigantescos, porém, os passos têm que ser dados, sob pena da volta da desconfiança e do descrédito. Assim, será de fundamental importância a atuação do Congresso Nacional na próxima legislatura. É imperativo que os interesses do país sejam colocados em primeiro plano, em detrimento de questões partidárias.

Também, será essencial que se apurem todas as denúncias que têm ocupado o noticiário, como forma de preservar a credibilidade dos deputados e senadores, e para que o Congresso possa, de forma independente, cumprir seu papel de propor, debater e aprovar leis que objetivem o desenvolvimento do Brasil.

Estou totalmente seguro que os parlamentares que aqui se encontram estão entre aqueles que querem ver as denúncias devidamente apuradas para que tenhamos, muito em breve, um poder legislativo com sua independência resgatada.

Senhoras e senhores,

A indicação, até agora, dos novos ministros que vão compor a equipe da presidente Dilma Rousseff, sinaliza para a busca de uma condução firme da nossa economia, promovendo os ajustes necessários, que deem condições para a retomada do crescimento do país, mesmo que a médio prazo.

Especialmente para a indústria, vemos de maneira otimista a escolha do senador Armando Monteiro para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que, como ex-presidente da CNI, conhece profundamente as dificuldades por que passa o setor industrial brasileiro.

Precisamos, sim, de novas ideias para vencer velhos problemas. Temos que acreditar que vamos solucioná-los, pois muitos deles inviabilizam a vida da indústria, que é a grande geradora de empregos de qualidade, e de renda no Brasil.

Temos que ter consciência de que o conserto será difícil e levará tempo. O diálogo precisa estar a serviço do próximo mandato, a fim de que o país possa realizar as lições sabidas, mas, até aqui, ignoradas.

O importante é que possamos pavimentar definitivamente o caminho para o que virá depois. De nossa parte, caberá mais atenção, vigilância e cobrança das transformações pretendidas e prometidas.

Permanecemos dispostos a colaborar com tudo o que possa ser benéfico ao futuro do setor elétrico e eletrônico e, por consequência, do Brasil.

Meus amigos,

Para encerrar, quero cumprimentar os senhores Deputados e autoridades do Executivo, e agradecer pela consideração e boa vontade com que têm recebido os pleitos da Abinee. Agradeço, também, pelo empenho e dedicação com que defenderam as nossas propostas no Congresso Nacional e nos Ministérios.

Os meus agradecimentos aos líderes empresariais e executivos do setor que acreditam no Brasil, investem na produção e geram empregos, mesmo diante das mais adversas condições.

Agradeço, também, os meus companheiros de Diretoria, os ex-Presidentes e Conselheiros, e nossas associadas pelo apoio e estímulo recebidos ao longo deste ano.

Meus cumprimentos aos colaboradores da Abinee pelo importante trabalho desenvolvido e pela contínua dedicação. Minha gratidão aos jornalistas, cuja atuação é vital para que possamos mostrar à sociedade nosso trabalho.

Meus especiais agradecimentos ao ex-ministro Delfim Netto, com quem sempre podemos aprender sobre as armadilhas da economia.

A todos os presentes, os meus votos de Boas Festas e um Feliz Ano Novo.

Muito obrigado!

 
 
Abinee - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica

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