Perspectivas 2016 - Esperança e realidade: a busca do equilíbrio

17/12/2015

A atividade da indústria sofreu revés atrás de revés durante 2015, o que culminou em queda nominal de 4% no faturamento das empresas e em um acentuado recuo de 17% na produção física, que se espalhou por todos os segmentos. O fraco desempenho foi excerbado a cada medida anunciada pelo governo como parte de seu pacote de ajustes, contribuindo para minar ainda mais a confiança das indústrias. Ainda assimilando os duros golpes, o setor entrará em 2016 tentando manter o equilíbrio entre a esperança como fator de sobrevivência e a realidade que não oferece grandes expectativas.

A crise econômica instalada no Brasil não permite esperar cenários mais auspiciosos para o próximo ano, e o comportamento da indústria elétrica e eletrônica não deve apresentar tendência diferente do período que se encerra. A previsão é que o setor andará de lado em 2016. Segmentos de bens de consumo eletrônicos, como celulares e PCs, que até então vinham registrando desempenhos positivos, passaram a observar quedas nas vendas.

“Vivemos um momento econômico ruim, onde a sociedade de consumo e os investidores não têm demonstrado confiança na performance futura da economia”, assinala o diretor da área de Informática da Abinee, Hugo Valério. Segundo ele, o desempenho da indústria sempre esteve relacionado ao PIB. “Em momentos onde as políticas públicas reduziram a elevada carga tributária, e a taxa de câmbio foi favorável à redução de custo dos produtos, os brasileiros puderam ter maior acesso a estas ferramentas tecnológicas de eficiência, contribuindo para a informatização e redução da exclusão digital”.

No entanto, o momento agora é outro. Para Valério, com a elevação dos custos aliada à alta carga tributária e ao encarecimento do crédito, os consumidores e empresas tiveram seu poder de compra e capacidade de investimento reduzidos, com quedas significativas nas demandas de celulares e computadores, acarretando muitas demissões na força de trabalho altamente qualificada. “Infelizmente, nenhum fato ou medida econômica e estratégica que sinalize reversão deste quadro vêm ocorrendo, o que se confirma com as notas que as agências de risco têm atribuído ao País”, destaca.

Embora não observe perspectivas positivas na economia que tragam uma visão mais otimista, o diretor de Informática diz que é preciso que este quadro se reverta. “O Brasil é um grande País de cidadãos trabalhadores e criativos, empreendedores, e acostumados a adversidades e instabilidades. Encontraremos uma maneira de colocarmos a indústria de TIC novamente à frente da economia, ajudando o País a se modernizar e a enfrentar mais esta travessia na nossa jornada”, afirma.

O baque do PIS/Cofins
A área de TIC sofreu um baque com a extinção da isenção de PIS/Cofins para bens eletrônicos para o ano de 2016 [o incentivo será retomado gradativamente a partir de 2017], o que deve se refletir no desempenho das empresas do segmento. O diretor da área de Dispositivos Móveis, Luiz Cláudio Carneiro, ressalta que estes produtos são hoje os de maior desejo dos consumidores, e os mais eficientes instrumentos de inclusão digital, mas a retração do mercado interno também afetou as vendas de celulares e tablets.

“Em 2015, o segmento conviveu com a turbulência do câmbio e a insegurança do fim de programas de inclusão digital, mas sabemos que ainda há muito o que fazer, e continuaremos trabalhando pela manutenção destes programas”. Para 2016, Carneiro espera que a crise seja amenizada e que o mercado reaja, e volte a crescer.

Segundo o diretor de Manufatura em Eletrônica da Abinee, Jorge Funaro, a área espera uma diminuição ainda maior da demanda no mercado interno do que a registrada em 2015, tendo em vista a retirada dos incentivos da Lei do Bem pelo governo, gerando uma maior carga tributária para os aparelhos celulares, tablets e computadores. “Dessa forma, acreditamos que as empresas possivelmente procurarão um aumento das exportações na área de Informática e Telecomunicações para compensar essa queda de volume”, salienta.

Ele acrescenta que o cenário de crescimento econômico para 2016 é cada vez mais problemático. “Como se não bastassem todos os problemas econômicos e dificuldades internas, ainda vislumbramos uma crise política sem fronteiras, fruto de uma corrupção sistêmica que gera um clima de desconfiança e uma insegurança enorme no futuro desse País”, comenta.

Funaro afirma que o objetivo para o próximo ano será trabalhar fortemente com o governo para que sejam implementadas as reformas estruturais, como a própria reforma tributária, a diminuição da burocracia, o aumento de acordos bilaterais, a viabilização do Reintegra e o Programa Brasileiro de Operador Econômico Autorizado - OEA.

Para o diretor da Área de Componentes da Abinee, Rogério Nunes, a redução do volume do mercado de TI em 2015 foi imensa (entre 25 a 35%) dependendo do produto, o que deve permanecer no próximo ano. “A desvalorização do real frente ao dólar ainda não foi totalmente absorvida e teremos adicionalmente a incidência do PIS/COFINS de 9,25% sobre os preços de produtos na venda a varejo, portanto a indústria continuará sofrendo em 2016”.

Nunes enfatiza, porém, que a boa notícia é que não deve haver piora nos volumes de mercado e, após os duros ajustes efetuados em 2015, espera-se que a indústria já esteja mais adaptada à nova realidade. “Portanto, 2016 não será pior que 2015, apesar de tudo. Esperamos inflação menor e juros menores também, com câmbio mais estável.”

Apostas em telecom e automação
O diretor da área de Telecomunicações, Paulo Castelo Branco, diz que a situação econômica que o País atravessa torna muito arriscado fazer prognósticos para o desempenho do setor, ainda que para o médio prazo. “Temos alguns fatores que podem impactar negativamente os negócios, mas, em compensação, outros podem incentivar os investimentos”.

Ele aponta que a indústria de telecom sempre reclamou de um câmbio sobrevalorizado. Assim, a grande depreciação sofrida pelo real nos últimos meses torna a indústria estabelecida no Brasil mais competitiva para exportações. Por outro lado, Castelo Branco salienta que este movimento pode onerar consideravelmente os grandes clientes dessa indústria, já que os equipamentos de telecomunicações têm alto grau de insumos importados.

“Esses clientes, que são na sua grande maioria as operadoras de telecom, já apresentam um nível de investimentos alto e de rentabilidade baixo, o que é uma equação complicada. Paralelamente, as possíveis novas consolidações neste segmento podem, em um primeiro momento, postergar projetos, face às incertezas que às vezes precedem tais movimentos”. Porém, o diretor da Abinee pondera que há somente fatores inibidores. “O notável crescimento do tráfego de dados, especialmente vídeo, bem como o crescimento do tráfego M2M/IoT, tornarão inevitáveis novos investimentos. Os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro também”.

Na área regulatória e legislativa, o setor de telecomunicações estará diante de leilões de sobras de frequências que poderão trazer novos negócios e a revisão da LGT. Esta última ressalta dois aspectos importantes: solução da questão de reversibilidade dos bens e transformação das concessões em autorizações em troca de compromissos de investimento. Castelo Branco observa ainda que a prorrogação dos incentivos do REPNBL e sua transformação em Lei permanente para o setor deveria ser um dos principais itens da Agenda 2016 da indústria de telecom.

Para o diretor de Automação da Abinee, Raul Victor Groszmann, após um ano muito difícil, 2016 deve apresentar algum alívio para o segmento com vistas a constante busca das empresas no que se refere ao aumento de produtividade e melhoria de competitividade. “O segmento de Automação Industrial não deve ter grandes projetos na área de Óleo &Gás e Mineração. Entretanto, há diversos projetos de menor envergadura em outros segmentos industriais, principalmente naqueles que se preparam para voltar a exportar”, aponta.

Eficiência energética como opção
“Apesar das dificuldades presentes, acreditamos que alguns segmentos podem ter respostas melhores em 2016”, afirma o diretor de Equipamentos Industriais, Antonio Cesar da Silva. O caminho para a área pode estar no projeto da Chamada Pública Nº 02/2015 - Projeto Prioritário de Eficiência Energética da ANEEL -, publicado em 29 de outubro, que incentiva o setor industrial e comercial, através de um sistema de bônus, a implementar ações para redução da economia de energia elétrica.

“A diretoria da Abinee, junto com a CNI e PUC-RJ, contribuíram com estudos e subsídios para este projeto de eficiência energética voltado principalmente ao setor industrial”, diz. Segundo Silva, devido ao atual custo de energia elétrica, muitos serão impactados positivamente de forma direta ou indireta caso optem aderir a este projeto. “A medida da ANEEL foca na substituição de motores elétricos antigos ineficientes em operação, pois estes respondem por aproximadamente 30% do consumo da energia elétrica nacional”. As empresas interessadas em substituir seus motores antigos usando o benefício do bônus citado na Chamada Pública Nº 02/2015 - Projeto Prioritário de Eficiência Energética devem procurar a sua concessionária distribuidora de energia elétrica.

Silva destaca que a redução do consumo de energia elétrica por meio da substituição de equipamentos antigos por novos mais eficientes diminui o custo da conta de energia, aumenta a produtividade (fazer o mais com menos) e a capacidade de competitividade. “Além destes ganhos para quem substitui seu equipamento antigo, a medida gera impactos positivos para toda a cadeia produtiva envolvida na fabricação dos equipamentos novos”.

Recessão afeta demanda
A área de Material Elétrico de Instalação deve continuar se ressentindo dos efeitos da falta de crédito, com juros elevados, do alto nível de endividamento da população e do baixo desempenho da construção civil, como ocorreu durante 2015. A avaliação é do diretor da área, Antonio Eduardo de Souza: “material elétrico, não diferente da grande maioria das demais áreas, deverá terminar o ano com uma forte retração no faturamento. Nem mesmo a renovação ou a autoconstrução, igualmente afetadas pela queda do poder aquisitivo e pela necessidade de priorização de onde aplicar o pouco dinheiro em circulação, ajudaram a evitar este péssimo resultado”.

Com o País em recessão, a inflação chegando novamente a dois dígitos, a indústria participando cada vez menos na geração de riqueza e uma crise política sem precedentes, Souza projeta ainda tempos turbulentos para o futuro. “Caso não se consiga destravar rapidamente o impasse político e promover as reformas em busca do equilíbrio fiscal, será muito difícil reverter a tendência em 2016”, conclui.

Destravar investimentos
Após um ano de custos de energia elétrica nunca vivenciados no Brasil, o setor industrial de GTD voltou a enfrentar em 2015 enormes dificuldades na manutenção de suas plantas industriais devido às poucas encomendas. “A indústria de GTD vem enfrentando grandes problemas nos últimos anos, experimentando crescimentos negativos e diminuição do quadro de funcionários, tanto no chão de fábrica quanto nas áreas administrativas”, diz o diretor da área de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica da Abinee, Newton Duarte.

A despeito de um quadro severo do mercado de GTD, ele salienta que houve importantes avanços nos setores de Geração e Transmissão. “É, no entanto, fundamental que os agentes do setor encontrem junto com o governo formas de solucionar a séria situação, de forma a destravar investimentos necessários para o crescente mercado da Geração Distribuída, que, por meio dos três Leilões de Reserva de energia solar, já a partir de outubro de 2014, e posteriormente em agosto e novembro de 2015, deflagraram a instalação de mais de 3.100 MW (pico) até 2018 que, certamente, propiciarão a localização de diversas empresas fabricantes de painéis solares e inversores no país”, ressalta.

Entre oportunidades e desafios, Duarte salienta que, assim como outros segmentos do setor eletroeletrônico, as perspectivas de crescimento da indústria de GTD dependem basicamente da retomada da economia brasileira e da volta dos investimentos e da utilização da base industrial, com o consequente incremento da demanda de energia elétrica.

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