Pronunciamento Humberto Barbato - Encontro Anual

04/12/2020

Senhoras e senhores, bom dia

Estamos aqui mais um ano reunidos nesse tradicional Encontro Anual da Indústria Elétrica e Eletrônica desta feita de forma virtual que é o que estes tempos difíceis nos permitem. Eventos como este somente são possíveis em razão dos inúmeros recursos tecnológicos proporcionados pelo nosso setor.

Mas o espírito permanece o mesmo. Reunir nossos colegas empresários com as diversas autoridades do Executivo e do Legislativo com quem, mesmo neste ano, mantivemos constantes contatos.

Neste encontro anual, embora com as limitações impostas, também se evidencia a força desta indústria que se tornou ainda mais importante neste ano de dificuldades sem precedentes.

Se no ano passado, dissemos que 2019 foi desafiador, o que diríamos deste 2020?

Como em todas as crises, esta também possibilitou que colocássemos em perspectiva tanto nossas potencialidades quanto algumas vulnerabilidades. E por conseguinte, novos desafios, abrindo espaço para reflexões importantes sobre o futuro.

Como muitos acompanharam nas pesquisas feitas pela Abinee junto às suas associadas, o setor eletroeletrônico foi um dos primeiros a serem afetados pela pandemia, ainda no mês de fevereiro, quando o problema estava praticamente concentrado na China. No início de março, chegamos a ter 70% das empresas com falta de insumos.

A China é a principal origem das importações de componentes do Brasil, correspondendo a 42% do total importado. De fato, a pandemia expôs essa vulnerabilidade. A alteração da estrutura de fornecimento de insumos é bastante complexa, mas abre a possibilidade de se repensar de forma estratégica caminhos para o fortalecimento de cadeias produtivas no Brasil.

Meus amigos,

A pandemia evidenciou ainda mais a importância estratégica do setor para a economia brasileira.

Nesse cenário de restrição por conta do isolamento social, a tecnologia tem sido fundamental para conectar as pessoas, fazer girar a economia, manter as empresas operantes, disponibilizar entretenimento, acesso à educação, atender necessidades de abastecimento, além de otimizar e facilitar o acesso dos consumidores a serviços essenciais.

E a necessidade dessa ampla gama de serviços passa por nossa indústria, que está presente desde a transformação de recursos naturais em energia até o bit fundamental nos dispositivos de acesso.

Além dessa capacidade vocacional, em uma situação de excepcionalidade como a atual, as empresas lançaram mão de seu dinamismo tecnológico para contribuir com as autoridades no combate à Covid-19. Em função de mecanismos como a Política de TICs, a indústria instalada no País mantém e fomenta as áreas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, seja com equipes internas, seja com parcerias com institutos e universidades. Essa rede de conhecimento permitiu a busca de soluções locais para o enfrentamento da pandemia.

Neste sentido, indústrias do setor com grande capacidade produtiva e experiência se mobilizaram para aumentar o volume de produção de empresas da área da saúde de menor porte e com capacidade produtiva limitada, especializadas em equipamentos de suporte vital para terapia intensiva. Juntos, somamos esforços para a fabricação de equipamentos como os ventiladores pulmonares.

Sem uma estrutura industrial local robusta para atender a essa demanda em caráter de urgência, o Brasil ficaria restrito a uma cadeia internacional complexa para o enfrentamento da pandemia, o que prejudicaria o atendimento de toda a população. Por sua relevância no contexto econômico e social, a indústria elétrica e eletrônica brasileira mais uma vez se fez presente e colocou sua força e capacidade produtiva a serviço do País.

Outro exemplo concreto da importância dos investimentos em P&D e inovação feitos pelo nosso setor está nas tecnologias que viabilizam conectividade e a chamada Indústria 4.0.

A chegada do 5G e o advento da Internet das Coisas colocarão em marcha uma verdadeira revolução tecnológica que demandará soluções, equipamentos e serviços para a impulsionar a verdadeira transformação digital da economia.

Como é sabido, nosso setor é o que mais investe em P&D. A política setorial gerou uma importante diversidade de institutos atuantes em todo o país, congregados em nossa entidade de inovação, o IPD Eletron.

Ao mesmo tempo, as empresas conseguiram fazer uma leitura rápida do atual cenário, adequando processos e linhas de produção para a nova realidade. Essa resiliência à crise possibilitou que nossa indústria entrasse em marcha de recuperação nos últimos meses.

Senhores, todo esse dinamismo trouxe resultados positivos.

A partir de maio, depois de atravessarmos o período mais crítico, conseguimos retomar a atividade, o que se reflete positivamente nos principais indicadores.

Tivemos, sim, alguns problemas como o aumento no custo dos fretes, a alta nos preços dos insumos e a sensível elevação da taxa de câmbio.

Apesar disso, e das quedas registradas em nossos indicadores em abril e maio, a atividade iniciou sua recuperação e estamos fechando o ano com estabilidade no faturamento e na produção do setor. A boa notícia é que o emprego, mesmo em um ano tão difícil, cresceu. Estamos fechando 2020 com 4% de aumento no número de trabalhadores do setor, que passou de 234 mil para 243 mil pessoas este ano.

Portanto, o nosso setor vem dando sinais claros de recuperação e oxalá esse cenário se consolide no próximo ano.

Meus amigos,

Durante 2020, mesmo nos períodos mais críticos, mantivemos um diálogo constante com o governo federal, notadamente com o Ministério da Economia, com o MCTI, com o novo Minicom, com a Casa Civil e com o Itamaraty, objetivando acompanhar pari passu os impactos da pandemia no setor, bem como propor medidas para atenuar seus efeitos.

O último levantamento feito junto às nossas associadas indicou que 64% delas fizeram uso das medidas emergenciais adotadas pelo governo.

Devemos reconhecer, portanto, que esse diálogo permanente com nossas autoridades foi fundamental para encontrarmos soluções a fim de minimizar os impactos mais profundos no setor produtivo.

Para além da agenda emergencial, a Abinee manteve e aprofundou os contatos com o governo para tratar de temas fundamentais para o setor.

Um exemplo disso é a Política de TICs, que entrou em vigor neste ano após as mudanças para atender às exigências da OMC. Tivemos diversas reuniões remotas com o MCTI, para a elaboração dos novos regulamentos e procedimentos para a fruição dos incentivos da Política.

Também trabalhamos em conjunto com o Ministério de Minas e Energia com vistas à modernização do setor elétrico, o chamado 4D, ou seja, digitalização, descentralização, descarbonização e democratização, temas estes que prosseguem na agenda do país e impactam diretamente o nosso setor.

Com a aprovação da lei 14.052/2020 esperamos solucionar controvérsias jurídicas na geração de eletricidade e a questão do risco hidrológico. É necessário também tratarmos da modernização das redes elétricas, um passo fundamental para a incorporação da geração distribuída, para a introdução dos veículos elétricos e para a segurança energética.

Necessitamos também da redução dos custos e dos altos encargos embutidos na tarifa de energia elétrica, que terminam por afastar investimentos em qualidade, modernização e segurança da rede. Afinal, exemplos recentes como o do Amapá não são aceitáveis. O setor elétrico tem muitos equipamentos em fim de vida regulatória, e o custo das falhas destes é muito superior ao de sua modernização.

Precisamos de uma estratégia clara para a manutenção da expansão das fontes renováveis na matriz energética nacional, aliada a uma política industrial concomitante.

Mesmo durante a crise atual, as empresas não deixaram de lado sua preocupação com o Meio Ambiente. Na área de Sustentabilidade, completamos um ano do  Acordo Setorial para Logística Reversa de Eletroeletrônicos, que atende à Política Nacional de Resíduos Sólidos. Resultado de intensas e longas discussões com o Ministério do Meio Ambiente, o Acordo está em plena expansão. E possibilitará, por meio da nossa gestora Green Eletron, um sistema de logística reversa eficiente, colaborando com a economia circular e a sustentabilidade.

Senhoras e Senhores,

O ano que está se findando trouxe inúmeros desafios e imprevistos. Entretanto, temos alguns pontos que precisam ser trabalhados não apenas para aprimorarmos o ambiente produtivo interno como para transmitir aos investidores externos a segurança jurídica fundamental na decisão do investimento. O mundo deve enxergar que o Brasil está fazendo um esforço para melhorar seu ambiente produtivo, promovendo reformas e reduzindo o custo da máquina pública, visando a recuperação da produtividade.

Há muito tempo e inclusive em meu pronunciamento no almoço do ano passado, defendemos a importância de uma abertura de mercado gradual e negociada, sem sobressaltos que possam comprometer a indústria nacional.  Em todas as reuniões com o governo temos procurado demonstrar que nosso setor já possui um grande grau de abertura e que nossas empresas já estão amplamente inseridas nas cadeias globais de valor. Prova disso é que, enquanto na indústria geral o coeficiente de penetração das importações é de 18%, no nosso setor esse índice é de 49,2%.

Portanto, não somos contrários à abertura da economia. Mas esta agenda deve andar em compasso com a redução do custo Brasil.

Representando marcas globais que realizam seus lançamentos em nível mundial, a indústria eletroeletrônica é vital para o País e precisa sempre estar up-to-date com a tecnologia de ponta, pois é movida a inovação. Essa característica faz com que o nosso setor seja um dos que mais investem em P&D, seguramente o mais precioso capital para o desenvolvimento do Brasil.  Mas se não soubermos fazer a abertura de forma adequada corremos o risco de abrir mão deste importante capital produtivo, perdendo empregos de qualidade e nos tornando meros importadores.

Volto a afirmar. A indústria não espera proteção, mas sim condições apropriadas para que possamos produzir e competir, além de aumentar sensivelmente nosso nível de exportações. Para isso, precisamos de custos competitivos. Essa lição de casa passa pelas reformas estruturais que estão em curso, como a Reforma Tributária entre outras.

Assim nossa confiança na recuperação é cautelosa, e depende de fatores que fogem à nossa alçada, pois relacionam-se diretamente com o cenário político e econômico do país.

Estamos sempre em diálogo com o governo para juntos encontrarmos um bom caminho e soluções mais construtivas que contribuam com a agenda do desenvolvimento.

Finalizando, quero agradecer as autoridades que nos prestigiam com a sua presença neste evento. Agradeço ainda às empresas associadas que tanto colaboram com a Abinee. E aos patrocinadores deste Evento Anual da Indústria Elétrica e Eletrônica.

Ressalto também o apoio incondicional recebido do Conselho de Administração  da Abinee, presidido pelo nosso companheiro Irineu Govêa, na condução dos assuntos estratégicos do setor.

Muito obrigado aos nossos colaboradores, sem os quais não seria possível desempenharmos nosso papel. Também aos jornalistas que cobrem o setor e à imprensa em geral. E a todos que aqui estão e que trabalham pelo engrandecimento do Brasil.

Mais do que nunca, o momento requer que sejamos fortes e confiantes de que ano novo trará a vacina para boa parte das doenças brasileiras.

Desejo a todos um excelente 2021.

Muito obrigado!

 
 
Abinee - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica

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