Perspectivas 2016: Áreas temáticas

21/12/2015

Sem otimismo para 2016

Celso Luís Martone,

Diretor de Economia

O ano de 2015 é para ser esquecido. O PIB deve cair 3%, o desemprego ameaça retornar aos dois dígitos, a inflação saltou para 10% e a renda real das famílias encolheu 5%. Só o setor público não emagreceu, porque ainda consegue financiar seus gastos com endividamento galopante. A situação da indústria de transformação é ainda mais grave. O produto industrial deve cair mais de 6%, a produtividade está em declínio e o investimento vem se contraindo há vários anos. No topo de tudo isso, as autoridades do governo federal estão paralisadas e não tem qualquer estratégia ou plano de ação a não ser sobreviver no poder. O setor eletroeletrônico, como não poderia deixar de ser, segue a tendência da indústria em geral, porém com maior intensidade. A produção física do setor deve cair 20%, mais do que o dobro da queda da indústria de transformação. Isso se deve, no setor elétrico, que produz bens de capital, à forte queda dos investimentos no País; no setor eletrônico, cuja linha de produtos tem elevada elasticidade-renda, à queda do rendimento real das famílias e à contração do crédito. Esta é uma situação típica em períodos de incerteza como o que estamos vivendo. Infelizmente, não podemos ser otimistas em relação a 2016. Os problemas que nos levaram a esta situação não estão resolvidos. As previsões atuais indicam nova queda do PIB (entorno de 1 e 1,5%) e queda talvez de 2% da produção industrial. O setor eletroeletrônico não ficará imune e deverá sofrer nova retração de produção, quiçá bem menor do que a deste ano. A expansão das exportações, agora que a taxa de câmbio real está no lugar certo, é a única oportunidade que resta para compensar, ainda que parcialmente, as agruras do mercado interno.

Dificuldades no front

Rubens Barbosa,

Diretor de Relações Internacionais

A desvalorização do dólar, que alcançou 60% nos últimos doze meses (até agosto), veio em auxílio de alguns setores. Entretanto, para as empresas que estão se beneficiando da depreciação do real, continuará o problema da alta volatilidade do câmbio, que não permite uma previsão segura para decisões de fechamento do câmbio nas exportações e para a volta dos investimentos. Do ponto de vista externo, os fundamentos negativos da economia global e do comércio internacional, não justificam expectativas mais positivas para os próximos meses e anos. O crescimento do intercâmbio comercial global continuará reduzido e ficará em torno de 2,5%, bem abaixo do crescimento do produto global, ao redor de 3,5%. É difícil, assim, prever como o mercado externo possa ser visto como uma saída para a indústria nacional em 2016. Alguns segmentos e algumas empresas poderão se beneficiar em função da desvalorização cambial, mas o setor como um todo ainda terá dificuldade para encontrar oportunidades, o que poderia vir a ocorrer a partir de 2017, caso as medidas econômicas visando ao equilíbrio da economia sejam bem sucedidas. A conquista de novos mercados e a retomada do dinamismo das exportações vão depender da manutenção da tendência do Real desvalorizado (em torno de R$ 3,80 a R$ 4,00) e de ganhos incrementais, no esforço de reduzir o custo Brasil. Nem a desvalorização do real, nem a queda do custo Brasil, contudo, será suficiente. Daí a importância de a indústria manter a pressão para o governo voltar a discutir a agenda estrutural de reformas, mas também uma nova forma de inserção nos fluxos dinâmicos de inovação do comércio global pela gradual abertura da economia. Quanto às negociações comerciais, que poderiam abrir novas oportunidades de liberalização de comércio e abertura de mercado, o Brasil continua marginalizado. O governo brasileiro iniciou conversações para o aprofundamento de acordos com o México, Colômbia, Peru, no âmbito da ALADI, mas com poucos resultados perspectivas 2016 práticos até agora. As autoridades acenam com conversas preliminares com Canadá, Líbano e Tunísia. O Mercosul continua imobilizado, longe das discussões em relação às mega negociações, como as da Parceria Trans-Pacífico (PTP) e da União Europeia e EUA, e aguarda uma decisão da União Europeia sobre a abertura ou não das negociações em 2017. Os acordos PTP, assinados recentemente, envolvendo 12 países, entre os quais os EUA, o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia e o Vietnã, terão implicações negativas para produtos industriais e primários brasileiros pela concorrência preferencial dos países membros para o fornecimento ao mercado regional ampliado.

Diálogos para implantar Logística Reversa

João Carlos Redondo,

Diretor de Sustentabilidade

Os trabalhos em torno da implantação da logística reversa de produtos eletroeletrônicos no Brasil têm sido um grande exercício de cidadania e um desafio de mudança cultural e de simplificação de procedimentos fiscais, legais, tributários e técnicos. Percebemos, ao longo dos anos, que devemos manter o esforço de eliminação das burocracias, que muitas vezes criamos, na tentativa de garantir o máximo rigor na implantação de um novo marco leal. Desta forma, acaba-se por cair na armadilha da complexidade e que, invariavelmente, leva à ineficiência, perda de energia, atrasos e custos elevados. Após quase cinco anos de muito trabalho, acertos, erros, evoluções, diálogo e, claro, aprendizado, o setor se orgulha de ter contribuído, juntamente com importantes representantes de outros setores envolvidos, para a construção de uma agenda positiva que visa a viabilizar a assinatura de acordo setorial para o setor eletroeletrônico. Os estudos contratados para entendimento da complexidade de implantação da logística reversa no setor identificaram desafios que devem ser superados até a assinatura do acordo, de forma a dar segurança jurídica às empresas, reduzindo e inibindo ações discricionárias no processo de fiscalização do cumprimento do marco legal. A Política Nacional de Resíduos Sólidos trouxe importantes mudanças que toda a sociedade se beneficiará ao longo dos anos, em especial, a chamada Responsabilidade Compartilhada. Mas há de se destacar a necessidade de um tratamento único e igualitário para todos os atores da cadeia de valor (importadores, fabricantes, distribuidores, comércio, consumidores e governo). Não deve haver tratamentos diferenciados ou ainda exclusões de responsabilidades de quem quer que seja. O Brasil, como País de dimensão continental, possui desafios logísticos que levam à discussão da simplificação da documentação exigida tanto para o transporte dentro dos estados quanto interestadual. Toda a exigência que advém da implantação do modelo de logística reversa requer investimentos elevados para viabilizar a logística, plano de comunicação, operação, reciclagem, tecnologia e controles, pois são metas agressivas nos primeiros cinco anos de trabalho, que exigem a criação de uma forma de financiamento. O setor propõe o estabelecimento do denominado Visible fee ou Eco Valor, uma importância que seria paga na compra de um novo produto, destacada em nota e não tributada, destinada a um fundo administrado por uma entidade gestora para operacionalização de todas as atividades futuras envolvidas na logística reversa dos eletroeletrônicos. O setor tem dialogado com todos os atores governamentais, no sentido de viabilizar a assinatura do acordo setorial em 2016. Os pontos têm sido amplamente discutidos com o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA, nos Ministérios do Desenvolvimento da Indústria e Comércio, da Fazenda e Receita Federal, e temos a convicção que o setor terá apoio para superar os desafios num prazo adequado. A Abinee criou uma entidade Gestora que será responsável, já em 2016, por gerenciar a operação do modelo de logística reversa definido pelo setor eletroeletrônico.

Investimentos em P&D sob risco

Jorge Salomão,

Diretor Tecnologia

O ano de 2015 começou com forte deterioração do cenário econômico, levando o governo a anunciar medidas recessivas. Parte importante do aumento da receita originou-se da eliminação de estímulos fiscais de uma forma geral. A falta de planejamento e a necessidade de reajustes criaram um ambiente de tomada de decisão com pouca ou quase nenhuma influência do setor produtivo e as consequências desastrosas que medidas tomadas neste ambiente trazem à sociedade. No âmbito dos programas de estímulo ao desenvolvimento tecnológico, a mais ameaçadora das medidas está contida na MP 694 que, na prática, desestabiliza o ambiente de investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, e afeta diretamente o setor eletroeletrônico, fragilizando sua já abalada competitividade. As ações do governo no âmbito do ajuste fiscal impactaram diretamente a desoneração da folha e a Lei do Bem expondo a um perigoso risco à continuidade das atividades de P&D nas empresas que são responsáveis, em qualquer cenário, pela maior parcela do risco no investimento. Os ajustes propostos pelo governo e as medidas provisórias que os acompanham, em particular a MP 694, trazem indesejáveis desdobramentos nos investimentos em P&D e, de forma inevitável, na qualidade, competitividade e capacidade de inovação da indústria eletroeletrônica. Mesmo que não seja aprovada, a edição da MP 694 cria um ambiente de incerteza para a indústria, para os Institutos de Ciência e Tecnologia e para o setor como um todo, afetando as decisões em favor de investimentos. O setor eletroeletrônico brasileiro é competitivo. Evidentemente ressente-se da brutal carga tributária, da ausência de uma política de desenvolvimento de infraestrutura, que, combinadas, afetam a competitividade não só no mercado local, mas em escala mundial. Neste ambiente em que fatores estruturais que deterioram a competitividade das empresas continuam não equacionados, adicionar a eliminação dos estímulos ao desenvolvimento tecnológico é não querer o desenvolvimento do Brasil. Mesmo diante deste cenário, 2015 foi um ano de ações efetivas da Abinee no apoio ao desenvolvimento tecnológico das empresas do setor. Ações que passaram por uma ativa participação do IPD Eletron - nosso Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento - na aproximação indústria com ICTs, na realização do AbineeTEC, na defesa da relevância das atividades de Pesquisa e Desenvolvimento e na aproximação do setor, na forma de seminários, às alternativas de financiamento à Pesquisa e Desenvolvimento.

 
 
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