Especialistas defendem digitalização do setor elétrico para evitar crises

06/10/2021

A digitalização do sistema elétrico evitaria crises como a atual, possibilitando melhor gestão e eficiência, além de opções de serviços e tarifas, com redução de custos para o consumidor. As razões para o adiamento de uma efetiva modernização na infraestrutura elétrica no País, as tecnologias disponíveis pelas empresas e os exemplos internacionais foram discutidos por empresários e especialistas no Abinee TEC Debates: Modernização da Infraestrutura Elétrica, realizado pela Abinee na terça-feira (5).

Na abertura do evento, o presidente da Abinee, Humberto Barbato, afirmou que a atual crise hidroenergética é uma oportunidade que pode proporcionar profundas transformações nas redes de energia elétrica. “Se por um lado a matriz de geração está mais diversificada e o sistema de transmissão mais robusto em relação à crise de 2001, a necessidade de utilização de energia elétrica hoje é muito maior, o que torna urgente a modernização dessa infraestrutura”.

Ele destacou que, representando os fabricantes de equipamentos para o setor elétrico, a Abinee tem contribuído com o Ministério de Minas e Energia apresentando medidas para contornar a situação. “Medidas de curto prazo, para passarmos por este momento de crise, e medidas de médio e longo prazo, para evitar novas crises”, disse.

Barbato afirmou que, para além da situação emergencial, a modernização da infraestrutura elétrica deve ser discutida em todos os seus aspectos, começando com medidores inteligentes, automação de linhas, passando pela digitalização das redes e indo até novos serviços, tarifas e formas de comercialização.

Na mesma linha, o diretor da área de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica da Abinee, Marcelo Machado, afirmou que todas as ações e pleitos da Associação tem em vista a introdução de tecnologia no setor elétrico. “A disrupção tecnológica que o mundo vive deve provocar uma disrupção na forma de pensar o sistema”. Ele acrescentou que, apesar de o País dispor de uma matriz diversificada e sistema interligado, a modernização e a digitalização possibilitarão atender às necessidades crescentes e expandidas por parte do consumidor, além de suportar a demanda mais complexa com a chegada de novas tecnologias.

Três dogmas

Durante o evento, o consultor Cyro Boccuzzi apresentou estudo encomendado pela Abinee sobre o assunto, abordando três dogmas que dificultam a modernização e a implementação no Brasil de políticas governamentais claras e específicas.

Segundo ele, a desorganização do setor é comprovada pela sucessiva necessidade de socorros financeiros às empresas distribuidoras ao longo dos últimos 26 anos para equilibrar as contas do setor, totalizando mais de R$ 455 bilhões no período. “Esse valor possibilitaria a quatro implementações de smart grid no País”.

Boccuzzi ressaltou o descompasso entre a demanda por parte dos consumidores no consumo de novas tecnologias e a estrutura das redes para atender a essa demanda. “Nossa modernização é fundamental e deveria ser feita de forma sólida, mas está sendo sistematicamente postergada.

Os motivos para isso estão sustentados em três dogmas, que, segundo ele, “não têm aderência com o mundo real”. O primeiro deles é “quem vai pagar a conta?”. O Brasil tem adiado a transformação sob esse argumento e delegado as mudanças às próprias empresas de energia. Estas, entretanto, são ainda remuneradas por modelos regulatórios obsoletos, que não estimulam a renovação de ativos tradicionais pelas novas tecnologias com segurança de reconhecimento dos investimentos.  “Na prática, o consumidor de energia já vem pagando a conta dos socorros periódicos nas tarifas, sem que haja um legado e investimentos para a modernização. Ou seja, pagamos a conta e não resolvemos o problema”.

Outro dogma diz respeito à noção de que o Brasil já possui a matriz elétrica mais renovável do mundo e por isso não faz sentido ter políticas públicas de descarbonização. Os defensores deste dogma se esquecem que a expansão, principalmente, pelas usinas eólicas e solar dependem de comportamento dos ventos e do sol, e, portanto, não são controláveis. Por isso, a orquestração de seu funcionamento seguro depende de sistemas avançados de gerenciamento e controle, por meio de ferramentas de tempo real do lado da oferta e da demanda.

O terceiro dogma é que a regulação deve assegurar a modicidade tarifária, que é priorizada pelos consumidores.  Esse é o mais perverso de todos”. Segundo ele, o consumidor anseia por ofertas e alternativas que atendam às suas necessidades, além de previsibilidade. “Hoje não damos opções aos clientes”.  O resultado disso é que a conta da modicidade é empurrada para o futuro. “Se mantivermos o status quo, continuaremos numa lógica suicida que trará mais encargos e ineficiência”.

Boccuzzi acrescentou que o aumento da pressão sobre as redes elétricas, com o maior uso da tecnologia pelas pessoas, deve colocar a modernização do sistema como prioridade. “Esse tema tem que entrar na agenda do governo”.

A expertise da indústria no País

O Abinee TEC Debates contou com a participação de empresas do setor, que apresentaram soluções disponíveis e experiências como forma de contribuir para a modernização da infraestrutura elétrica. Participaram as associadas da Abinee: Hitachi ABB Power Grid, Landis+Gyr, Nansen, S&C, Schneider Electric e Siemens. O evento também contou com o apoio da KRJ.

Na ocasião, os representantes falaram sobre as lições do passado que podem ser utilizadas para enfrentar crises energéticas, as experiencias internacionais que podem ser replicadas no País, além de como a digitalização das redes elétricas poderiam contribuir para o atual momento.

 
 
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