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A terceira segunda-feira de janeiro (21) entrará para a história dos mercados de capitais como a "segunda negra". Os acontecimentos daquele dia trouxeram de volta a lembrança do 11 de setembro, quando ataques terroristas nos EUA fizeram as bolsas mundiais despencarem, com o índice Bovespa recuando 9,17% em um único dia. O fato é que o nervosismo voltou a reinar no mercado de ações - mais integrado e alavancado por operações de derivativos do que no passado - amplificando a dimensão da crise.
Distinta daquele momento, quando iniciativas suicidas provocaram pânico em todo o mundo, a "azia" do mercado está associada à possibilidade da economia americana ingressar em um contexto recessivo, fruto da má gestão do crédito imobiliário pelas instituições financeiras americanas. A cada nova rodada de indicadores econômicos, as bolsas de valores oscilam para cima e para baixo, na frenética busca dos investidores em antever o que acontecerá à frente.
Evidentemente, as autoridades dos EUA estão atentas e atuando para evitar agravamento da situação econômica. O Banco Central americano (FED), além de diminuir a taxa de redesconto para empréstimos ao sistema financeiro, reduziu também a taxa básica de juros (federal funds rate) em 1,25 p.p apenas no mês de janeiro, sendo que houve queda de 1,75 p.p desde setembro de 2007.
O pacote de incentivos fiscais, de cerca de 1% do PIB, foi aprovado em tempo recorde pelo Congresso dos EUA, até porque este é um ano eleitoral por lá. É evidente que as autoridades não vão medir esforços para estancar a crise e, conseqüentemente, evitar maiores distúrbios no cenário internacional. Se as políticas monetária e cambial dos principais bancos centrais do mundo se mantiverem em sintonia com as iniciativas americanas, a exemplo da redução de 0,25 p.p da taxa de juros feita pelo Banco Central da Inglaterra esta semana, dificilmente assistiremos solavancos fortes na economia mundial. Nesse momento, a palavra de ordem no ambiente internacional é coordenação.
O Brasil não está imune às repercussões desta crise, mas torna-se crucial assegurar o ímpeto que a economia brasileira demonstrou no ano passado. As previsões mostram que o PIB deve crescer acima de 5,0%, em 2007, o que, por si só, gera um carregamento estatístico (carry over) da ordem de 2,5% a 3,0% para este ano. Ainda que a crise mundial roube de 0,5 p.p. a 0,75 p.p. do nosso crescimento, a economia brasileira, amparada por fundamentos sólidos, deve crescer entre 4,0% a 4,5%, em 2008.
O momento é de reforçar as apostas no mercado interno, sendo interessante também o estreitamento dos laços comerciais com países da América Latina e outras nações emergentes, já que a situação será muito mais instável no hemisfério norte. Por isso, entendemos que são prioridades a aceleração dos empreendimentos do PAC, a divulgação da nova política industrial, tecnológica e de comércio exterior (PITCE), e a retomada das discussões sobre reforma tributária.
Sabemos que o Brasil tem em mãos os ingredientes de uma receita de sucesso para a travessia da crise. Para variar, os maiores riscos estão do lado do governo que, por vezes, insiste em errar a mão e fazer o doce desandar. Inação e erros estratégicos precisam ser afastados para que o setor privado e o País não paguem, mais uma vez, o custo dos erros públicos.
(*)Humberto Barbato, presidente da ABINEE
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