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Há algo de novo no Planalto Central. A decisão do Copom de reduzir a taxa Selic em
meio ponto percentual traz perplexidade aos atores financeiros e inspiração
para o setor produtivo nacional. Vale notar que o corte é o primeiro feito pelo
Copom em dois anos e interrompe a série de aumentos sucessivos da taxa de juros
iniciada em janeiro deste ano. No decorrer dos últimos anos, temos assistido a
mesma cantilena: entidades representativas da indústria e do comércio
criticando a decisão de manutenção ou elevação da taxa básica de juros no
Brasil e agentes financeiros aplaudindo. Dessa vez, a nota é diferente.
A apreensão do mercado financeiro, preso "ao quadrado" conceitual que rege as
suas análises, não permite que enxergue o que vai além da decisão da autoridade
monetária. Após a divulgação do comunicado do Banco Central, diversos analistas
financeiros desfiaram um rosário de acusações, julgando a decisão precipitada e
arriscada, uma vez que a meta da inflação para o próximo ano ainda não está
assegurada, e que o Banco Central capitulou diante das pressões do Executivo.
Nos próximos dias, terão que se debruçar sobre as suas planilhas financeiras e
recalcular os vultosos, mas agora frustrados, lucros que teriam caso o Banco
Central sancionasse as suas expectativas com respeito à taxa básica de juros.
A decisão do Copom não expressa subserviência ao desejo do governo federal. Ao
contrário, ratifica a sua posição de independência técnica. Ao olhar à frente,
percebemos que o regime de metas de inflação incorpora o nível de atividade
econômica como variável importante do modelo. Como há anos procede o FED, é
alvissareiro que a autoridade econômica não restrinja o seu raio de ação à taxa
de inflação, mas leve também em consideração o nível de atividade e o
desempenho do mercado de trabalho. É interesse pensar porque a independência do
Banco Central apenas se afirma quando decide a favor das expectativas do
mercado financeiro.
Desta vez, o Banco Central foi tecnicamente preciso. O cenário externo é grave. A
fragilidade de várias nações desenvolvidas, em particular dos Estados Unidos,
traz inquietações que estão longe de ser resolvidas. É impossível descartar a
hipótese de um segundo mergulho - aquilo que os economistas tem chamado de
"double dip". Nesse caso, a recaída recessiva encontrará vários países com
explosiva relação dívida/PIB, instituições multilaterais com fortes restrições
orçamentárias, risco de deflação e a ameaça de uma "guerra cambial" sem
precedentes nos últimos cinquenta anos.
Do lado interno, a indústria vem derrapando nos últimos meses. A produção
industrial dá sinais de estabilidade, com risco de desaceleração. Os índices de
confiança de empresários e consumidores recuaram, sinalizando para restrições
tanto pelo lado do consumo quanto dos investimentos. No setor elétrico e
eletrônico, a diminuição do otimismo das empresas pode ser verificada através
das projeções para o faturamento do setor em 2011, que, no início deste ano,
era de crescimento de 12%, e foi revisada, no final de junho, para 8% na
comparação com 2010. Em síntese, a ameaça do cenário externo exige decisões
prudenciais tanto para desestimular a valorização cambial como para minimizar o risco
de forte desaceleração econômica. A decisão do Banco Central atua nos
dois sentidos.
Outro aspecto que sobressai da decisão do Copom - digno de nota – foi o esforço de
coordenação das ações de política econômica entre Banco Central e Ministério da
Fazenda. Antes da redução da taxa Selic, presenciamos o anúncio do governo para
o aumento da meta de superávit primário deste ano, acompanhado pelo envio ao
Congresso Nacional de uma proposta orçamentária para 2012 que se propõe mais
austera do que a atual. Não resolve tudo, mas é o começo. A coordenação entre política
fiscal e monetária, raramente vista em períodos anteriores, é o que se espera
das nossas autoridades econômicas. Entender que, em nome da sua independência,
o Banco Central pode agir isoladamente, é ignorar os interesses da nação. De
resto, é tudo bobagem.
É lugar comum dizer que ainda há muito por fazer. Sabemos que há. Mesmo a
austeridade fiscal ainda não está totalmente demonstrada. Somente o tempo dirá
se ela vai vingar. De qualquer modo, a redução da taxa de juros indica que o
regime de metas passa a ser operado em sentido lato, ou seja, olhemos para a
inflação, sem ignorar o nível de atividade. Com isto, saímos de uma nota só
para um ensaio de orquestra.
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