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O Brasil finalmente alcançou o status de grau de investimento. Esperada para 2009, a elevação do rating da dívida soberana brasileira pela agência Standard & Poors (S&P) colocou o país em um seleto grupo cujo risco de se tornar inadimplente é considerado baixo. A decisão da S&P representa a primeira conquista para que o governo e as empresas brasileiras obtenham financiamento externo a juros menores. Outras agências de risco devem reexaminar a posição do Brasil ainda este ano.
É importante notar que o chamado rating global de um país explicita a avaliação que uma determinada agência tem sobre o risco dessa nação (ou empresa) não pagar os títulos, de longo prazo, que lançou no mercado internacional. O rating é, portanto, uma previsão ou um indicador do potencial de perda de crédito devido à falta de pagamento, atraso no pagamento ou pagamento parcial ao tomador do título da dívida. Hoje, sabe-se o quanto custou a moratória da dívida externa brasileira nos anos oitenta.
A partir de informações diversas, o processo de classificação identifica o grau de risco de um determinado título mobiliário de longo prazo. Além disso, fazem parte do processo a conclusão sobre o rating apropriado e o monitoramento contínuo para determinar se a posição deve ser alterada. Embora cada agência utilize metodologia própria, de um modo geral, os países são classificados segundo duas categorias. Se a agência considera um país como "bom pagador", ele é classificado na categoria grau de investimento. Se visto como um pagador de risco razoável, fica na categoria grau especulativo. Em todas as agências, a melhor classificação que um país ou empresa pode atingir é o chamado triple A (AAA). Exemplos de triple A no Brasil encontram-se na Petrobrás e na Vale.
A condição de grau de investimento tornará a economia brasileira, a médio e longo prazo, menos suscetível à redução da liquidez global em conseqüência da crise norte-americana. O País tornar-se-á mais atraente ao capital estrangeiro, principalmente aos investidores institucionais (fundos de pensão e outros) que por razões estatutárias só podem investir em títulos privados e públicos com o "selo" de grau de investimento.
A curto prazo, prevê-se a forte entrada de capitais especulativos que virão desfrutar das vantagens oferecidas por uma economia que opera com a maior taxa real de juros do planeta. Isto não quer dizer que o Brasil se transformará no "paraíso dos especuladores", até porque para muitos já o é, mas que a nova condição brasileira trará investidores ávidos por ganhos elevados e imediatos, o que já faz o governo cogitar a possibilidade de estabelecer mecanismos de barreira à entrada desse capital.
Separando o joio do trigo, a entrada de investidores institucionais é bem vinda porque permitirá alongar ainda mais o prazo de vencimento dos títulos da dívida pública brasileira, ofertará crédito em condições mais atraentes para as empresas locais e dará maior liquidez ao mercado de capitais, beneficiando principalmente o chamado middle market, formado por empresas de menor porte que para crescer esbarram atualmente nas limitações do crédito caro e prazos exíguos. Além disso, trará associada a confiança de outros investidores estrangeiros, fato que, até certo ponto, foi antecipado pelo ingresso de US$ 8,9 bilhões de IED no primeiro trimestre desse ano, representando 34% a mais em relação à igual período do ano anterior.
Com a decisão da S&P, uma certeza e dois questionamentos passaram a fazer parte do debate sobre a política econômica no Brasil. A certeza é de que, se nada for feito, a taxa de câmbio atingirá, ainda no primeiro semestre deste ano, nível de R$ 1,50 ou até menos. As dúvidas consistem em, primeiro, saber se a decisão do Copom de iniciar um novo ciclo de aperto monetário contribuiu para a conquista antecipada do grau de investimento. Segundo, se a orientação mais austera deve persistir nas próximas reuniões do Copom, ou se o novo "status" do País assegura motivações suficientes para uma reversão na trajetória da taxa de juros.
Com relação à taxa de câmbio, a apreciação da moeda brasileira foi de aproximadamente 6,9% nos primeiros cinco meses desse ano e tende a se acentuar. De janeiro de 2004 até 03 de maio último, a valorização, em termos nominais, alcançou 42,81%¹, o que certamente deixa o Brasil como primeiro do ranking. Com base em informações do IPEA, a relação câmbio efetivo/salário e a taxa de câmbio efetiva real das exportações totais e dos manufaturados brasileiros, ilustra os impactos da valorização para a produção doméstica (ver gráficos).

O primeiro gráfico reporta a exata noção do encarecimento dos salários, medidos em dólar, para os produtores locais. Nota-se que o patamar recente já é ligeiramente inferior àquele verificado na fase do regime de bandas cambiais. Ou seja, o impacto do custo salarial (medido em dólar) é maior para as empresas locais atualmente do que fora nos anos de vigência do câmbio "semi-fixo". Retira-se competitividade da indústria produtora de bens comercializáveis (tradebles) e estreitam-se os limites de negócios para as empresas mais intensivas em mão-de-obra, deixando o mercado doméstico como o principal - para não dizer o único - espaço de atuação dessas empresas.

O segundo gráfico exibe a dependência brasileira das commodities agrícolas e minerais. Ao longo dos últimos anos, a apreciação da taxa de câmbio efetiva real trouxe maior impacto negativo para os produtos manufaturados do que para os básicos, embora também afete estes últimos. Isto porque a cotação internacional das commodities, aferida em dólar, subiu nos últimos anos, contrabalançando em parte o efeito da apreciação da moeda brasileira.
Ao insistir nessa trajetória, o governo brasileiro vem colhendo os resultados de seus erros. Entre janeiro e abril desse ano, o saldo comercial brasileiro afundou, sendo 64,5% menor que o registrado em igual período do ano passado. Os produtos manufaturados retraíram a sua inserção no comércio internacional e devem ser novamente penalizados com o recrudescimento da apreciação do Real, provocado pela elevação do Brasil à condição de grau de investimento. O Ministério da Fazenda avalia que a manutenção do dólar nesse patamar, ou mesmo uma queda maior, tende a abrir um buraco nas contas externas do país no médio prazo. Setores exportadores serão fortemente afetados e a geração de empregos poderá declinar nos próximos meses, após atingir o menor nível para o mês de março dentro da série histórica.
É possível imaginar que tal inquietação deve perturbar o sono dos membros do Copom. A decisão que vier a ser tomada em sua próxima reunião poderá aprofundar o processo descrito anteriormente ou sinalizar a modificação do horizonte.
Retornando aos dois questionamentos feitos acima, se os membros do Copom e o conjunto dos analistas financeiros endossarem a tese de que o aumento de meio ponto percentual da taxa Selic foi determinante para o País, antecipadamente, alcançar o grau de investimento, outras elevações da taxa serão efetuadas. O combate incessante ao recrudescimento da inflação será o principal argumento para reafirmar a austeridade da política monetária. Além disso, afirmar-se-á que o endurecimento contra a inflação trará ao País melhor posicionamento no ranking da S&P e a conquista do selo de investment grade das outras agências de classificação de risco.
Por outro lado, se a preocupação com o balanço de pagamentos influenciar os rumos da política monetária, é provável que na próxima reunião o Copom decida manter a taxa de juros no atual patamar para ingressar em um novo ciclo de afrouxamento monetário mais à frente.
Entretanto, a decisão final deve preservar o crescimento econômico do País neste e nos próximos anos. Por isso, o status de grau de investimento faz brilhar o setor bancário/financeiro e o mercado de capitais, mas não pode se limitar a isto. É preciso que em comunhão com a política monetária sejam asseguradas ao setor produtivo as condições necessárias para sustentar o atual crescimento.
*Estudo realizado pela assessoria econômica da ABINEE que norteou artigo do presidente Humberto Barbato, publicado na Folha de S. Paulo, em 08/05/2008.
1Uma forma mais simples de percebermos o efeito da valorização do real no encarecimento dos custos domésticos, medidos em dólar, reside no fato de que pela cotação de venda do dólar do último dia 03 de maio (R$1,65) o salário mínimo atual (R$ 415,00) corresponderia a US$ 251,00.
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