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DRI Clipping Semanal nº 22 - 01/06 a 05/06/09

Acordos Produtos e Mercados OMC Outros

O Parlamento do Mercosul e o eleitor
A menos de quatro meses para a definição das regras que presidirão a eleição para a bancada brasileira no Parlamento do Mercosul, inexiste consenso no Congresso Nacional sobre o tema. Será a primeira vez que o Brasil elegerá uma bancada de deputados e senadores para atuar exclusivamente no âmbito do parlamento do bloco que está sediado em Montevidéu.
Hoje a representação brasileira é de 18 parlamentares (metade de cada Casa), assim como a dos outros três países-membros: Paraguai, Uruguai e Argentina. Depois de árdua negociação, estabeleceu-se um cronograma para a entrada em vigor de uma representação mais proporcional à população de cada país.
Pelo acordo, Brasil e Argentina elegerão, respectivamente, 37 e 26 em 2010 e 75 e 32 em 2014. Uruguai e Paraguai se manterão nos atuais 18. Este último opôs forte resistência à proposta brasileira de reduzir o número de integrantes do Parlamento com o argumento de que já havia realizado eleições para seus representantes. Foi o único dos quatro países que já o fizeram.
Atualmente apenas três projetos tramitam na Casa. Um de autoria do deputado Carlos Zarattini (PT-SP) propondo escolha por lista fechada composta a partir do peso de cada região na Câmara Federal e dois da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), que tratam da cota por sexo na distribuição de vagas e da propaganda em rádio e TV para a campanha eleitoral dos candidatos.
Nem mesmo dentro dos partidos há consenso sobre o formato ideal do processo eleitoral. Na próxima semana, o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) deve protocolar um projeto de lei, também por lista fechada, mas composta a partir de vagas estaduais e não por região. Por essa proposta, pelo menos 21 Estados teriam um único representante, enquanto São Paulo poderia chegar a cinco, Minas a três e Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná a dois parlamentares.
Não há sequer convergência sobre a necessidade de uma mudança da Constituição prévia ao regulamento da disputa eleitoral. Apesar de o Parlamento do Mercosul não ter função legislativa, cabendo-lhe apenas fazer recomendações ao conselho executivo do bloco ou elaborar projetos de lei a serem enviados aos respectivos parlamentos nacionais, há quem veja na sua atuação uma afronta à cláusula pétrea da soberania.
Mais grave que o dissenso é o debate incipiente do tema no Congresso, reflexo do pouco interesse dos partidos no Parlamento do Mercosul. O bloco sequer consta das diretrizes da maioria dos partidos. Todos falam vagamente da necessidade de se aumentar a integração regional, mas sem menção específica ao Mercosul.
O PT foi o único a realizar um seminário específico para o debate do bloco, ainda assim numa conjuntura (1993) em que parecia estar mais interessado em colocar em evidência sua oposição à política externa do Executivo do que propriamente incorporar o tema na ação política do partido.
Esse desinteresse se deve em grande parte à dificuldade de aquinhoar votos com política externa. E o distanciamento do eleitor do tema vem, em grande parte, ao pontificado do Itamaraty nas diretrizes da política externa brasileira. Pela Constituição, cabe ao Congresso apenas ratificar tratados internacionais, autorizar a entrada do país em guerras ou sancionar acordos de paz.
Mas se este insulamento do Itamaraty aprofundou-se numa conjuntura econômica de substituição de importações, a inserção brasileira no cenário internacional se modificou com a globalização, o que, acabou atraindo o interesse da sociedade civil, impactada por esta abertura.
Os setores empresariais são os mais visivelmente atraídos pelo tema, dado o peso que a diversificação das relações comerciais do Brasil adquiriu. Ainda que o impacto da crise econômica nos parceiros brasileiros do Mercosul fez com que fosse carreado para a China e não para o bloco o espaço perdido para as exportações brasileiras no mercado americano, é generalizado o reconhecimento dos avanços na integração comercial da região.
A dificuldade de atrair o interesse do eleitor comum pelo parlamento do bloco não é uma exclusividade do Mercosul. Na União Europeia, bloco mais antigo e melhor institucionalizado que o do Mercosul, as eleições que começaram ontem e vão até domingo estão sendo presididas pelo descrédito do eleitor.
Mas essa perda de legitimidade do Parlamento Europeu é, em grande parte, relacionada à crise econômica contra a qual os cidadãos veem a ação de seus representantes no bloco ter pouca efetividade.
A América do Sul, apesar de atingida, ainda é considerada uma região à qual abriram-se oportunidades na crise econômica mundial. O Parlamento do Mercosul funcionaria, assim, como uma caixa de ressonância dos interesses sociais nas decisões do bloco. A finalidade da eleição direta de seus representantes é conferir mais legitimidade a esta representação.
A proposta da entrada da Venezuela no Mercosul demonstra que não é impossível atrair o interesse do cidadão comum. O Mercosul sempre foi um tema mais afeito aos Estados do Centro-Sul, que têm relações comerciais ou fronteiras com os países do bloco. A entrada da Venezuela no Mercosul já desperta mais interesse pelo bloco nos Estados do Norte. Pela proximidade geográfica, o ingresso venezuelano é visto no Norte como uma forma de aproximar a região dos temas do Mercosul.
Este é um dos problemas dos partidos de oposição nas eleições para a bancada brasileira no Mercosul. Como a oposição, notadamente PSDB e DEM, tem se destacado no ataque à entrada da Venezuela no bloco, é de se esperar que os candidatos desses partidos ao Parlamento do Mercosul venham a ter dificuldades de serem escolhidos para as vagas a serem reservadas aos Estados do Norte.
Ao Executivo, que tem sido protagonista nesses quase 20 anos de funcionamento do bloco, caberia dar o exemplo de valorização da representação nacional no Parlamento do Mercosul. Os ministros, por exemplo, têm sido insistentemente convocados para debater com a bancada brasileira as políticas setoriais de integração. E têm, solene e reiteradamente, ignorado o convite. (Valor Econômico – 05/06/09)

Barreiras na Argentina
Industriais do Brasil e da Argentina devem reunir-se hoje e amanhã para discutir cotas de exportação para as empresas brasileiras. Enquanto as cotas se mantêm, há meses, para várias linhas de produtos, exportadores chineses conquistam fatias cada vez maiores do mercado argentino. Esse é mais um sintoma de anomalia profunda no Mercosul. Enquanto se impõem barreiras ao comércio entre os dois maiores sócios do bloco, indústrias de fora tomam espaço das empresas da região. Representantes da indústria brasileira provavelmente vão chamar a atenção para esse fato, no encontro de dois dias em Buenos Aires.
As barreiras argentinas aumentaram desde o agravamento da crise financeira global, no fim do ano passado. Importações de vários tipos de produtos passaram a depender de licenças não automáticas. Esse foi o ponto de partida para a negociação de cotas, isto é, de restrições voluntárias à exportação de produtos brasileiros.
Há cerca de um mês, foram negociadas cotas para baterias (850 mil unidades em 2009) e papel (50 mil toneladas). As novas discussões devem tratar do comércio de freios, têxteis, calçados e móveis. O ingresso de todas essas categorias de produtos no mercado argentino já vem sendo limitado há algum tempo e não há perspectiva de liberação a curto prazo.
Industriais brasileiros têm preferido negociar cotas, para diminuir a incerteza no comércio e o risco da aplicação sem transparência de barreiras burocráticas. O governo brasileiro tem estimulado esse tipo de acordo, como forma de apoio à recuperação da indústria argentina. Já havia barreiras antes da crise internacional e as novas limitações ao comércio entre os dois países são apenas mais um capítulo de uma história já muito longa.
Com a recessão, o comércio bilateral diminuiu. As empresas brasileiras foram duplamente prejudicadas, porque as novas barreiras foram levantadas num mercado já reduzido pela crise. De janeiro a maio, as exportações brasileiras para a Argentina totalizaram US$ 3,89 bilhões, valor 43,7% menor que o de um ano antes.
As vendas argentinas para o Brasil somaram US$ 3,93 bilhões e ficaram 25,1% abaixo do valor do período correspondente de 2008. Inverteu-se o resultado e assim foi interrompida uma série de 69 meses de superávits a favor do Brasil. O pior efeito da crise não é a inversão do saldo, mas a forte contração do comércio entre as duas maiores economias da América do Sul.
Os dois países têm aplicado medidas protecionistas, mas, no caso da Argentina, o recurso a essa política tem sido quase rotineiro. O investimento de boa parte da indústria argentina tem sido insuficiente para elevar seu poder de competição. Este é o problema real. Enquanto não for resolvido, não haverá comércio realmente livre entre os dois maiores sócios do Mercosul. Além disso, o desigual poder de competição das indústrias dos dois países dificulta a formulação de estratégias conjuntas para negociações com parceiros de fora. Isto foi comprovado nas discussões com a União Europeia e nas negociações da Rodada Doha.
Governos deveriam adotar medidas protecionistas apenas de forma transitória, para dar tempo a ações de fortalecimento dos produtores nacionais. As barreiras impostas pelas autoridades argentinas não têm servido a esse propósito. Em contrapartida, têm produzido perigosos desvios de comércio. Em mais de uma ocasião, produtores brasileiros afetados por barreiras protecionistas perderam mercado para concorrentes de fora do bloco. Este problema agora se repete.
Barreiras também foram impostas a produtores chineses, poderão alegar empresários e autoridades da Argentina. É verdade, mas não tem sentido dar tratamento igual a um país de fora e a um parceiro numa união aduaneira. Além do mais, as vantagens dos produtores chineses são muito menos transparentes que as dos brasileiros. Bastaria citar a política de câmbio chinesa para estabelecer uma distinção importante, mas a discussão poderia ir muito mais longe.
Empresários brasileiros têm admitido a política de cotas e é de seu interesse um jogo mais equilibrado com os parceiros argentinos. Mas não têm por que aceitar restrições, especialmente no Mercosul, em benefício dos concorrentes chineses.(O Estado de S. Paulo – 04/06/09)

Israel pede a Congresso aprovação rápida de acordo com o Mercosul
O ministro da Indústria, Comércio e Trabalho de Israel, Binyamin Ben Eliezer, fez um apelo a deputados e senadores do Brasil para que aprovem com rapidez o acordo de livre comércio entre o país e o Mercosul. Cada dia que passa sem ratificar o acordo, é um dia que ambas as economias perdem, disse Ben Eliezer, por e-mail, ao Valor.
O acordo entre Mercosul e Israel - o primeiro do bloco com um país de fora da América Latina - enfrenta um lento processo de aprovação desde sua assinatura, em dezembro de 2007. O acordo só chegou ao Congresso no segundo semestre de 2008 e, até agora, não passou da comissão mista do Mercosul, a primeira de muitas instâncias de avaliação.
Os congressistas estão preocupados com as ações de Israel na Palestina. Também não ajudou na tramitação do acordo a firme manifestação do Itamaraty, que classificou a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, no início de ano, de terrorismo de Estado.
No relatório preliminar, o senador Eduardo Azeredo (PSDB) emitiu parecer favorável, argumentando que se tratava de um avanço importante, enquanto iniciativas multilaterais mais ambiciosas não prosperam. Mas manteve o veto previsto no projeto inicial para os produtos procedentes das áreas ocupadas por Israel na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
O Mercosul também está negociando um acordo com a Conselho de Cooperação do Golfo. Travadas desde janeiro de 2007 por resistência da indústria química brasileira, as negociações foram relançadas em recente viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Arábia Saudita, mas ainda não há reunião de negociação marcada. O ministro israelense disse que vê a iniciativa com apoio total e insinuou que quem sabe, no futuro poderia se transformar em uma plataforma de cooperação.
Segundo Evandro Didonet, diretor de negociações internacionais do Itamaraty, a tramitação de acordos no Congresso é demorada para qualquer parceiro. Ele lembrou, por exemplo, que o tratado de preferências tarifárias com a Índia, que inclui poucos produtos, foi assinado no fim de 2004, mas só entrou em vigor esta semana.
O acordo entre Mercosul e Israel abrange 95% das tarifas, mas deve ser mais lucrativo para a indústria, já que muitos produtos agrícolas de interesse do Brasil ficaram de fora por pedido israelense. Os setores mais beneficiados serão calçados, móveis, eletrodomésticos, autopeças entre outros, porque as tarifas de importação em Israel vão cair de 12% para zero.
Ben Elizer disse que Israel importa US$ 50 bilhões do mundo por ano, mas apenas 8% do Brasil e frisou que o comércio de seu país com o México, por exemplo, duplicou depois de um acordo. A corrente de comércio entre Brasil e Israel chegou a US$ 1,6 bilhão em 2008, mas com superávit de US$ 822 milhões a favor de Israel. Enquanto os brasileiros vendem commodities, os israelenses exportam manufaturados. (Valor Econômico – 04/06/09)

A Argentina, Chávez e o Mercosul
O Mercosul não deve aceitar o coronel Hugo Chávez em sua mesa de decisões. Essa é a nova bandeira dos líderes empresariais argentinos. Desde a semana passada eles pressionam o Congresso e a presidente Cristina Kirchner para retirar o apoio oficial ao ingresso da Venezuela no bloco. A campanha foi desencadeada pela estatização de três indústrias do grupo Techint, anunciada poucos dias depois de uma visita do presidente venezuelano à Argentina. O desaforo foi agravado quando Chávez garantiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num encontro em Salvador, na Bahia, não ter a intenção de expropriar empresas brasileiras. A presidente Cristina Kirchner aceitou facilmente a explicação do colega venezuelano sobre a declaração no Brasil - foi uma brincadeira -, mas o empresariado não ficou satisfeito. Afinal, a decisão de estatizar as três companhias foi mantida.
Os líderes do setor privado argentino tentam mobilizar os colegas brasileiros, paraguaios e uruguaios para impedir a sujeição do Mercosul aos objetivos da política bolivariana.
Se os empresários brasileiros entrarem no movimento e decidirem agir com determinação, talvez ainda possam impedir uma votação pró-Chávez no Senado. Na Câmara dos Deputados, a pretensão chavista de influir nas deliberações do bloco já foi aprovada.
A decisão do presidente Hugo Chávez de implantar na Venezuela o modelo socialista é soberana, mas é contrária ao modelo de integração do Mercosul, disse o secretário da União Industrial Argentina, José Ignacio de Mendiguren.
Ele se referia não apenas ao compromisso democrático do bloco regional, mas também ao regime de investimentos nos países do bloco. Desapropriações como aquelas decididas na Venezuela são incompatíveis com a segurança jurídica indispensável à integração. Em documento entregue a deputados da oposição, líderes empresariais condenaram a atitude complacente de autoridades argentinas: quando se ferem os interesses nacionais, não se trata de uma decisão interna e soberana de outro Estado, como deploravelmente dizem membros do governo argentino, mas de medidas que afetam a relação entre países. Essa mesma lição poderia ter sido ministrada ao governo brasileiro, quando baixou a cabeça e ainda tentou justificar as agressões à Petrobrás praticadas pelo discípulo boliviano de Hugo Chávez, o presidente Evo Morales.
A complacência da presidente Cristina Kirchner é explicável por sua dependência financeira do Tesouro venezuelano, principal financiador da dívida pública argentina. Sem acesso ao mercado internacional e sem disposição para buscar uma composição com o Fundo Monetário, as autoridades argentinas acabaram aceitando o auxílio de Chávez, empenhado em usar os petrodólares de seu país para ganhar influência política na América Latina. As autoridades brasileiras não têm essa desculpa: alimentaram as ambições do caudilho venezuelano e de seus discípulos por mera incompetência na definição de seus objetivos estratégicos. Foi mais um dos muitos erros causados pela fantasia do presidente Lula de exercer uma liderança terceiro-mundista.
As preocupações do empresariado argentino são legítimas e plenamente justificadas pelos fatos. Mas há outros motivos para se rejeitar a presença de Chávez na mesa de decisões do Mercosul. Como o bloco é uma união aduaneira, nenhum de seus membros pode celebrar acordos de livre comércio isoladamente. Acordos desse tipo dependem da adesão de todos os sócios. Será uma enorme irresponsabilidade sujeitar as negociações do bloco - e, portanto, sua integração no sistema global - aos interesses políticos do líder da Alba, a grotesca Alternativa Bolivariana para a América Latina. Se houvesse dúvidas quanto à vocação autoritária do presidente venezuelano, sobraria ainda essa questão fundamental: por que sujeitar os interesses externos do Mercosul aos caprichos de um homem como Chávez, que já declarou que quer ingressar no bloco para transformá-lo em instrumento de seu projeto bolivariano?
Em Brasília, os senadores governistas, obedientes ao presidente Lula, provavelmente votarão a favor do caudilho venezuelano. Caberá aos oposicionistas impedir o desastre. (O Estado de S. Paulo – 03/06/09)

Defesa comercial
Diante da acentuada contração das economias dos países ricos -EUA, Europa e Japão-, a concorrência entre os exportadores ficou ainda mais acirrada. Essa disputa agressiva envolveu também os mercados emergentes, que têm apresentado menor retração da atividade produtiva e do emprego.
Nesse processo, os produtores chineses vão ocupando participações crescentes em alguns mercados, como os da Argentina e do Brasil -que já tem na China seu maior parceiro comercial, à frente dos EUA.
A pauta desse comércio tem sido bastante desfavorável para o setor fabril brasileiro. Importam-se volumes cada vez maiores de produtos manufaturados dos chineses. Os manufaturados brasileiros também perdem presença no mercado argentino. A pretexto de preservar o seu parque produtivo, a Argentina impôs entraves específicos -entre os quais a exigência de licenças não automáticas, de trâmite burocrático e prolongado- a mercadorias oriundas do Brasil.
O comércio entre Brasil e Argentina registrou retração de 39% no primeiro trimestre do ano. Porém os chineses ampliaram sua participação no mercado vizinho -em detrimento, obviamente, das vendas brasileiras.
Segundo pesquisa de uma consultoria argentina especializada no comércio com o Brasil, dos oito setores em que houve crescimento das vendas chinesas à Argentina em 2009, o Brasil perdeu mercado em seis: papel, calçados, farmacêuticos, instrumentos fotográficos, óticos, médicos e musicais, brinquedos e acessórios de vestuário.
Como se sabe, a China manipula sua taxa de câmbio e adota uma agressiva política de apoio às exportações, com destaque para os mecanismos de financiamento dos compradores externos de seus produtos manufaturados. O acesso ao crédito barato e a existência de produtos com preços baixos -muitas vezes artificialmente reduzidos- propiciam à China a tomada de mercados de outros exportadores.
Esse desvio de comércio, isto é, o incremento nas importações de fornecedores externos ao Mercosul, precisa ser enfrentado de forma mais incisiva pelas autoridades brasileiras, no âmbito do bloco comercial.
Em vez de negociarem estratégias comuns para enfrentar as práticas desleais de comércio que ameaçam os interesses do Mercosul, Brasil e Argentina se engalfinham em batalhas intermináveis, com o fito de impor barreiras comerciais um contra o outro. Quinze anos depois do Tratado de Ouro Preto, que fundou o bloco, nem sequer o livre comércio é praticado entre os seus dois principais integrantes.
O assédio chinês é um lembrete de que essa fase infantil do Mercosul precisa ser superada depressa. Ou Brasil e Argentina mudam já o patamar de suas relações comerciais, ou a realidade sobre a qual terão de discutir, num futuro próximo, vai piorar substancialmente.(Folha de S. Paulo – 01/06/09)


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PCs com tela sensível a toque são mais hype que realidade
TAIPEI- A tecnologia de telas sensíveis ao toque, ou touchscreen, vem arrebatando o mercado de consumo de eletrônicos, com diferentes marcas esperando sair com um novo iPhone. Mas esses novos aparelhos poderão se tornar pouco mais além de muito hype, especialmente no mercado de PCs.
Grandes fabricantes de PCs e celulares como Nokia, Research in Motion (RIM), HP e Asustek já lançaram produtos com touchscreen, buscando ganhar na onda do que esperam ser a próxima explosão do mercado.
É esperado que o iminente lançamento do sistema operacional Windows 7, da Microsoft, dê ainda mais estímulo à tecnologia, ao trazer um software com capacidade de usá-la para milhões de lares e escritórios.
Mas a maioria dos consumidores pode não ver grande diferença entre PCs de touchscreen e seus computadores normais, e a tecnologia provavelmente não irá além dos aparelhos celulares.
"Não creio que será a próxima explosão, de forma alguma, mas apenas que mais e mais marcas irão entrar na onda", disse o analista Jay Chou, da empresa de pesquisa IDC.
As telas touchscreen, que antigamente só eram vistas em caixas de supermercado, em balcões de aeroportos e em bancos, saltaram para o protagonismo no mercado de consumo graças ao iPhone da Apple, que inspirou uma série de produtos similares.
Tentativas passadas de fabricantes de PCs de usar a tecnologia touchscreen falharam --com produtos como o tablet PC, que não conseguiu sucesso quando foi lançado pela primeira vez, há mais de uma década, e que agora vê sua popularidade cair.
Os antiquados teclado e mouse ainda podem ser a melhor forma de se usar um PC, uma vez que os hábitos de interação de usuários são notoriamente difíceis de mudar, especialmente se houver uma carência de suporte em softwares.
"Acho que parece muito hype", afirmou a analista Tracy Tsai, da Gartner. "Me parece pouco prático uma pessoa usar touchscreen no PC, e quando se está usando um equipamento tão grande, a tecnologia realmente acrescenta pouco valor à experiência como um todo." (Reuters – 05/06/09)

Vendas globais de chips devem cair 21,3% em 2009, diz associação
(Reuters) - As vendas globais de chips devem cair 21,3 por cento anualmente, para 195,6 bilhões de dólares em 2009, informou a Associação da Indústria de Semicondutores (SIA, na sigla em inglês).
A SIA prevê que uma recuperação nas vendas mundiais comece em 2010, com um crescimento anual de 6,5 por cento, para 208,3 bilhões de dólares.
Em projeção anual, a entidade ainda estima que as vendas cresçam em 6,5 por cento em 2011, para 221,9 bilhões de dólares.
Em maio, o presidente da SIA, George Scalise, disse que espera que medidas de estímulo econômico nos Estados Unidos combinadas com as de outros países ajudem na melhora das vendas a partir de 2010. (Reuters – 05/06/09)

Sony Ericsson lança dois novos modelos ecologicamente corretos
HELSINQUE - A fabricante de celulares Sony Ericsson lançou nesta quinta-feira dois novos modelos de aparelhos considerados como "mais verdes" pela companhia.
Os novos modelos, C901 GreenHeart e Naite, serão vendidos em embalagens menores e terão manuais eletrônicos. Os aparelhos usam mais materiais reciclados e consomem menos energia.
"Hoje nós estamos anunciando... um compromisso de ampliar essas inovações no portfólio geral em 2010 e 2011", afirmou o presidente-executivo da Sony Ericsson, Hideki Komiyama, em comunicado.
A cadeia de produtos mais ecológicos está aumentando rapidamente na indústria de celulares. Uma recente pesquisa da empresa ABI Research mostra que quase metade dos consumidores dos Estados Unidos devem ser influenciados pelas credenciais "verdes" dos fabricantes ao comprar os aparelhos.
A Sony Ericsson informou nesta quinta-feira que tem como meta cortar em 20 por cento suas emissões de dióxido de carbono até 2015.
A indústria de celulares é acompanhada de perto por organizações ambientais ao redor do mundo devido à produção em larga escala. Mais de 1 bilhão de telefones são vendidos globalmente a cada ano.
Maior fabricante mundial de aparelhos, a Nokia começou a renovar suas embalagens em 2006, e afirmou que economizou 100 milhões de euros (142,9 milhões de dólares) em menos de um ano.
Já a Sony Ericsson disse que os novos modelos usarão ao menos 50 por cento de plásticos recicláveis, semelhante ao 3110 Evolve lançado pela Nokia no ano passado.
Em 2008, o presidente-executivo da Nokia, Olli-Pekka Kallasvuo, mostrou um protótipo de celular feito inteiramente de materiais recicláveis na feira Mobile World Congress, mas o modelo ainda não chegou a ser produzido.(Reuters – 04/06/09)

AMD e Intel brigam no mercado de servidores como jogo de tênis
SAN FRANCISCO - A batalha entre a Intel e a AMD por participação no mercado de servidores se aqueceu na segunda-feira com o lançamento pela AMD de um processador de seis núcleos para servidores da família Opteron, que leva o codinome "Istanbul".
Mas a comemoração da AMD pode durar pouco: a Intel deve lançar seu Nehalem EX, um chip de oito núcleos, no primeiro trimestre de 2010.
Analistas dizem que essa troca de lances pouco fará no curto prazo para afetar a fatia de mercado da dupla.
A AMD, que conquistou mercado no segmento de servidores ao lançar a família Opteron de processadores, seis anos atrás, vem enfrentando dificuldades para manter a vantagem desde que a concorrente, uma empresa muito maior, lançou seu processador de 64 bits, em 2004.
"O Istanbul permitirá que a AMD recupere o atraso e se aproxime bastante, mas não creio que permitirá que supere a Intel", disse David Kanter, analista da Real World Technologies.
É difícil derrotar a Intel em termos de parâmetros de desempenho. A companhia desenvolveu uma técnica que permite que cada núcleo trabalhe com múltiplas instruções simultaneamente, algo que a AMD ainda não fez e que alega nem sempre ser muito útil, acrescentou Kanter.
Nos últimos anos, Intel e AMD tiveram diversos choques quanto a desempenho e preço. Comprimir muitos "núcleos", ou processadores, em um único microprocessador tornou-se uma das maneiras de melhorar o desempenho de referência.
A Intel hoje fornece cerca de 89 por cento dos chips ditos x86 usados em servidores de todo o mundo, enquanto a AMD fornece os 11 por cento restantes, de acordo com Shane Rau, analista da IDC.
A Intel dominava o mercado de chips para servidores com participação de mais de 95 por cento no começo da década, disse Rau. Mas a AMD ganhou impulso ao lançar o Opteron e atingiu sua maior participação, pouco abaixo dos 26 por cento, no segundo trimestre de 2006.
Essa fatia caiu à metade um ano depois, quando a Intel adotou a arquitetura Core. As perdas foram agravadas devido ao atraso do lançamento do chip AMD Barcelona, em 2008, acrescentou Rau. (Reuters – 02/06/09)

Acer deve vender netbooks com sistema Android no 3o tri
TAIPÉ - A Acer, terceira maior fabricante de computadores no mundo, planeja vender netbooks que executam o sistema operacional gratuito Android, do Google, apresentando mais uma potencial ameaça ao Windows, da Microsoft.
A Acer foi a primeira a anunciar oficialmente que está produzindo computadores com o sistema operacional Android, semanas após ter dito que planeja lançar smartphones com a mesma plataforma no final deste ano.
"Os netbooks de hoje não estão perto da perfeição de jeito nenhum. Em dois anos, todos serão muito diferentes", afirmou Jim Wong, presidente global da Acer para produtos de Tecnologia da Informação, em uma coletiva de imprensa na Computex, segunda maior feira mundial de computadores, em Taipei.
"Se nós não continuarmos mudando nossos dispositivos de Internet móvel, os consumidores podem não escolhê-los mais."
Wang se evitou fornecer qualquer meta de exportação ou de preços dos netbooks Android, que funcionarão com o processador Atom, da Intel, de baixo custo e baixo consumo de energia. Mas ele disse que a companhia continuará exportando netbooks com o Windows.
Os netbooks são máquinas portáteis com poucos recursos, ideais para navegar na Internet, e normalmente custam em torno de 300 dólares cada. Um computador dessa categoria com o sistema operacional Android pode ser mais barato uma vez que fabricantes pagam cerca de 25 dólares para instalar o Windows XP em cada netbook, segundo analistas.
"Enquanto estivermos fabricando esse novo netbook Android, nós não iremos descartar o outro", esclareceu Wong. "Ambos os sistemas ainda continuarão disponíveis aos clientes, e um não será descartado por causa do outro".
Analistas afirmaram que ainda é muito cedo para dizer se o Android realmente pode ameaçar o domínio do sistema operacional Windows no universo dos computadores, apontando para a ausência de aplicativos e softwares que suportam o Android.
"Nós ainda temos que ver quais tipos de aplicativos o Android pode executar e quão estável será", explicou Vincent Chen, analista da Yuanta Securities. (Reuters – 02/06/09)


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OMC autoriza Equador a limitar suas importações
O Equador tornou-se o primeiro país na atual crise global a receber autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC) para impor restrições a importações, por causa da deterioração de sua balança de pagamentos.
A entidade deu sinal verde para barreiras que cobrem 8,7% das linhas tarifárias, afetando um volume de comércio equivalente a 23% do total das importações de 2008. O Equador deverá substituir até setembro a maioria das cotas (limites quantitativos a importação) por tarifas mais altas, que será aplicadas conforme o preço do produto. As restrições poderão ser mantidas até 22 de janeiro de 2010.
O governo equatoriano avisou que, pela lógica, os principais parceiros serão os maiores afetados, incluindo o Brasil. A posição brasileira é de ajudar o vizinho, mas avisou que vai tentar evitar que o fluxo de suas exportações caia.
Também a Ucrânia aguarda o sinal verde da OMC para as limitações que já vem impondo às importações, o que evitaria que o país fosse contestado diante dos juízes pelos parceiros comerciais.
O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, vem manifestando o temor de uma alta do protecionismo e alertou que o mundo não viu ainda os problemas sociais e políticos ligados à crise.
As regras da OMC permitem aos países-membros aplicar restrições a importação por razões de balança de pagamentos. Mas a autorização só é concedida após demoradas consultas com outros paises-membros e com a participação do Fundo Monetário Internacional (FMI), e deve ser submetido um calendário para retirada as medidas.
A ultima vez que um pais recorreu ao mecanismo foi há dez anos, com a Nigéria. Antes, a Índia e mesmo o Brasil, na época do antigo Gatt, substituído pela OMC, obtiveram sinal verde.
O Equador alegou que as restrições comerciais visam reduzir a saída de dólares, que estaria causando problemas de liquidez e ameaçando a estabilidade do sistema financeiro do pais.
O Comitê de Balança de Pagamentos da OMC reconheceu que as contas do país se deterioraram nos últimos meses, devido à queda da demanda global, que houve deterioração dos termos de comércio, sobretudo com a queda no preço do petróleo, além de valorização do dólar americano e baixa na remessa de divisas de equatorianos que vivem no exterior.
Além disso, a forte alta de despesas combinado com queda na receita e o calote de parte da dívida externa, decretado em dezembro pelo governo de Rafael Correa, ampliaram os problemas do país.
Vários parceiros reclamaram que o problema do Equador é sobretudo a dolarização de sua economia. Ao adotar o dólar em 2000 o país deixou de ter política monetária independente e não pode usar a taxa de câmbio para administrar a balança de pagamentos.
Enquanto outros desvalorizam a moeda, o Equador acompanha as turbulências do dólar americano.
Indagado por delegações sobre a natureza de uma crise de balanco de pagamentos numa economia dolarizada, o representante do FMI respondeu que esse tipo de crise reduz a liquidez doméstica e enfraquece a confiança na economia, podendo levar a recessão. E notou que não há vínculo determinando um nível adequado de reservas numa economia dolarizada.
O representante do FMI alertou que as restrições às importações certamente não ajudarão a resolver os problemas fiscais do Equador e aconselhou o pais a cortar despesas. Vários países também se mostraram convencidos de que barrar o comércio não resolve as dificuldades, até porque já houve melhora no preço do petróleo, principal produto exportado pelo país. Mas admitiram que o Equador tem poucos instrumentos para enfrentar a crise financeira global.
A delegação equatoriana não informou quais os produtos vem sofrendo restrições. Mas o ministro equatoriano da Indústria, Xavier Abad, disse à imprensa local que a elevação de tarifas já adotada está de fato baixando os volumes importados. Os países da Comunidade Andina (Peru, Bolívia e Colômbia) reclamaram que suas vendas estão sendo afetadas e querem compensações.
A questão que persiste na cena comercial é até que ponto limitar importações ajuda na crise atual. Basta ver o exemplo da Ucrânia, que desde que restringiu suas importações viu os preços dos produtos agrícolas subirem em seu mercado. Os ucranianos dizem que querem o sinal verde agora basicamente para restringir importações de automóveis e refrigeradores.
Existe uma inquietação de que a abertura conseguida pelo Equador estimule outros países a acionar o mecanismo da OMC. Isso quando o comércio mundial continua em queda livre. O Banco Mundial identificou 89 novas restrições ao comércio desde outubro de 2008, das quais 23 desde a cúpula do G-20, em abril.
Resta que a medida do Equador não tem comparação, em termos de impacto no comércio global, com centenas de bilhões de dólares de subsídios que países ricos, a começar dos EUA, vêm dando a seus abalados bancos e indústrias. (Valor Econômico – 06/05/09)


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Fiesp critica passividade do governo
O governo está assistindo, passivo, a uma piora da situação dos exportadores, que poderá ter graves consequências para os níveis de emprego e para as contas externas, acusa o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca. Ele argumenta que vem crescendo o diferencial das taxas de juros do Brasil em relação a outros países, o que atrai capital especulativo para aplicações em renda fixa, provocando a desvalorização do dólar e minando a competitividade dos exportadores.
Estamos tentando correr com pés amarrados, e o governo assiste isso de forma passiva, sem um apoio agressivo para fortalecer o exportador, queixa-se Giannetti. Ele defende que o BC reduza as taxas de juros mais agressivamente, para níveis como 6% a 7%, ou estabeleça travas de câmbio, com restrições à entrada de moeda estrangeira dirigida a aplicações de renda fixa. Entre as medidas possíveis, sugere o aumento de IOF para retirada de capital em curto prazo, ou uma quarentena na entrada de recursos estrangeiros. O capital para a bolsa deve ser livre, porque tem risco, mas, com esse diferencial de juros, deixar entrada livre para aplicação em renda fixa é tirar doce de criança, afirma.
Giannetti reclama que o governo não vem comprando dólares em volume suficiente, nem reduzindo os juros na medida devida para ter efeito relevante sobre o mercado de câmbio. A questão da valorização cambial está pegando agora, e pode enterrar fundo os sinais de recuperação que começaram no início do ano, diz o empresário, que é, também presidente da associação das indústrias exportadoras de carne, a Abiec.
A falta de acordo para passivos tributários, como a dívida do crédito-prêmio de IPI, causa bilionária em disputa na Justiça, também fragiliza a situação dos exportadores e dificulta ainda mais a obtenção de crédito, diz ele. O financiamento foi anunciado pelo governo, mas não está chegando na ponta. Os bancos não confiam na capacidade de pagamento dos exportadores, e criam mais esse constrangimento às empresas.
Giannetti calcula que a indústria exportadora gere cerca de 10 milhões de empregos e que uma queda de 20% no desempenho do setor pode provocar uma redução equivalente de postos de trabalho. Para argumentar que não está fazendo terrorismo, dá exemplos de decisões recentes de redução de quadros de pessoal, como as demissões anunciadas pela Usiminas neste mês. (Valor Econômico – 05/06/09)<

País teve superávit de US$ 3,13 bi
Segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC), o superávit cambial no mês alcançou US$ 3,134 bilhões, o melhor desempenho desde os US$ 6,723 bilhões de abril do ano passado. Além do saldo comercial de US$ 1,551 bilhão no mês, o resultado foi inflado pela entrada em massa de investimentos de portfólio, que levaram a conta financeira a ficar positiva em US$ 1,583 bilhão, após 13 rombos consecutivos.
O presidente do BC, Henrique Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afinaram o discurso e disseram que a enxurrada de moeda estrangeira é positiva, pois está voltada a investimentos em ações e no setor produtivo. Apesar de o real forte prejudicar as exportações, eles garantiram que o governo não deve voltar a cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre capital externo.
A entrada bruta de capital internacional somou US$ 27,583 bilhões em maio, o maior resultado de 2009. Segundo adiantou Meirelles em audiência pública das comissões de acompanhamento da crise na Câmara dos Deputados, o ingresso na Bolsa chegou a US$ 2,5 bilhões no mês (contra apenas US$ 639 milhões em abril), enquanto o investimento estrangeiro direto ficou em US$ 2,750 bilhões (contra US$ 3,409 bilhões no mês anterior).
Não há investimento em bolsa de valores se os investidores apostam em recessão prolongada. O Brasil deve ser o único país do G-20 que deixará a crise com um percentual da dívida menor em relação ao PIB e com reservas internacionais maiores — disse Meirelles.

Mantega descarta uso de IOF sobre capital externo Para Mantega, o movimento atual pode ser de desafogo da economia mundial: — Estamos falando de um fluxo no mercado de capitais na bolsa e de um fluxo de investimento.
Não é uma questão especulativa, negativa. Esse comportamento pode ser passageiro.
Acho que ainda vamos ter volatilidade, mas ela pode parar, pode diminuir.
Mantega admitiu que o dólar fraco é preocupante, mas descartou medidas radicais: — Não adianta você tomar medidas inadequadas porque elas não resolverão o problema.
As outras áreas do governo podem especular a respeito, mas o poder de decisão está conosco e eu já disse que não estou pensando em colocar IOF porque não há um fluxo nessa modalidade de aplicação financeira (renda fixa), que foi a que taxamos no ano passado — disse.
Meirelles afirmou ainda que o BC deve continuar a comprar dólares à vista. Em maio chegaram a US$ 2,748 bilhões. Mas, disse, o objetivo não é segurar a cotação da moeda. (O Globo – 04/06/09)<

Na real, vai mal
A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) acabou de revisar a previsão de crescimento do setor em 2009: de zero para -2%. Já a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) está considerando 2009 como um ano perdido. O setor siderúrgico adiou US$ 40 bilhões de investimentos que seriam feitos até 2013. A economia real e a Bolsa continuam em dois tempos.

Ontem, o Ibovespa caiu, mas em 2009 já subiu 40%. A entrada forte de capital estrangeiro é uma das explicações para a valorização dos ativos, que tem espalhado a sensação de que a crise acabou. Quem fala com alguns setores da economia sente que a realidade é bem diferente da espuma.
Siderurgia, eletrônicos, e máquinas e equipamentos estão decepcionados. Esperavam já estar numa recuperação sustentada e estão às voltas com um antigo problema: a volatilidade do dólar, que agora despenca.
No começo do ano, ligamos para alguns setores para perguntar qual era a expectativa de cada um para 2009. A resposta foi curiosa: vários disseram que só em junho poderiam dizer como seria, tal a incerteza que havia naquele janeiro.
Agora, eles já sabem: o ano será ruim, ou muito ruim para vários setores da indústria brasileira.
De acordo com o presidente da Abimaq, Luiz Aubert, os investimentos estão suspensos porque a ociosidade da indústria está elevada. Aubert acredita que o cenário mais provável é de queda de 25% no faturamento e redução de 30% a 35% no volume de vendas. A volatilidade do dólar diminui ainda mais a previsibilidade no setor.
Estamos com uma variação acima de 10% na moeda americana. Isso faz com que o empresário não consiga definir um preço para importar ou exportar seus produtos. Torna o negócio um voo cego. Está todo mundo parado, sem saber o que fazer — explicou.
As demissões devem continuar até dezembro. De janeiro a abril, os números oficiais são de 17 mil postos de trabalho fechados. Até o final de 2009, o temor é de corte de 50 mil, no total.
Nosso setor engloba empresas pequenas, com até 120 funcionários. Todos os dias temos relato de demissões.
Elas não ganham repercussão porque são em empresas pequenas. O que é pior nisso tudo é que cada empregado precisa de quase 10 anos de treinamentos.
Então, recuperar essa mãodeobra terá um custo muito alto — afirmou.
No setor siderúrgico, o que antes era a salvação, agora virou preocupação. A China não só não está comprando, como está liquidando aço mundo afora. Isso é um problema grave, de acordo com o Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS).
Para o presidente do IBS, Marco Polo de Mello Lopes, a desova de produtos chineses está prejudicando as vendas dentro do Brasil, e também as exportações do país para a América Latina.
No primeiro quadrimestre deste ano, as exportações brasileiras para a região caíram 63%.
O governo chinês tem incentivado as exportações de aço a preços de liquidação.
A China produz cerca de 500 milhões de toneladas de aço por ano, se 10% disso for exportado a preço baixo, é um volume maior do que todo o aço produzido no Brasil — dimensionou Marco Polo.
O presidente da Abinee, Humberto Barbato, afirma que o melhor cenário para 2009, de crescimento zero, não se concretizou. Agora já se sabe que haverá contração.
Ele explica que essa revisão para baixo (de zero para -2%) aconteceu por três motivos: as exportações continuam ruins; o resultado do primeiro quadrimestre decepcionou; a confiança dos consumidores está baixa.
Estamos desanimados porque a recuperação que deveria ter acontecido em abril e maio não se concretizou — disse Barbato.
O principal problema é a confiança. Com a taxa de desemprego em trajetória ascendente, ele diz que os consumidores não se sentem seguros para comprar artigos mais caros, que geralmente exigem longos financiamentos.
Não adianta o crédito voltar à normalidade. Para nós, o mais importante é que o consumidor tenha certeza de que não vai perder o emprego — explicou.
Os números da Abinee falam por si só: as exportações caíram 26% e o faturamento recuou 12% no primeiro trimestre de 2009, na comparação com igual período de 2008. Apenas um dos oito subsetores cresceu: Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica (10%), impulsionado por obras públicas ligadas ao PAC. Os outros sete recuaram: Automação Industrial (-5%); Componentes (-21%); Equipamentos Industriais (-11%); Informática (-16%); Material de Instalação (-26%); Telecomunicações (-9%); Utilidades Domésticas (-9%). O setor de Utilidades Domésticas engloba os eletrodomésticos.
Segudo Barbato, os empresários do setor voltaram a falar em demissões.
O quadro não está bonito.
Eu sempre fui uma pessoa otimista, mas preciso ser realista neste caso para não ser desmentido pela realidade.
Agora temos novamente uma volatilidade no câmbio, que dificulta a tomada de decisões e ainda prejudica as exportações — afirmou.
Tanto Barbato quanto Aubert acham que a bolsa de valores está completamente fora da realidade da economia mundial. (O Globo – 04/06/09)<

A valorização cambial não é o principal entrave para as exportações brasileiras. O que realmente reduz a competitividade da indústria nacional é o custo Brasil, que representa as perdas das empresas pela precariedade da infraestrutura logística brasileira, pela burocracia e pelos altos encargos incidentes no país.
A opinião é de Renato Amorim, sócio da consultoria Carnegie Hill Global Advisors, ex-diplomata e ex-diretor de relações internacionais da Vale.
Para Amorim, as ações para conter a alta do real geram apenas um ganho de curto prazo aos exportadores brasileiros.
Para justificar sua análise, o consultor cita o exemplo da China. O país vem introduzindo a valorização paulatina do yuan desde 2006, mas não perdeu competitividade internacional por ter uma moeda mais forte, afirma.
O que fez a diferença, efetivamente, para colocar a China em um patamar mais favorável no mercado internacional foram investimentos em infraestrutura, ações de desburocratização e de desoneração fiscal.
A continuidade das compras de commodities pela China provocou uma expansão de mais de 50% nas exportações brasileiras ao país de janeiro a abril em relação ao mesmo período de 2008.
Para Amorim, o pacote de investimentos do governo chinês e a manutenção do crescimento do mercado interno do país justificam as compras. A formação de estoques em um momento de preços internacioanis baixos é outra razão.
No fluxo comercial inverso, as importações de produtos chineses caíram 20% no Brasil no quadrimestre. Para Amorim, o resultado da balança é mais um motivo de preocupação do que de comemoração para a economia brasileira.
Como a pauta de importados chineses inclui grande número de máquinas e bens de capital, a redução das compras aponta uma retração nos investimentos da indústria, afirma. (Folha de S. Paulo – 04/06/09)<

Exportação de celulares cai para a Argentina, mas cresce para o México
A queda no mercado interno e as dificuldades criadas para importação de celulares por parceiros tradicionais como Argentina e Venezuela estão obrigando a indústria de telefones a buscar novos mercados e apostar na revigoração das vendas Estados Unidos e México, indicam dados do Ministério do Desenvolvimento sobre as exportações. Nos cinco primeiros meses do ano, as exportações caíram 39,8% em valor, e 34,5% em quantidade de celulares vendidos. A queda nas vendas é generalizada, e compensada parcialmente só pelo insólito crescimento para mercados antes de pequena expressão, como México e Hungria.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que reúne a maioria dos fabricantes, o setor deve ter uma queda de faturamento, neste ano, de 29%, e uma redução proporcional nas exportações. A queda maior nos embarques ocorreu com o principal mercado, a Argentina, para quem o Brasil vendeu US$ 348 milhões de janeiro a maio de 2008 e apenas US$ 209 milhões neste ano, quase 40% menos.
Na Argentina, nossas vendas estão sendo prejudicadas pelas exigências de licenças prévias, que não são liberadas, informou o presidente da Abinee, Humberto Barbato, que, sexta-feira, viaja a Buenos Aires na tentativa de convencer o governo argentino a liberar as vendas para aquele país.
Apesar da queda nas compras de celulares pela Argentina, o país vizinho aumentou sua participação no total de exportações do produto pelo Brasil em maio: de 44% do valor das vendas de celulares brasileiros no exterior em maio de 2008, passou a representar 47% no mês passado. Somados os primeiros cinco meses, contudo, a fatia argentina caiu para 42%.
Também houve queda sensível nas vendas à Venezuela, que chegou a comprar US$ 43,8 milhões em celulares em maio de 2008, e só adquiriu US$ 5,5 milhões no mês passado. Nos primeiros cinco meses, o peso do país nas vendas brasileiras passou de 16% para 14%.
Na Venezuela temos o problema da decisão do governo, que só permite à estatal de telefonia importar pelo câmbio oficial, explica Barbato. As demais companhias são obrigadas a usar o câmbio paralelo, o que torna os aparelhos quatro vezes mais caros, queixa-se o executivo. A decisão do governo de Hugo Chávez está ligada ao plano oficial de produzir no país uma quantidade maior de manufaturas, com um modelo de substituição de importações. Também no Equador medidas protecionistas fizeram a venda de celulares cair de US$ 9,3 milhões em maio de 2008 para apenas US$ 4 milhões em maio deste ano.
A retração nas vendas de celulares não ocorreu apenas em mercados onde a intervenção dos governos brecou as exportações brasileiras. Ela caiu pela metade no Uruguai, em um terço na Guatemala, e foi severa em toda a região andina (ver tabela anexa).
Para a Abinee, a crise econômica e a retração na demanda explicam o resultado nesses países, à exceção do Equador, onde o governo também criou novos obstáculos às compras externas e reduziu as compras em 72%. A mudança no mix de produtos exportados, com preferência por modelos mais caros, é apontada como causa provável da manutenção das vendas aos Estados Unidos, na faixa dos US$ 50 milhões de janeiro a maio.
Segundo um especialista do setor, também contribuiu para reduzir o impacto da retração de mercados a decisão de um grande fabricante, a LG, de fechar fábricas no México, o que abriu espaço para incremento das vendas brasileiras àquele país. De 51 mil aparelhos, nos primeiros meses do ano passado, as vendas ao México subiram para 265 mil neste ano, 51 mil só no mês passado. O valor das exportações elevou-se de US$ 9 milhões para US$ 25 milhões.
A queda levou as empresas a aproveitarem oportunidades em mercados não tradicionais. Chama atenção, nas estatísticas do ministério, o crescimento, em 164%, no valor das vendas para a Hungria, e o surgimento da Índia como consumidor dos telefones celulares brasileiros. Inexistente até abril deste ano, a venda de celulares aos indianos chegou a 45 mil aparelhos no mês passado, ou US$ 3,3 milhões. Em maio, a Índia foi o sétimo maior consumidor brasileiro do produto. (Valor Econômico – 04/06/09)<

Mantega esfria debate sobre IOF no câmbio
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reagiu às pressões para frear a recente valorização do real dizendo que outras áreas do governo podem especular, mas a decisão de cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para reduzir a entrada de dólares no país é dele. Ele admitiu que o câmbio preocupa e que vai estudar medidas, mas argumentou que, antes, é preciso verificar se esse movimento de desvalorização da moeda americana não é passageiro. Vamos pensar no que pode ser feito. É muito cedo ainda. Podemos não estar diante de um fluxo permanente. Houve quase que um desafogo da economia internacional que ficou reprimida, por causa da crise, por muito tempo, disse.
Na segunda-feira, ao divulgar os números da balança comercial em maio, o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, revelou que o governo trava debate intenso sobre a desvalorização do dólar e quais seriam as medidas para contê-la. De acordo com ele, o debate é sobre se ainda não é hora, se está na hora ou se passou da hora de intervir na política cambial. Barral comentou que não é correto acreditar que Mantega já tenha descartado a cobrança de tributos como o IOF sobre operações de câmbio.
Ontem, ao deixar o sétimo balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o ministro voltou a dizer que não está pensando em usar o IOF porque não há um fluxo de capitais exagerado atrapalhando a economia. No momento, vê entrada de capitais, recursos chegando na Bolsa e investimentos. Citou que, agora, empresas brasileiras que não estavam captando no exterior voltaram a captar e algumas estão trazendo esses recursos. Não há uma questão especulativa ou negativa. O câmbio valorizado me preocupa, mas não adianta tomar medidas inadequadas porque não resolvem o problema. Não adianta usar a arma errada, explicou.
A elevação das reservas internacionais - hoje em US$ 205,91 bilhões - serve mais, de acordo com Mantega, para aproveitar o momento de cotações do dólar em baixa. Nesse sentido, afirmou que, quanto maiores as reservas, mais forte é a economia durante uma crise. Ontem, a cotação da moeda americana encerrou os negócios em R$ 1,96, o que vem preocupando o setor privado, principalmente exportadores.
Na visão de Mantega, houve uma euforia que pode ser passageira. Os investidores deixaram o pique do dólar, aplicação segura e pouco rentável, e estão pensando em alternativas. Ele reconheceu serem positivos os fluxos de capitais para a bolsa porque as empresas brasileiras poderão voltar a captar e essa é a melhor forma. Acho importante que venham investimentos diretos externos porque isso vai mobilizar a economia. É um primeiro passo favorável, disse.
No atual cenário, o ministro da Fazenda revelou que não arriscaria fazer projeções sobre o câmbio e que não há como prever se o fluxo será devastador, como alguns já declararam. Uma das hipóteses mencionada por Mantega é a do desafogo momentâneo porque o Brasil tem uma bolsa de commodities e esse produtos tiveram cotações internacionais em alta. Vamos continuar a ter volatilidade. Estamos observando, comentou.
Com relação à expectativa de crescimento do PIB, Mantega disse que todos já sabem que houve retração no primeiro trimestre, mas falta saber de quanto. Disse também que os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) conhecem o que está ocorrendo na economia. Em 10 de junho eles decidem o que fazer com a taxa de juros Selic, atualmente em 10,25%. Estamos em uma situação de demanda baixa em relação à oferta, com um grande potencial de produção que temos. Vimos que o PIB pode crescer 4,5% ou 5% sem gerar inflação. Estamos com capacidade ociosa, avaliou. (Valor Econômico – 04/06/09)<

STF decidirá sobre crédito do IPI, diz Receita
No que depender da Receita Federal, a decisão sobre a validade do chamado crédito-prêmio de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) será do Supremo Tribunal Federal (STF). O auditor fiscal Cláudio Losse afirmou ontem, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que o órgão é contra um acordo com o setor exportador.
A Receita não concorda. Se outras pessoas do Ministério da Fazenda concordam, eu não sei. Ele disse que há uma forte sinalização de que o STF deverá adotar uma decisão favorável ao governo.
A negociação de um acordo entre empresas exportadoras e a União foi defendida pelos presidentes da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Roberto Gianetti da Fonseca, e do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, Luiz Gonzaga Belluzzo.
Gianetti da Fonseca, que também é exportador, contou que o Ministério da Fazenda propôs o diálogo para evitar um rombo a uma das partes. Segundo ele, as empresas serão afetadas se tiverem de devolver o crédito já utilizado e algumas delas passarão a operar com patrimônio líquido negativo. E governo também teria um rombo fiscal caso a decisão do STF venha a ser favorável aos exportadores.
Belluzzo criticou a Receita. Não é admissível que as decisões de política econômica fiquem à mercê de burocracias não eleitas, disse o professor, que também participa das negociações como consultor.
Uma das dificuldades é quanto ao valor dos créditos gerados. Os números apresentados na audiência pública foram divergentes. Os senadores solicitaram à Receita que prepare um cálculo mais preciso, explicando a metodologia.
O coordenador geral de Contencioso Administrativo e Judicial da Receita, Frederico de Alencar, disse que a União teria entre R$ 144 bilhões e R$ 288 bilhões para receber. O primeiro valor considera a alíquota de IPI de 7,5% e, o segundo, de 15%.
Belluzzo contesta os números. Segundo ele, a conta para a União seria de R$ 62 bilhões. Já Gianetti da Fonseca explicou que o acordo consideraria os créditos de 1990 a 2002, com alíquota de 15%, e para as empresas que desistirem das ações. O governo poderia compensar esses valores com dívidas das empresas com a Receita. (O Estado de S. Paulo – 03/06/09)<

Melhora da balança dá mais fôlego às contas externas
O Brasil caminha para fechar o ano com um déficit em conta corrente bem mais modesto do que em 2008. Com a recuperação das exportações de commodities e o forte tombo das importações, houve mudanças significativas nas estimativas para a balança comercial. Já há quem projete um número próximo de US$ 30 bilhões, como os economistas do Bradesco. Um ponto importante é que várias dessas previsões mais otimistas já contemplam um dólar próximo ou abaixo de R$ 2 -o Bradesco, por exemplo, trabalha com a moeda americana em R$ 1,90 no fim deste ano. Além da melhora na balança, os resultados das contas externas de janeiro a abril confirmam a queda significativa da remessa de lucros e dividendos, em decorrência da atividade econômica mais fraca e do câmbio mais desvalorizado do que o que vigorou em grande parte de 2008.
Nesse quadro, o país deve encerrar 2009 com um déficit na conta corrente - medida das transações de bens, serviços e e rendas com o exterior - abaixo dos US$ 28,3 bilhões no ano passado, o equivalente a 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB). O Bradesco aposta em US$ 4,8 bilhões e a Quest Investimentos, em US$ 12 bilhões. Nos dois casos, um resultado inferior a 1% do PIB. O consenso dos analistas ouvidos pelo Banco Central aponta para um déficit de US$ 17,6 bilhões.
O economista Paulo Miguel, da Quest, começou 2009 com uma previsão de um saldo comercial de US$ 10 bilhões. Transcorridos cinco meses do ano, o seu número pulou para US$ 25 bilhões. Dois motivos principais explicam as mudanças nas projeções, segundo Miguel: a melhora nas exportações de produtos básicos a partir de março e a queda significativa no déficit da conta de lubrificantes e combustíveis.
Em abril, o volume de vendas externas de básicos ficou 36,5% acima do mesmo mês de 2008, segundo a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). No primeiro quadrimestre, as exportações desses produtos cresceram 17,9%, enquanto as vendas totais tiveram perda de 10,6%, puxadas pelo tombo de 28,2% das de manufaturados.
A China voltou a comprar commodities com força, num movimento de recomposição de seus estoques, diz Miguel, alertando, contudo, que ainda é difícil saber em que ritmo as exportações de produtos básicos vão se acomodar daqui para a frente. Em maio, por exemplo, o valor das exportações de básicos ficou 35,9% abaixo do de maio de 2008 - a informação sobre volume exportado ainda não foi divulgada pela Funcex. Uma questão é que as altas de março e abril foram influenciadas pela base fraca de comparação, já que a greve da Receita Federal de 2008 distorceu as estatísticas referentes a esses meses no ano passado.
Miguel também destaca a redução do déficit da conta de combustíveis e lubrificantes, em grande parte devido às cotações mais baixas do petróleo, que reduz os gastos com importações. No acumulado de janeiro a abril de 2009, houve déficit de US$ 4,416 bilhões, bem abaixo dos US$ 8 bilhões no mesmo período de 2008. No ano passado, o rombo foi de US$ 14,933 bilhões. Não temos projeção para o saldo dessa conta em 2009, mas creio que será cerca de metade do de 2008 ou menos.
Os economistas do Bradesco têm uma estimativa de US$ 29,4 bilhões para o saldo comercial em 2009, bem superior aos US$ 10,7 bilhões previstos no começo do ano. Eles lembram que haverá um forte tombo das importações, dada a forte desaceleração da atividade econômica. Segundo o Bradesco, as compras externas devem recuar 31,5% em relação a 2008, totalizando US$ 118,652 bilhões. É um tombo superior ao esperado para as exportações neste ano, de 25,2%, para US$ 148,034 bilhões.
Além da perspectiva de queda forte das importações, houve uma recalibragem do volume exportado de algumas commodities, como soja, açúcar e celulose, dizem os economista do banco, destacando a ampliação da participação da China na pauta de exportações. De janeiro a abril, as quantidades vendidas no exterior de soja aumentaram 46% em relação ao mesmo período de 2008, enquanto as de açúcar tiveram alta de 39%.
Com uma balança comercial de quase US$ 30 bilhões, o Brasil pode fechar o ano com um déficit em conta corrente de apenas US$ 4,8 bilhões, o equivalente a apenas 0,34% do PIB, estima o Bradesco. Além das perspectivas mais robustas para o saldo comercial, o banco e outros analistas apostam num redução significativa das remessas de lucros e dividendos. Em 2008, elas totalizaram US$ 33,9 bilhões, um número expressivo, resultado dos ganhos significativos das empresas, num cenário de forte crescimento, e do câmbio valorizado - com a moeda americana na casa de R$ 1,60 a R$ 1,70, os reais compravam mais dólares para serem enviados ao exterior.
Neste ano, o quadro mudou. O estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, estima que as remessas de lucros e dividendos devem ficar em US$ 21,1 bilhões neste ano. O desaquecimento da atividade econômica deve encolher os lucros das companhias, diz ele, que aposta numa contração do PIB de 1,5% em 2009. Também ajuda a perspectiva de que, em média, o câmbio ficará mais desvalorizado do que em 2008, mesmo com a recente apreciação do real.
Para Lintz, o déficit em conta corrente deve ficar em US$ 16,9 bilhões, o equivalente a 1,2% do PIB. Ainda que o número seja mais alto que o projetado pelo Bradesco e pela Quest, não há motivo para preocupação, diz ele, que considera o valor facilmente financiável. Lintz espera que os investimentos estrangeiros diretos totalizem US$ 33,7 bilhões neste ano, abaixo dos US$ 45,1 bilhões de 2008, mas ainda assim um número robusto.
Lintz e Miguel veem o menor déficit em conta corrente como um fator estrutural por trás da recente valorização do câmbio. Para o primeiro, isso dá mais confiança para o investidor estrangeiro interessado em apostar no real, porque mostrar que o país tem contas externas sólidas. Com a redução da aversão global ao risco, a moeda brasileira aparece como um ativo interessante, que atrai recursos para renda fixa e ações. Para completar, as perspectivas de crescimento mais promissoras para os próximos anos tornam o Brasil um país atraente para as empresas estrangeiras, o que explica o bom fluxo de investimentos diretos.
Nesse novo cenário, o Bradesco projeta um dólar a R$ 1,90 no fim do ano. Lintz tem como estimativa oficial uma moeda americana a R$ 2 em dezembro, mas diz que esse número está claramente sujeito à revisão, uma vez que as cotações já caíram abaixo desse valor. Para Miguel, o dólar pode buscar o nível de R$ 1,80 no curto prazo, mas considera o patamar de R$ 2 razoável para o fim do ano, uma vez que a situação da economia global ainda é complicada. (Valor Econômico – 03/06/09)<

China vai perder força e afetar Brasil, diz especialista
A alta dos preços das commodities é uma bolha e as exportações brasileiras vão sofrer quando a economia da China voltar a desacelerar. A previsão é de Roberto Dumas, representante-chefe do Itaú BBA em Xangai e professor da China Europe Internacional Business School. Desde o início do ano, o índice de commodities CRB da Reuters subiu 13%.
Em uma palestra ontem para uma plateia de executivos reunidos pela Hampton Sofise, Dumas disse que a demanda por commodities não vai se manter, porque a recuperação da China é temporária. Ele acredita que o estímulo fiscal do governo chinês incrementou a demanda no curto prazo, mas vai gerar super-produção.
Está contra a lógica. O mundo quer consumir menos, mas a China quer sair da crise produzindo mais, disse Dumas. Com um pacote fiscal de US$ 586 bilhões e empréstimos bancários de US$ 668 bilhões no primeiro trimestre (mais do que em todo o ano de 2008), os chineses estão investindo em infraestrutura e incentivando a indústria pesada (como as siderúrgicas) a seguir a todo vapor.
O problema, segundo Dumas, é que esse tipo de investimento não gera tanto emprego quanto gasta. Para que a recuperação fosse sustentável, a China deveria reestruturar sua economia, reduzindo peso das exportações e aumentando o do consumo. O crescimento chinês do pós-crise vai deteriorar ainda mais o equilíbrio da economia local, disse.
Para o representante do Itaú BBA no país, o consumo chinês está crescendo, só que mais devagar do que a produção industrial, que avançou 8,3% em março e 3,8% no primeiro trimestre. Ele afirma que a deflação é uma prova disso. O índice de preços ao consumidor na China caiu 1,5% em abril, 1,2% em março e 1,6% em fevereiro.
O pacote atual é similar ao que foi feito em 1997 e 1998, quando a China enfrentou as crises da Ásia e da Rússia. A questão é que agora os Estados Unidos não estão crescendo. Para quem a China vai vender toda essa capacidade de produção que está construindo?, questionou o especialista.
Na China, a participação do consumo no Produto Interno Bruto (PIB) cedeu de 49% em 1990 para 35% em 2007. Em compensação, a fatia do investimento no PIB subiu de 36% para 44% no período. De acordo com Dumas, o consumo perdeu fôlego por conta da redução dos salários, da queda nas transferência do governo e dos menores ganhos de capital. Não é possível reverter esse processo de um dia para o outro, disse. (Valor Econômico – 03/06/09)<

Dólar faz exportador cortar desconto e rever tabela de preços
A valorização do real forçou os exportadores a cortar os descontos com os quais tentavam atrair os clientes e driblar a crise global. Com o dólar abaixo de R$ 2, as empresas voltaram atrás nas novas tabelas de preços e contratos começam a ser cortados. É o cenário oposto do vivido até setembro de 2008, quando um mercado aquecido permitia reajustes que compensavam a depreciação da moeda americana - R$ 1,70 na época.
A partir de hoje não recebo mais pedidos com descontos. O câmbio me deu uma folga para fazer uma promoção na crise, mas agora isso acabou, disse Sérgio Teizen, gerente de exportação da Starret, fabricante de serras e instrumentos de medição. Ele contou que reduziu os preços em 10% no começo do ano, mais um bônus de 5% para quem pagasse à vista, quando o dólar bateu em R$ 2,30. A estratégia ajudou a ganhar alguns poucos contratos em mercados como América Central e Índia.
A crise foi um duro golpe para as vendas da Starret no exterior. As exportações recuaram cerca de 30% de janeiro a maio ante igual período de 2008. Por conta disso e do fraco desempenho também no mercado interno, a Starret reduziu a jornada de trabalho para quatro dias, com corte proporcional de salário.
Depois das consecutivas quedas do dólar nas últimas semanas, a Piccadilly, fabricante de calçados femininos com sede em Igrejinha (RS), decidiu segurar a remessa das tabelas de preços para os distribuidores na Europa, Oriente Médio e Ásia. Para os importadores da América do Sul e Central, que já receberam as listas, a empresa só pode garantir a manutenção dos valores até meados de julho se o real não se valorizar muito mais, contou a diretora de exportação, Michelini Grings Twigger.
Segundo a executiva, a oscilação brusca da moeda americana é preocupante e a Picadilly está fazendo as contas para saber qual o patamar cambial que exigirá a correção das tabelas já despachadas para os mercados que absorvem 60% das suas exportações. Definidos em abril, quando com o câmbio chegou R$ 2,29 por dólar, os preços dos calçados das coleções primavera-verão estavam mais competitivos do que os concorrentes. Tínhamos conseguido chegar a preços até menores do que na coleção anterior, revelou a diretora. As exportações absorvem em média 30% da produção da Piccadilly.
Com a valorização do câmbio e os preços em queda, a rentabilidade das exportações brasileiras recuou 4,4% em abril e 13% no acumulado do ano, segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). A tendência é uma margem de lucro ainda mais apertada nos próximos meses por conta do enfraquecimento do dólar, que fechou cotado a R$ 1,9370 ontem, queda de 12% em relação à média de abril.
Segundo Danilo Marcon, diretor comercial da Cerâmica Vila Rica, o dólar abaixo de R$ 2,00 zerou a sua rentabilidade e a empresa se prepara para reduzir ainda mais a participação das exportações em seu faturamento. A fatia das vendas externas nas vendas já caíram de 65% no ano passado, para 50% este ano. O executivo conta que as vendas para a Rússia praticamente pararam desde o início da crise - a queda dos embarques para esse destino chega a 70%. Para a Argentina, as exportações recuaram 20% neste início de ano.
Marcon disse que o maior problema do mercado internacional é a falta de demanda, mas acredita que se pudesse dar algum desconto, venderia um pouco mais. Ele contou que, no ano passado, os clientes da cerâmica aceitaram um reajuste de 25% nos preços para compensar o câmbio. Agora a mesma estratégia é impossível. O cenário mudou totalmente a com a crise. É como oferecer comida para quem não está com fome, disse.
Otmar Muller, presidente do Sindiceram-SC e diretor industrial da Eliane, disse que o impacto do câmbio não é tão forte quanto um ano atrás por conta da redução gradativa das exportações. O volume exportado pelas empresas catarinenses caiu 36% entre fevereiro e abril deste ano comparado com 2008, ano que já não havia sido tão forte. Sem conseguir elevar as vendas no mercado interno, a produção de revestimentos cerâmicos já está 10% inferior a do ano passado. Com esse novo recuo, teremos que rever os preços em dólar, mas nosso principal mercado ainda está recessivo, disse Muller, falando dos Estados Unidos.
O presidente da Buettner, João Henrique Marchewsky, disse que vai repensar todo o planejamento por conta do novo recuo do dólar. É uma situação horrorosa. Evitamos dar preço ontem (para as exportações) por conta da queda, disse ele, considerando que as têxteis terão uma dificuldade ainda maior no mercado externo, onde a demanda já se apresentava fraca por conta da crise mundial e pelas restrições argentinas. Vamos esperar esta semana para ter uma noção melhor da cotação, explicou. A empresa projetava o dólar a R$ 2,00 para o ano, mas acredita que terá que estimá-lo em R$ 1,80. Marchewsky disse que as vendas externas da empresa podem cair 40% este ano se a queda do dólar se aprofundar nos próximos meses.
A General Brands, que exporta sucos prontos, tem negociado preço com os clientes no exterior para manter o mesmo volume de exportações, afirmou o presidente da empresa, Isael Pinto. Quando o real valoriza, fica mais difícil exportar. Para manter os clientes a empresa acaba arcando com o prejuízo, afirma. Parte dessa perda com receita, diz, é compensada pela redução dos gastos com matérias-primas que também são importadas. A General Brands, que exporta para 20 países, espera comercializar no mercado externo entre 8% e 10% de sua produção, mas isso depende de uma estabilização do câmbio entre R$ 2 e R$ 2,40. Isael Pinto lembra que, no ano passado, a empresa teve de oferecer descontos aos clientes quando o real desvalorizou.
Para contrabalançar a valorização do real, a Baterias Moura vai reajustar os preços em torno de 10%. Como diversas moedas estão ficando mais fortes em relação ao dólar, é possível repassar para os preços as perdas que teríamos. O problema seria se só o real estivesse se valorizando, diz Elisa Correia, gerente de exportações da Moura. A fabricante está mantendo os planos traçados no início do ano de exportar cerca de 20% da produção em 2009, o que equivale a US$ 40 milhões. Outros dois fatores também ajudam na manutenção das metas: a empresa não exporta para os Estados Unidos e mais da metade dos custos de produção também estão atrelados ao dólar. Assim se a valorização do real traz perdas de receita, de outro, ela reduz os gastos. (Valor Econômico – 03/06/09)<

Empresas tentam acordo para IPI
A Receita Federal rejeitou a proposta de acordo apresentada pelo setor exportador para solucionar o litígio entre empresas e a Fazenda Nacional sobre a discussão do crédito-prêmio IPI, benefício criado em 1969 para incentivar as exportações. Ontem, durante a primeira audiência pública sobre o acordo na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, representantes do fisco se manifestaram contra a proposta apresentada pelas empresas, que prevê uma data de corte de 2002 para a validade do benefício e a possibilidade de compensação dos créditos com outros débitos tributários. Os exportadores tentam evitar uma possível decisão desfavorável no Supremo Tribunal Federal (STF), onde o impasse está pendente de julgamento. A Receita entende que o crédito prêmio foi extinto em 1983 e, no Superior tribunal de Justiça (STJ), o último entendimento foi pela extinção do benefício no ano de 1990.
A proposta chamada de encontro de contas, apresentada por Roberto Gianetti da Fonseca, diretor do departamento de relações internacionais e comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), seria feita por meio de uma emenda à Medida Provisória nº 457, que trata de dívidas municipais e tramita no Senado. Se aprovado o acordo, os processos judiciais ou administrativos envolvendo os créditos seriam suspensos por um ano, período em que os contribuintes poderiam apresentar o pedido de adesão ao acordo perante a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Um acordo representaria a preservação de 12 milhões de empregos relacionados diretamente ao setor exportador, defende Gianetti. De acordo com Heleno Torres, professor de direito tributário da Universidade de São Paulo (USP), que auxiliou na elaboração da proposta, o objetivo é acabar com os litígios na Justiça. Isto porque a adesão ao acordo implica na desistência das ações judiciais e permitiria que as empresas resgatassem os vultosos valores dos depósitos judiciais.
A data de corte prevista para convalidar as compensações feitas pelas empresas seria 2002, considerando uma alíquota de 15% para todos os produtos. Pelo estudo apresentado pela Fiesp, no período excluído - entre 2003 e 2007 - as exportações brasileiras de manufaturados saltaram de US$ 39,7 bilhões para US$ 83,9 bilhões. Segundo os cálculos do estudo, nesse período a renúncia do crédito pelas empresas atingiu o valor de US$ 79, 3 bilhões, enquanto os créditos entre 1991 e 2002 totalizaram US$ 52,9 bilhões. Ou seja, conforme o levantamento, as empresas renunciariam mais do que receberiam. Segundo o jurista Luiz Gonzaga Beluzzo, em caso de uma decisão desfavorável na Justiça, as empresas teriam que rever balanços e mergulhar no prejuízo.
Apesar das expectativas dos empresários do setor exportador com relação à nova proposta, os representantes da Receita Federal, presentes na audiência pública, afastaram qualquer possibilidade de fechar um acordo. A principal argumentação da autarquia é que o atual crédito presumido - que concede um prêmio calculado sobre o valor da entrada dos insumos para a industrialização - teria o mesmo propósito que o crédito-prêmio IPI - que seria proibido por acordos internacionais. Segundo Frederico Augusto Gomes de Alencar, coordenador do contencioso administrativo e judicial da Receita Federal, revigorar o crédito-prêmio - ou seja, aceitar que ele não tenha sido extinto - seria pagar ao exportador uma dupla premiação pela mesma coisa. O acordo daria margem para que empresas não contempladas por ele ou que não concordassem entrassem na Justiça, afirmou Alencar. Nossa chance de ganhar no Supremo Tribunal Federal é muito grande, diz Cláudio Losse, auditor fiscal da Receita. O representante da Fiesp na audiência, Roberto Gianetti afirmou, no entanto, que as negociações com a PGFN estariam adiantadas. (Valor Econômico – 03/06/09)<

Queda seguida do dólar já atinge as exportações
Os exportadores já sentem as consequências das sucessivas quedas do dólar nas últimas semanas. Muitos começam a cortar descontos com os quais haviam atraído clientes para tentar driblar a crise global. A partir de hoje não recebo mais pedidos com descontos, diz Sérgio Teizen, gerente de exportação da Starret, fabricante de serras e instrumentos de medição. Com o dólar em alta, ele tinha folga para fazer promoções, mas isso acabou. A Piccadilly, fabricante de calçados do Sul, decidiu segurar a remessa das tabelas de preços para os distribuidores na Europa, Oriente Médio e Ásia. Faz as contas para saber se corrige os preços definidos em abril, quando o câmbio chegou a R$ 2,29 por dólar. A queda do dólar jogou um balde de água fria nas expectativas da empresa, diz a diretora de exportação Michelini Grings Twigger.
A apreciação do real é também a maior preocupação do governo neste momento, porque a taxa de câmbio pode ser um fator de desestabilização nos próximos meses. Ministério da Fazenda e Banco Central concordam que a única coisa certa a fazer, por enquanto, é continuar a reduzir a taxa Selic e reforçar as compras de reservas cambiais. Só divergem sobre a velocidade e intensidade da queda da taxa. A Fazenda espera um corte de pelo menos 1 ponto percentual na próxima semana, o que levaria a Selic para 9,25% ao ano. (Valor Econômico – 03/06/09)<

Mercado volta a projetar queda do PIB e do câmbio
A expectativa do mercado para o desempenho da economia neste ano piorou pela quarta semana seguida. A estimativa de retração do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, passou de 0,53% para 0,73%. Há quatro semanas, a projeção de queda era de 0,30%. A estimativa para a produção industrial neste ano também piorou. A projeção de queda aumentou de 4,26% para 4,50%.
Os especialistas também projetam, mais uma vez, recuo na taxa de câmbio ao final deste ano. A projeção para a cotação do dólar caiu pela terceira vez seguida, passando de R$ 2,10 para R$ 2,04. Para 2010, foi ajustada de R$ 2,18 para R$ 2,13.
As informações são do boletim Focus, publicação semanal elaborada pelo Banco Central com base em projeções para os principais indicadores da economia.
Para 2010, no entanto, a perspectiva continua sendo de recuperação econômica. A projeção para o crescimento do PIB no próximo ano permanece em 3,50% há 13 semanas. Os analistas esperam que a produção industrial cresça 4%, estimativa mantida há 15 semanas.
A estimativa para o superávit comercial (saldo positivo de exportações menos importações) é de US$ 20 bilhões, a mesma da semana anterior. Para 2010, a expectativa foi ajustada de US$ 15,10 bilhões para US$ 15,05 bilhões. Para as transações correntes (todas as operações do Brasil com o exterior) a projeção de déficit permanece em US$ 17,55 bilhões neste ano e em US$ 22,30 bilhões em 2010. Os analistas aumentaram a expectativa para o investimento estrangeiro direto de US$ 22,90 bilhões para US$ 23 bilhões neste ano. Para 2010, a estimativa permanece em US$ 25 bilhões, há 27 semanas.
Na prática
O superávit da balança comercial brasileira (exportações menos importações) somou US$ 2,65 bilhões no mês de maio, segundo informou ontem o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). O valor é 34,9% inferior ao registrado no mês do ano passado, quando foi contabilizado um saldo positivo de US$ 4,07 bilhões. Também houve recuo de 28,6% frente a abril deste ano, quando o superávit somou US$ 3,71 bilhões.
O resultado das vendas externas em maio interrompeu a sucessão de três meses de crescimento do superávit comercial. O saldo positivo foi crescente de fevereiro a abril de 2009. Antes de maio, somente em janeiro o saldo entre exportações e importações havia sido negativo. O déficit fora de US$ 518 milhões - o primeiro em quase oito anos.
No mês passado, as exportações somaram US$ 11,98 bilhões - ou US$ 599 milhões por dia útil. Com isso, tiveram queda de 37,9%, pela média diária, que era de US$ 965 milhões. Já as importações totalizaram US$ 9,33 bilhões em maio deste ano, o equivalente a US$ 466 milhões por dia. Isso representa queda de 38,7% frente ao mesmo período de 2008. (Jornal do Brasil – 02/06/09)<

Dólar cai a R$ 1,941, mas fecha em R$ 1,953, com queda de 0,86%
O dólar manteve ontem a sua trajetória de queda e chegou a atingir R$ 1,941 durante o dia, na menor cotação desde 1ode outubro do ano passado. No fim dos negócios entre as instituições financeiras, a moeda americana valia R$ 1,953, apontando recuo de 0,86%, no seu sétimo pregão consecutivo de queda.
O fluxo de investimentos para o país, para aplicação em títulos públicos e ações, tem favorecido a valorização do real.
Além disso, ontem foi dia de vencimento de operações no mercado futuro entre o Banco Central (BC) e instituições financeiras.
Como o BC assumiu a compra da moeda a R$ 2,14, os bancos teriam pressionado pela queda da divisa para ganhar a diferença. À tarde, o BC comprou dólares a R$ 1,9435. A autoridade monetária não informa o volume, mas, após a operação, o ritmo de queda da moeda diminuiu.
O dólar a R$ 1,94 é real, está entrando muito dinheiro, pela Bolsa e via investimento direto — diz Álvaro Bandeira, economistachefe da corretora Ágora.
Superávit comercial fica em US$ 2,651 bilhões em maio
Para Octavio Vaz, gestor de renda fixa da Global Equity, a tendência do dólar é de queda, enquanto a expectativa for de recuperação para os países emergentes e os juros nos EUA estiverem baixos: — O dinheiro tende a ir para onde a taxa é maior e o Brasil tem poder de atratividade com os juros atuais (10,25% ao ano).
Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o Índice Bovespa, encerrou o primeiro pregão do mês em alta de 2,42%, aos 54.486 pontos, no maior patamar desde 1º de setembro. Os investidores ignoraram a concordata da GM. Segundo analistas, o pedido já era esperado e foi considerado um alívio. A alta da Bolsa foi impulsionada por indicadores que apontam recuperação da economia em EUA, China e Reino Unido.
Em maio, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 2,651 bilhões — resultado de US$ 11,985 bilhões em exportações e US$ 9,334 bilhões em importações.
Em relação a abril, as vendas externas se recuperaram para União Européia (6,8%), América Latina e Caribe (7,2%), Oriente Médio (9,9%) e Europa Oriental (15,5%), o que leva a crer que a recessão nesses países vem se abrandando, disse o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral.
Barral preferiu não fazer comparações com maio de 2008, mês em que os dados foram inflados pelo fim da greve da Receita Federal. Nos cinco primeiros meses do ano, as exportações caíram 22,2%, para US$ 55,484 bilhões; as importações recuaram 26,6%, para US$ 46,112 bilhões, e o saldo comercial ficou em US$ 9,372 bilhões. (O Globo – 02/06/09)<

Dólar a R$ 2 não impede vendas, afirma ministro
O ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento) disse ontem que a valorização do real torna a exportação mais difícil, mas não inviável. Ele afirmou que o país teve recordes de exportação quando o dólar valia R$ 1,70, e que a cotação em torno de R$ 2, embora não seja a mais confortável para os exportadores, não impede os negócios.
Segundo o ministro, a retração da demanda mundial atrapalha mais as exportações do Brasil que a desvalorização do dólar. E Miguel Jorge destacou que o ministério está em negociações com a China para ampliar as exportações para o país.
O ministro afirmou que o projeto do governo federal de criar uma instituição similar ao Eximbank, especializada em operações de comércio exterior, é uma das iniciativas que deve assegurar o crédito para os empresários que querem exportar.
Luciano Coutinho, presidente do BNDES, confirmou que o projeto está em estudo e adiantou que deve ser apresentado em cerca de um mês.(Folha de S. Paulo – (02/06/09)<

Indústria tem recuperação lenta afetada por exportações
A produção industrial apresentou, nos quatro primeiros meses do ano, uma recuperação lenta, sustentada pela demanda interna - que permitiu ao varejo recuperar até março as perdas do quarto trimestre de 2008 - e influenciada negativamente pelos efeitos da queda das exportações. Em abril, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial cresceu 1,1% em relação ao mês anterior, com ajuste sazonal (em março, o acréscimo havia sido de 0,7%). As taxas mais elevadas foram registradas pelos segmentos de bens de consumo duráveis (2,7%) e de bens de capital (2,6%). Entre os fatores positivos destacados por economistas para o mês estão o aumento do número de setores com crescimento (16 dos 27 ramos pesquisados, contra 12 na leitura de março) e a expansão de 2,6% na produção de bens de capital - considerada um sinal de possível retomada dos investimentos.
Outros dois indicadores assinalaram recuperação do mercado interno. As consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) aumentaram 8% ante abril de 2008 e as consultas ao SCPC/Cheque cresceram 18%, segundo pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), indicando recuperação no comércio paulista. As vendas de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus novos no país também cresceram em maio, 5,38% em relação a abril, informou a Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Na comparação com maio de 2008, houve alta de 2,04%.
Para economistas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a recuperação da economia doméstica favorecerá mais o varejo do que a indústria. Um estudo inédito elaborado pelo banco revela que 51% das perdas ocorridas na produção industrial desde setembro estão relacionadas à queda das exportações de produtos manufaturados. O estudo considerou dados de produção e comércio do IBGE e de exportação de produtos industrializados compilados pela Secex. Pelos cálculos, que tomam o desempenho de setembro como base 100, o consumo real do varejo em março já havia superado a performance de setembro, chegando a 101,1 pontos. A produção industrial chegou a 83,6 pontos, e as exportações, a 77,7 pontos. Em abril, segundo cálculo da LCA Consultores que considera os dados de produção e exportação de manufaturados, houve incremento de 1 ponto no indicador de produção (para 85 pontos) e recuo de 0,4 ponto no índice de exportação, que ficou em 71,6 pontos (ver gráfico).
Marcelo Nascimento, um dos economistas da área de pesquisas econômicas do BNDES, observa que o efeito da queda da demanda externa supera o impacto da desaceleração da economia doméstica, quando se considera toda a cadeia industrial. André Santana, economista do BNDES, cita como exemplo a cadeia automotiva. A queda nas exportações de carros impacta também o setor siderúrgico, a indústria de borracha (que não exporta) e a indústria de bens de capital com a postergação de projetos e consequente elevação dos estoques nesse setor. A indústria química sofreu efeito pequeno sobre as exportações, mas é um grande fornecedor para as indústrias de bens intermediários, que tiveram perdas mais fortes com a exportação e reduziram as compras internamente, exemplifica.
Relatório do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) apontou queda de 3,2% na média diária de exportação de manufaturados, frente às retrações de 2% em abril (sempre na comparação com o mês anterior, com ajuste sazonal). As exportações totais caíram 1,8%, após aumento de 3,8% em abril. A retração em manufaturados é um fator que limita a recuperação da indústria, afirmou Rogério César Souza, economista do Iedi. Em relação ao desempenho da indústria em abril, ele considerou positivos os resultados e prevê recuperação mais expressiva no segundo semestre, mas não com força suficiente para evitar uma queda de pelo menos 4,5% na produção de todo o ano de 2009. A indústria teria que crescer 4% ao mês daqui para frente para recuperar até o fim do ano as perdas com a crise.
Luiza Rodrigues, economista do Santander, ressaltou como positivo o maior número de setores com crescimento sobre março e os indicadores de melhora na confiança do empresariado. A recuperação da indústria está se alastrando pelos setores, disse. Mas ressalvou que as indústrias ainda operam com capacidade ociosa alta. Há sinais de recuperação, mas não dá para dizer que uma queda de 14,8% [contra abril de 2008] é o fim da crise, afirmou.
Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, a melhora em bens de capital é irrelevante, porque se deu sobre uma base muito baixa. Vale prevê continuidade da recuperação em semi-duráveis e não duráveis, sustentada pela expansão da renda. E recuperação lenta de bens duráveis. Para o ano, porém, ele prevê queda na produção industrial de 6%. No acumulado de 12 meses encerrados em abril, a indústria geral registrou queda de 3,9%. (Valor Econômico – 02/06/09)<

Câmbio gera debate dentro do governo
O governo trava um debate intenso sobre a desvalorização do dólar em relação ao real e as medidas para contê-la, informou o secretário de comércio exterior do Ministério do desenvolvimento, Welber Barral. Há um debate sobre se ainda não é hora, se está na hora ou se passou da hora (de intervir na política cambial), disse o secretário, que explicou não ser correto acreditar que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, descartou completamente a cobrança de tributos como o IOF sobre operações de câmbio. Ele disse que não cogita mexer no IOF nesse momento, afirmou Barral. A questão é qual é o momento.
Divulgada ontem com os resultados do comércio exterior do mês passado, a queda nas exportações em maio (de 38% em relação a maio do ano passado e de quase 3% em relação a abril) é uma das razões do debate sobre intervenção mais forte no mercado de câmbio. Mas temos preocupação com estabilidade regulatória: não deixaremos de ter câmbio flutuante, nem tomaremos medidas irresponsáveis que afetem a credibilidade que o Brasil demorou a conquistar, afirmou o secretário.
No debate do governo, o Ministério do Desenvolvimento defende que a melhor maneira de evitar os efeitos indesejáveis do excesso de dólares na economia é reduzir os juros dos títulos públicos, revelou Barral. O BC discorda, com o argumento de que a política monetária é dirigida ao controle da inflação e não pode ter outro objetivo.
Barral comentou que os efeitos da valorização do real são distintos entre os setores exportadores, por afetar mais duramente grandes empregadores de mão de obra (calçados, têxteis) e beneficiar indústrias com alto percentual de insumos importados, como a aeronáutica. A queda dos preços de commodities (matérias-primas com preço cotado no mercado internacional) e da demanda mundial impede que alguns dos setores prejudicados compense a perda de competitividade criada com a valorização do real, argumenta.
Em São Paulo, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, afirmou ontem que ainda é possível exportar com o dólar a R$ 2,0, mas que o ideal seria algo entre R$ 2,20 e R$ 2,30. A crise financeira dificulta mais as exportações do que a desvalorização do dólar, disse.
O ministro afirmou que, ao invés de interferir no câmbio, o governo deveria tomar outras medidas. Ele descartou a adoção de impostos para inibir a entrada de dólares e avaliou que a solução é baixar os juros. Na minha opinião, teria mais efeito para toda a economia um juro mais barato.
Apesar da preocupação do governo, o desempenho do comércio exterior brasileiro conseguiu apresentar, nos primeiros cinco meses de 2009, desempenho melhor que no mesmo periodo de 2008: as exportações superam as importações em US$ 9,4 bilhões, de janeiro a maio, quase US$ 700 milhões a mais que em 2008.
Barral minimizou o mau resultado de maio, com o argumento de que as estatísticas de maio do ano passado foram distorcidas pela greve de auditores fiscais, concentrando naquele mês de 2008 operações dos meses anteriores. Comparando-se os dados dos cinco primeiros meses do ano, a queda das exportações foi de 22%, e das importações, 26,6%.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, a forte queda nas exportações de minério de ferro, principalmente para a China, foi a maior responsável pela redução das exportações. As vendas de minério caíram, de abril para maio, quase 35% em quantidade e 12% em preço, o que levou a uma queda de quase 43% no total das receitas de exportações do produto. Se excluído o comércio do minério de ferro, as exportações teriam subido 2,4% em maio, na comparação com abril, quase US$ 260 milhões.
Com o efeito minério de ferro, pela primeira vez, desde 2002, houve queda na média diária das exportações de produtos básicos, entre janeiro e maio, de 6,5% (36% de abril para maio).
Apesar da queda nas exportações, alguns produtos importantes tiveram aumento nas vendas, como ferro fundido, carne salgada, fumo em folhas e etanol. Alguns mercados vem recuperando o poder de compra, como o Reino Unido, que aumentou em 56% as importações de produtos como petróleo, minérios, soja e avião, ou a Venezuela, que ampliou em 9,4% as compras de mercadorias como carne, automóveis e eletroeletrônicos.
O Brasil, nos primeiros cinco meses, reduziu suas importações em todas as categorias de produtos, à exceção de bens de consumo não duráveis, que aumentaram em 8,2% em relação a igual período do ano passado, especialmente produtos farmacêuticos. (Valor Econômico – 02/06/09)<

Brics buscam alternativa ao dólar como moeda de reserva
Brasil, Rússia, China e Índia já discutem como fazer para acabar com o predomínio do dólar como moeda de reserva internacional, informou ontem, em Brasília, o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, ao relatar o encontro com autoridades dos outros três países, da qual participou na semana passada.
Começa uma discussão sobre o futuro do dólar como moeda reserva do mundo, afirmou o ministro. Não estou cometendo nenhuma inconfidência, porque a discussão já está nos jornais, inclusive por declarações de presidentes dos bancos centrais.
O encontro das autoridades dos chamados Brics (sigla criada pela consultoria Goldman Sachs para abrigar os principais países emergentes) fez parte dos preparativos para uma reunião de presidentes, neste mês, em Ecaterimburgo, na Rússia. O principal objetivo dos encontros entre os Brics não é tomar decisões comuns, mas influir de maneira mais forte na agenda internacional, disse Mangabeira.
Entre os temas sobre os quais os quatro países querem mudar o rumo das discussões está a questão da propriedade intelectual (para um sistema menos rígido de proteção) e as discussões de liberalização de comércio.
Mangabeira Unger chegou a anunciar, por engano, que o Brasil já vinha fazendo, em caráter experimental operações de compensação de moedas no comércio com a China, eliminando a necessidade de compra de dólares por parte dos bancos centrais em trocas comerciais entre os dois países.
O Banco Central brasileiro negou, porém, que o sistema já esteja em operação e informou que houve, apenas, um acordo para sua implementação, assinado entre os dois países. Para o ministro, o funcionamento do sistema de compensação em moedas locais, como já existe na Argentina, prepara o caminho para um experimento mais abrangente.
Há uma grande preocupação com o futuro do dólar, enfatizou o ministro, ressalvando, porém, não acreditar em mudanças em curto prazo na situação da moeda americana como reserva internacional. Há também uma grande preocupação em evitar que o debate sobre o tema agrave a volatilidade nos mercados de câmbio, provocando ainda mais distúrbios, disse o ministro de Assuntos Estratégicos, que defendeu discussões para uma transição ordenada a outro sistema monetário mundial.
Para Mangabeira, a manutenção do dólar como moeda de referência internacional é inviável em longo prazo, assim como também não se cogita a criação de uma moeda global gerenciada por uma burocracia internacional poderosa.
Entre um polo e outro, há opções a serem exploradas, como a definição de uma cesta de moedas para servir de referência às transações internacionais, ou a reprodução, em maior escala, do sistema de Direitos Especiais de Saque (DES) , do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma espécie de moeda virtual lastreada em depósitos dos países sócios do FMI na instituição.
Não existe nem a opção de sonegar o debate, dizer que esse assunto é perigoso demais para debater, comentou o ministro Mangabeira Unger. O debate já está instaurado pelos representantes dos outros países, inclusive pelas autoridades da China, afirmou. (Valor Econômico – 02/06/09)<

Parceria de futuro
Annika Markovic, embaixadora do Reino da Suécia no Brasil, é uma fã da comida e da boa música brasileira. Antes de tudo, contudo, revela-se uma entusiasta da economia do país. O Brasil abriga mais de 220 empresas suecas e a primeira chegou aqui há mais de um século. A cada ano, entre três e cinco companhias se instalam no país. A crise não quebrou o ânimo. Acredito que entre três e cinco empresas suecas ainda se instalarão aqui neste ano. E acrescenta: A única diferença hoje é que entre o período da tomada de decisão até a implantação dos aportes o prazo ficou mais longo que antes, sinais da cautela que exigem os períodos de crise. Annika, 45 anos, está há dois anos no Brasil e é fã incondicional da feijoada.
As empresas suecas respondem por um faturamento superior a R$ 23 bilhões no Brasil, segundo levantamento da Câmara de Comércio Sueco-Brasileira. Empregam 50 mil funcionários e investiram cerca de U$ 3,3 bilhões na economia brasileira entre 2000 e 2005, fazendo da Suécia um dos maiores investidores estrangeiros no país. São Paulo é considerada pelos suecos seu primeiro pólo industrial, superando Gotemburgo.
Desde setembro, quando a crise financeira eclodiu nos EUA, contudo, os investidores tornaram-se mais receosos. Segundo a embaixadora, os empresários pensam duas vezes antes de desengavetar projetos fora do país. Para uma pequena empresa, o período agora é de nove meses, quando antes era de seis. Para as grandes esse prazo se torna bem maior, explica. Essa mudança de comportamento não se revela apenas naqueles que estão pensando em investir aqui, mas também naqueles que já estão estabelecidos no mercado brasileiro. As empresas grandes instaladas no Brasil e que têm planos de investir também estão levando mais tempo para fazê-lo, mas não é por causa da situação financeira do Brasil, e sim por conta da crise global, define.
Entre os setores de maior interesse nas relações bilaterais, Annika Markovic avalia que existe uma boa possibilidade de cooperação na indústria de inovação e tecnologia entre os governos suecos e brasileiro. Ambos estão trabalhando para intensificar as relações nos segmentos de alta tecnologia e inovação, desenvolvimento da educação geral e específica, principalmente pelo uso da internet, e novos métodos de educação de jovens e crianças brasileiras, explica.
Na sua avaliação, Brasil e Suécia têm em comum o desafio de trabalhar com grandes áreas pouco povoadas e, por causa disso, a possibilidade de educar por internet é interessante para os dois países - ou seja, investimentos em tecnologia destinada para a educação são promissores. Outra área com boas perspectivas é a de defesa. Temos acordos bilaterais desde 2001 para trabalharmos na área de defesa, e agora estamos identificando novos projetos, informa.
O estreito relacionamento comercial entre os dois países e o interesse crescente pela produção de etanol de cana-de-açúcar trouxeram mais uma delegação estrangeira à União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), no fim de janeiro ao Brasil. O grupo, formado por representantes de bancos e entidades institucionais, esteve na sede da entidade para conhecer melhor o setor sucroenergético brasileiro.
Com uma política de proteção ambiental consistente, a Suécia é um dos maiores consumidores do etanol brasileiro na Europa. O país trabalha para reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis e mais de 30% dos postos de combustível suecos já oferecem o E85 - mistura de 85% de etanol com 15% de gasolina.
Em março, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Miguel Jorge, reuniu-se com a ministra do Comércio da Suécia, Ewa Björling, para conversar sobre cooperação industrial, perspectivas de crescimento de investimentos para os próximos anos e incremento do comércio bilateral.
As questões relacionadas à sustentabilidade têm peso considerável nas decisões do governo e da iniciativa privada sueca. Prova disso é que outra delegação chegou ao Brasil rumo à Amazônia, tendo a embaixadora à frente, entre 25 e 29 de maio. A delegação quer trabalhar a cooperação em projetos para produtos de madeira e não madeira da região amazônica, conta.
A viagem abrangeu três Estados: Acre, Mato Grosso e Amazônia. Nossa visita inclui encontros com os governadores locais para avaliar novos meios de desenvolvimento sustentável na Amazônia, diz. O grupo é composto de representantes de empresas, governo e universidades. Depois do verão europeu haverá visita nas companhias de TI. Há muitas formas de cooperação entre o Brasil e a Suécia, e o governo sueco está muito interessado nessa cooperação, informa.
Para Annika Markovic, apesar dos muitos pontos em comum entre os dois países, os números em comércio ainda não são muito interessantes, pois as empresas suecas, em lugar de importarem ou exportarem, vendem o que produzem no próprio mercado interno.
Entre 2003 a 2008, a corrente de comércio entre os dois países praticamente triplicou. Passou de US$ 938,1 milhões para US$ 2,286 bilhões no ano passado. Já no primeiro bimestre de 2009, Brasil e Suécia tiveram um intercâmbio comercial de US$ 217,9 milhões - número 33,1% menor que o registrado no mesmo período de 2008 -, com déficit brasileiro de US$ 143,7 milhões nas transações entre os dois países.
Ainda nos primeiros dois meses de 2009, último dado disponível, as exportações brasileiras para a Suécia somaram US$ 37,1 milhões, uma queda de 51% sobre o mesmo período do ano anterior - de US$ 75,4 milhões. A Suécia foi responsável por 0,19% dos destinos das vendas brasileiras nesse período, participação inferior à registrada entre janeiro e fevereiro de 2008 (0,29%). Do lado das importações, no mesmo período comparativo, houve queda de 27,8%, passando a US$ 18,1 milhões. A participação sueca nas importações totais do Brasil manteve-se em 1%.
A pauta de exportação brasileira para a Suécia, no bimestre, foi constituída por bens industrializados (54,3%) e produtos básicos (45,6%). Em termos relativos, houve retração de 60,5% nos produtos manufaturados e semimanufaturados e de 31% nos básicos, em relação ao mesmo período do ano passado. A pauta de importação brasileira da Suécia, no período, foi constituída por industrializados, sendo 99% de manufaturados e 1% de semimanufaturados.
Há evolução e perspectiva de comércio bilateral entre o Brasil e a Suécia que indicam a possibilidade de crescimento acelerado. Quanto mais pessoas enxergarem o potencial que existe nos dois países mais rápido será o processo, pois as possibilidades são ilimitadas, diz José Augusto Corrêa, diretor titular adjunto do departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp).
As exportações para a Suécia em 2009, no entanto, na opinião de Corrêa, não deverão deslanchar. Se até o Brasil terá um crescimento negativo, imagine os países europeus, diz. A Suécia vai enfrentar em 2009 uma recessão severa, com queda de 4,2% no Produto Interno Bruto PIB) - maior desde a Segunda Guerra Mundial - e com retorno do desemprego ao patamar de 12% até 2011, de acordo com as previsões do governo divulgadas na semana passada.
O crescimento, no entanto, deve recuperar-se em 2010, mas a um ritmo baixo (0,2%), passando para 2,4%, em 2011, segundo o Ministério das Finanças do país. Em 2008, o PIB já recuou 0,2%. A política econômica está diante de enormes desafios. Mas nossa atitude é clara. Devemos combater a crise protegendo as finanças públicas, declarou o ministro das Finanças, Anders Borg, em um comunicado.
Somente a explosão da 1ª Guerra Mundial teve um impacto mais devastador sobre a economia sueca, enquanto país neutro, com uma recessão perto dos 9%. Nos primeiros meses de 2009, as exportações foram inferiores em mais de um quarto de seu nível do ano passado. A indústria sueca, do setor automobilístico, mecânico ou do aço, sofre com a queda brusca da demanda.
Para o diretor titular do Derex, a probabilidade de aumento nos novos negócios está nos contatos. A experiência mostra que esse tipo de negociação é interessante, diz Augusto Corrêa, relatando uma recente experiência vivida na federação. Em 2008, foram registradas 18 rodadas de negociações na Fiesp. Em 2009, já contabilizamos o mesmo número entre janeiro e maio. Isso mostra como os negócios no Brasil estão acelerando e o país está atraindo interesses lá fora, comenta. (Valor Econômico – 02/06/09)<

Calotes nas exportações preocupam setor no Brasil
Abatidas pela crise mundial, muitas empresas deixaram compromissos mundo afora, o que tem atingido em cheio companhias brasileiras dos mais variados setores.
Dados mostram que a situação é preocupante e já chamou a atenção do governo. A Coface, maior seguradora de crédito à Exportação do Brasil, acusou no primeiro trimestre uma explosão dos sinistros nessas operações. Segundo o presidente da empresa, Fernando Blanco, a relação entre prêmios e sinistros, que normalmente oscila de 35% a 40%, saltou para 417% no balanço dos três primeiros meses do ano.
Isso significa que, de cada US$ 100 de prêmios recebidos pela seguradora, entre US$ 35 e US$ 40 resultam em perdas, em condições normais. No primeiro trimestre, foram US$ 417 (no exemplo).
A diferença (US$ 317) saiu do meu caixa diz Blanco.
Segundo o presidente da Coface, a inadimplência atinge corporações de países emergentes e desenvolvidos, como Itália, Inglaterra, Venezuela, Chile, Dinamarca, Holanda, Suécia e Indonésia.
A Coface só trabalha com Exportação de manufaturados, que, nas contas do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, respondem por 46% do total da pauta brasileira, de US$ 198 bilhões no ano passado.
O diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca, confirma os problemas.
Conhecemos de 50 a 100 exportadores que tiveram algum tipo de atraso afirma. Ainda não é algo que chegue ao bilhão, mas certamente já está na casa dos milhões de dólares.
Encarecimento e desistências
O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, revela apreensão com o tema.
Estou há 40 anos nessa área e nunca vi nada parecido. O volume de calote aumentou muito, principalmente nos EUA diz Castro.
O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Alessandro Teixeira, revela que cerca de 10% dos 5 mil sócios da entidade já relataram algum tipo de dificuldade para receber o dinheiro de vendas ao exterior. Mas destaca que todos os casosaté agora envolvem o adiamento do prazo de pagamento.
Ainda não são reclamações de inadimplência ressalta.
Uma das consequências desse quadro é o encarecimento do seguro cobrado dos exportadores.
Reajustamos nossos prêmios em 30% confirma Blanco.
Com isso, diz Castro, diversas empresas, principalmente de menor porte, desistem de vender ao exterior.
A associação dos produtores de calçados, Abicalçados, negou, por meio de sua assessoria de imprensa, o aumento do calote. O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, disse que não há informação de problema massivo.
Nosso setor é muito previdente, porque opera com margens muito apertadas disse. (Jornal do Brasil – 01/06/09)<

Novo ciclo de inserção internacional
Essa situação abre um leque de oportunidades para o País se posicionar em áreas que antes recebiam pouca atenção dos formuladores de políticas. Mas, apesar de esse movimento de atualização da agenda internacional ser notório, ainda não foi assumido como parte essencial da estratégia de desenvolvimento nacional.
Como tende a acontecer em nações com forte diversidade socioeconômica, a redefinição da inserção externa não está ocorrendo de maneira linear e homogênea. Ao contrário, convivem lado a lado estratégias e ações diversas, tanto dentro como fora da esfera estatal. E uma de suas dimensões mais interessantes está associada às reformas econômicas de caráter seletivo, que combinaram abertura forte de alguns setores e comedida de outros, com algumas políticas públicas bem-sucedidas que, ao final, criaram incentivos para uma surpreendente expansão brasileira no exterior.
Houve um crescimento de mais de 440% do fluxo comercial do Brasil com o mundo, de 1990 até 2008. Isso dobrou a importância do comércio exterior no PIB nacional, que saltou de 11% para 22%. Simultaneamente, a pauta de exportação se diversificou, abrindo espaço para segmentos como os de serviços, incluindo as áreas de tecnologia da informação (TI), financeira e de engenharia e construção - todas intensivas em tecnologia, pesquisa e conhecimento. Outro indicador que teve alterações significativas foi o de investimento externo direto no País, que saiu de menos de US$ 1 bilhão em 1990 para US$ 45 bilhões em 2008.
Um dos mais importantes reflexos dessa dinâmica foi a recente quitação da dívida com o FMI e o aumento das reservas internacionais ao maior nível na História. O montante das reservas coloca o Brasil, pela primeira vez, como credor internacional, o que certamente tem efeitos positivos sobre sua respeitabilidade e seu poder de barganha no cenário externo.
Dentre as frentes de internacionalização do País, um dos maiores destaques é o rápido avanço de multinacionais brasileiras no exterior. Além de crescente, essa presença é cada vez mais diversificada em termos de porte, de setores - incluindo áreas como siderurgia, mineração, financeira, TI, engenharia e construção, energia e aviação, entre outras - e de mercados, como América Latina, EUA, Europa e China. O estoque de investimento brasileiro direto no exterior alcançou US$ 114 bilhões em 2006. Isso colocou o Brasil como o 12º maior investidor externo do mundo e o 2º entre os países emergentes.
Pesquisa e inovação também deram um importante salto nos últimos anos e acompanharam a internacionalização, e em alguns campos científicos o País deixou de ser apenas importador de conhecimento e passou a exportar capital intelectual. Há esforços para diminuir o gap nessa área, como a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce), a Lei de Inovação, a Lei do Bem e as linhas de crédito do BNDES, da Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), além de iniciativas dos governos estaduais e municipais.
Os pesquisadores brasileiros quadruplicaram a publicação de artigos em periódicos científicos internacionais e foram, em 2006, responsáveis por quase 50% de toda a produção científica indexada na América Latina. A contínua falta de conexão entre a academia e o meio empresarial, no entanto, contribui para o descompasso entre o grande crescimento das publicações internacionais e a evolução do número de patentes de residentes brasileiros no Brasil e no exterior.
Essa internacionalização multifacetada tem acarretado mudanças dos fóruns e meios prioritários de atuação do País. Por exemplo, as arenas estritamente formais e diplomáticas perdem importância relativa e ganham relevância novos atores, como agências reguladoras, bancos de fomento, instituições de pesquisa e inovação e empresas. A participação desses atores tem redefinido a ação internacional do País e forçado uma articulação crescente deles com a orientação da política externa. Em geral, isso tem contribuído para a posição do governo externamente se alinhar às estratégias setoriais e às políticas públicas internas.
A definição de uma nova estratégia de inserção internacional precisa considerar, acima de tudo, que a economia brasileira é razoavelmente aberta, competitiva e com razoável potencial de crescimento, o que coloca o País num patamar bastante distinto daquele em que se encontrava há alguns anos. O crescimento do comércio e do investimento no exterior, tanto industrial como de serviços, incluindo média e alta tecnologias, tornou-se parte essencial da estratégia de uma vasta gama de empresas aqui sediadas. O padrão regulatório nacional em áreas como telecomunicação, concorrência, inovação e sistema financeiro já está bastante alinhado ao de países desenvolvidos e, por vezes, é até mais aberto e moderno que o deles. Por isso esse padrão precisa ser incorporado à agenda estratégica do Brasil. Não há por que o País não ser mais ativo e propositivo também nesses campos, tanto regional quanto globalmente.
Diferentemente dos outros ciclos de inserção internacional do Brasil, o atual é, por sua própria natureza, mais amplo e multifacetado e não se restringe a ajustes da política externa. Envolve novos atores e fóruns dentro e fora do País e implica redefinições de estratégias e alianças internacionais. O Brasil está diante de um enorme desafio: incorporar integralmente as variáveis internacionais na equação do desenvolvimento nacional e redesenhar, de forma coerente e criativa, o papel que espera desempenhar no mundo nas próximas décadas. (O Estado de S. Paulo 01/06/09)<

Novo ciclo de inserção internacional
Essa situação abre um leque de oportunidades para o País se posicionar em áreas que antes recebiam pouca atenção dos formuladores de políticas. Mas, apesar de esse movimento de atualização da agenda internacional ser notório, ainda não foi assumido como parte essencial da estratégia de desenvolvimento nacional.
Como tende a acontecer em nações com forte diversidade socioeconômica, a redefinição da inserção externa não está ocorrendo de maneira linear e homogênea. Ao contrário, convivem lado a lado estratégias e ações diversas, tanto dentro como fora da esfera estatal. E uma de suas dimensões mais interessantes está associada às reformas econômicas de caráter seletivo, que combinaram abertura forte de alguns setores e comedida de outros, com algumas políticas públicas bem-sucedidas que, ao final, criaram incentivos para uma surpreendente expansão brasileira no exterior.
Houve um crescimento de mais de 440% do fluxo comercial do Brasil com o mundo, de 1990 até 2008. Isso dobrou a importância do comércio exterior no PIB nacional, que saltou de 11% para 22%. Simultaneamente, a pauta de exportação se diversificou, abrindo espaço para segmentos como os de serviços, incluindo as áreas de tecnologia da informação (TI), financeira e de engenharia e construção - todas intensivas em tecnologia, pesquisa e conhecimento. Outro indicador que teve alterações significativas foi o de investimento externo direto no País, que saiu de menos de US$ 1 bilhão em 1990 para US$ 45 bilhões em 2008.
Um dos mais importantes reflexos dessa dinâmica foi a recente quitação da dívida com o FMI e o aumento das reservas internacionais ao maior nível na História. O montante das reservas coloca o Brasil, pela primeira vez, como credor internacional, o que certamente tem efeitos positivos sobre sua respeitabilidade e seu poder de barganha no cenário externo.
Dentre as frentes de internacionalização do País, um dos maiores destaques é o rápido avanço de multinacionais brasileiras no exterior. Além de crescente, essa presença é cada vez mais diversificada em termos de porte, de setores - incluindo áreas como siderurgia, mineração, financeira, TI, engenharia e construção, energia e aviação, entre outras - e de mercados, como América Latina, EUA, Europa e China. O estoque de investimento brasileiro direto no exterior alcançou US$ 114 bilhões em 2006. Isso colocou o Brasil como o 12º maior investidor externo do mundo e o 2º entre os países emergentes.
Pesquisa e inovação também deram um importante salto nos últimos anos e acompanharam a internacionalização, e em alguns campos científicos o País deixou de ser apenas importador de conhecimento e passou a exportar capital intelectual. Há esforços para diminuir o gap nessa área, como a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce), a Lei de Inovação, a Lei do Bem e as linhas de crédito do BNDES, da Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), além de iniciativas dos governos estaduais e municipais.
Os pesquisadores brasileiros quadruplicaram a publicação de artigos em periódicos científicos internacionais e foram, em 2006, responsáveis por quase 50% de toda a produção científica indexada na América Latina. A contínua falta de conexão entre a academia e o meio empresarial, no entanto, contribui para o descompasso entre o grande crescimento das publicações internacionais e a evolução do número de patentes de residentes brasileiros no Brasil e no exterior.
Essa internacionalização multifacetada tem acarretado mudanças dos fóruns e meios prioritários de atuação do País. Por exemplo, as arenas estritamente formais e diplomáticas perdem importância relativa e ganham relevância novos atores, como agências reguladoras, bancos de fomento, instituições de pesquisa e inovação e empresas. A participação desses atores tem redefinido a ação internacional do País e forçado uma articulação crescente deles com a orientação da política externa. Em geral, isso tem contribuído para a posição do governo externamente se alinhar às estratégias setoriais e às políticas públicas internas.
A definição de uma nova estratégia de inserção internacional precisa considerar, acima de tudo, que a economia brasileira é razoavelmente aberta, competitiva e com razoável potencial de crescimento, o que coloca o País num patamar bastante distinto daquele em que se encontrava há alguns anos. O crescimento do comércio e do investimento no exterior, tanto industrial como de serviços, incluindo média e alta tecnologias, tornou-se parte essencial da estratégia de uma vasta gama de empresas aqui sediadas. O padrão regulatório nacional em áreas como telecomunicação, concorrência, inovação e sistema financeiro já está bastante alinhado ao de países desenvolvidos e, por vezes, é até mais aberto e moderno que o deles. Por isso esse pa