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Revista Abinee

março/2009

8

editorial

Para enfrentar os tent

A

crise mundial é inusitada e desmis-

tificadora. Inusitada, porque apre-

sentou intensidade de contágio que

não se conhecia anteriormente. Re-

flexo da globalização financeira e produtiva

das últimas duas décadas, em menos de um

ano a crise produziu estragos cuja rapidez e

vigor são piores do que os distúrbios do final

da década de noventa nos países do leste asi-

ático e na Rússia ou a conturbação produzida

pela multiplicação do preço internacional do

petróleo na segunda metade dos anos 70.

A natureza da crise evoluiu de um problema

de inadimplência no mercado hipotecário ame-

ricano para uma situação de restrição à liquidez,

isto é, de estancamento das linhas de crédito

mundo a fora. A insegurança que arrasta gerou

uma crise de confiança sem precedentes, o que

vem produzindo restrição/interrupção dos flu-

xos de comércio, volatilidade cambial e queda

da produção. Deixará como legado, além de um

contingente elevado de desempregados pelo

mundo, entre 20 a 30 milhões, uma situação

fiscal crítica para vários países, a exemplo do

que já ocorre nos EUA.

Desmistificadora porque a idéia de que os

países emergentes (BRICs) estariam “blinda-

dos” se revelou desastrosa. A queda de 12,7%

da produção industrial brasileira e as 630 mil

demissões em dezembro retratam o complexo

emaranhado comercial e político que envolve as

nações atualmente. Foi-se o tempo de posições

autóctones em que o protecionismo imperava

como vetor da política econômica de um país.

O que se constata é que as condições estru-

turais internas de uma nação podem ajudá-la

a enfrentar melhor os reflexos da crise. Os

fundamentos econômicos, representados no

arranjo da política monetária, fiscal e cambial,

não evitam os impactos da crise, mas permitem

que a economia doméstica sofra menos e que,

ao final do processo, possa estar mais fortale-

cida do que antes.

A nosso juízo, o Brasil é um desses países

que pode sair fortalecido da crise. Para que

isto ocorra, temos a necessidade de trabalhar

concomitantemente com duas agendas. Uma

de curto prazo, voltada para combater a ca-

lamidade imposta pela crise. A outra, de mais

longo prazo, em que se construam as condições

para que o crescimento do país possa retornar

aos patamares do período pré-crise, ou seja,

para que se possa voltar a crescer entre 4% e

6% ao ano.

Várias propostas já foram apresentadas ao

governo por diversos setores da sociedade.

Reputo que o estreitamento dos laços entre

governo e o setor privado é crucial para que

se construam as duas agendas em resposta

ao presente e como solução para o futuro. Os

entendimentos mostraram que é possível abrir

espaço para o investimento público e privado.

Para tanto é necessário, ao separar didatica-

mente a agenda de curto da de longo prazo,

não ignorar ações que estabelecem um elo

entre esses dois objetivos.

Reside nos investimentos em infraestrutura

e numa plataforma de compras governamentais