Análise de Conjuntura

Análise econômica produzida pelo diretor de economia da Abinee, com base em informações da Sondagem Conjuntural realizada mensalmente pelo Departamento de Economia junto às empresas associadas e, também, nos aspectos econômicos do país.

Fevereiro de 2021 - O que esperar de 2021 e 2022


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O que esperar de 2021 e 2022

Iniciamos esta análise com dados da vacinação porque a pandemia é hoje o maior fator, embora não o único, a influenciar ou mesmo determinar a evolução da economia. Enquanto se mantiver o “abre e fecha” das atividades, não teremos chance de restabelecer a confiança dos agentes econômicos e ter uma recuperação duradoura.

O Ministério da Saúde atualizou o cronograma provável de entrega de vacinas em 22 de abril. Vale notar que este cronograma é atualizado semanalmente, com base em novas informações. Para a próxima semana, por exemplo, ele deve ser revisado para baixo, em função da exclusão de perto de 48 milhões de doses contratadas da Sputnik V, até agora rejeitada pela ANVISA. O Quadro 1 abaixo mostra o número de pessoas e a respectiva porcentagem acumulada da população acima de 18 anos vacinada a cada mês. Vale lembrar que, da população estimada de 213 milhões em 2021, em torno de 150 milhões ou 70,4% tem 18 anos ou mais.

O Quadro mostra que toda a população adulta poderá estar vacinada (com duas doses) até setembro ou, mais realisticamente, até o final de 2021. Portanto, ainda neste ano o país atingiria a chamada “imunidade de rebanho”. Se a eficácia das vacinas se mantiver, mesmo com as novas variantes do vírus, e o cronograma for cumprido, espera-se que o Brasil esteja livre da pandemia e retorne a uma situação de normalidade a partir de 2022.

Apesar da pandemia ser o principal fator que está determinando a evolução da economia, os problemas não se esgotam por ai. A questão fiscal continua sem solução à vista, com dois agravantes: os remendos e contas de chegar feitos tardiamente no orçamento de 2021 e os gastos adicionais com os novos programas de apoio social (abono de emergência e subsídio à manutenção de emprego). Por mais meritórios que tais programas sejam, eles aumentam o déficit primário projetado para este ano (3% do PIB) e o déficit nominal (8,1%). Com isso, a dívida bruta deve superar os 90% do PIB até final do ano. Acresce-se a isso a elevação da taxa selic nos meses vindouros, que aumenta o serviço da dívida.

Por outro lado, temos assistido ao aumento contínuo da taxa de inflação, que fechou o ano passado em 4,5% e está projetada para 5% neste ano. Já comentamos que o aumento da inflação, no meio de uma recessão, se explica por um forte “cost push”, advindo do aumento extraordinário dos preços de commodities no mercado mundial e do aumento da taxa de câmbio. Desde o inicio da pandemia, os preços das commodities subiram, em média, em torno de 25% em dólares. A taxa de câmbio subiu 30,7% entre 2019 e 2020 (em média anual) e deve subir em torno de 8% neste ano, também em média anual. Espera-se que a subida das matérias-primas se atenue ou reverta e a taxa de câmbio se mantenha no patamar atual no segundo semestre, mas o estrago já foi feito. Com tudo isso, é provável que a taxa básica de juro atinja mais de 5% no final do ano, para mantê-la levemente positiva em termos reais.

Quanto ao crescimento do PIB em 2021, um registro importante deve ser feito. Como tivemos uma forte queda de renda real em 2020, se o PIB permanecer constante ao nível do quarto trimestre do ano passado, o efeito estatístico (“carry over”) produzirá crescimento pouco acima de 3% neste ano. Esta taxa é mais ou menos a que está sendo prevista para 2021. No momento, as expectativas de empresas e consumidores estão se tornando mais pessimistas, mas isso poderá se reverter no segundo semestre, quando se intensificar o ritmo de vacinação. Assim, pode-se esperar um segundo semestre melhor do que o primeiro, que foi muito afetado pelas restrições impostas pelos estados a partir de fevereiro para reduzir o contágio da doença.

A melhora da atividade prevista para o segundo semestre deve se estender ao longo de 2022. Como não haverá mais o efeito de “carry over”, o crescimento esperado neste momento está ao redor de 2,5%. Se este cenário se concretizar, chegaremos ao final do ano que vem com PIB 1% superior ao de 2019, superando os efeitos negativos da pandemia.

Depois de uma queda acumulada da ordem de 17% desde 2014, a produção industrial deve crescer em torno de 3-4% neste ano. O cenário para o setor eletroeletrônico é bem melhor do que isso, com expansão prevista da ordem de 6%. Em 2022, tudo indica que a recuperação da indústria e do setor prossiga moderadamente.

Celso Luiz Martone - diretor da área de Economia da Abinee

Janeiro de 2021 - A Indústria em 2020


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A Indústria em 2020

Com dados completos sobre o ano passado, fazemos aqui um resumo do desempenho industrial do Brasil num ano atípico, marcado pela pandemia e consequente paralisação de parte das atividades econômicas. O primeiro fato a notar é que o setor industrial tem crescido abaixo do crescimento do PIB há longo tempo, fenômeno que alguns chamam de “desindustrialização”. Nos últimos 5 anos (2016-20), o PIB caiu 3,3%, ao passo que a indústria contraiu-se 8,5%. Trata-se, portanto, de um fato estrutural e não conjuntural, que de alguma maneira reflete uma perda de competitividade e dinamismo da economia brasileira. Sabemos que, no longo prazo, o crescimento da renda per capita depende da qualidade da força de trabalho, do progresso tecnológico e da eficiência no provimento de bens públicos pelo Estado. Esses três ingredientes tem avançado pouco no país.

O Quadro 1 apresenta as taxas de crescimento da indústria, dividida por grandes segmentos, para o período 2016-20 e para o ano de 2020. Como podemos ver, as quedas foram fortes e generalizadas nos últimos 5 anos e especialmente no ano passado. Vale a pena destacar a contração na produção de bens de capital de 9,8% em 2020, resultado da queda nos investimentos, que devem ter chegado a menos de 15% do PIB. Também se destaca a queda de quase 20% na produção de bens duráveis de consumo, o que reflete não apenas a queda da massa de renda real, mas, principalmente, a retração do consumidor num momento de grande incerteza sobre o futuro próximo.

O setor eletroeletrônico teve desempenho bem menos ruim do que a indústria em geral. No acumulado de 2016-20, a retração foi de 5,3% e no ano passado de 2,1%. Essas quedas pequenas destacam-se ainda mais quando as comparamos com os bens de capital e bens duráveis de consumo (segmentos associados), que tiveram contração de 9,8% e 19,7% no ano passado, como indicado acima.

Em 2021, as projeções até o momento são otimistas. A pesquisa Focus do Banco Central registra expectativa de crescimento do PIB da ordem de 3,5%. Se isso se confirmar, é provável que a indústria como um todo cresça a uma taxa mais elevada. Entretanto, ainda estamos no início do ano e os riscos percebidos são substanciais. Em primeiro lugar, o curso da pandemia ainda é incerto, dada a lentidão do processo de vacinação, a própria escassez de vacinas e a verdadeira batalha que se estabeleceu entre os países pela sua obtenção em grandes quantidades. A projeção do governo é de que, até meados do ano, 50% da população estará vacinada e 100% até o final do ano. Ainda há ceticismo sobre essas metas.

Em segundo lugar, a provável volta do auxílio emergencial e a dificuldade de aprovação no Congresso de cortes compensatórios de despesa podem elevar a projeção do déficit primário neste ano para cima dos atuais 3% do PIB e, consequentemente, o aumento da dívida pública. Neste momento, ainda está em discussão o formato do novo auxílio e sua forma de compensação. Também se espera que entre na pauta do Congresso a emenda constitucional da reforma administrativa e emergência fiscal. É possível que as novas mesas do Senado e da Câmara tenham melhor diálogo com o governo e apressem a votação dessas reformas.

Se os dois obstáculos acima forem resolvidos razoavelmente, as atuais projeções de crescimento devem se manter ou mesmo aumentar. Afinal, é normal ter-se crescimento elevado após uma recessão grave como a do ano passado. Isto vale para o Brasil e para a economia mundial que, segundo o FMI, pode crescer bem acima de seu potencial neste ano (algo em torno de 5,4%).

Celso Luiz Martone - diretor da área de Economia da Abinee

 

Análise de Conjuntura 2018


Informações Adicionais

Cristina Keller

Analista de Economia

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