Carta de Conjuntura

Carta de Conjuntura econômica produzida pelo diretor de economia da Abinee, com base em informações da Sondagem Conjuntural realizada mensalmente pelo Departamento de Economia junto às empresas associadas e, também, nos aspectos econômicos do país.

Março de 2022 - As variações recentes da taxa de câmbio


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As variações recentes da taxa de câmbio

É possível identificar três movimentos distintos da taxa de câmbio brasileira nos últimos anos, conforme mostra o Gráfico 1. O primeiro movimento ocorreu entre 2018 e início de 2020, com uma leve tendência de desvalorização do real, que sai de pouco mais de R$ 3,2/US$ e ultrapassa os R$ 4 no final de 2019. O segundo movimento, mais acentuado, aconteceu a partir do início da pandemia, quando a taxa sobe rapidamente para algo em torno de R$ 5,4 e mantem-se oscilante em torno desse valor. O terceiro movimento é mais recente e caracteriza uma valorização do real a partir de janeiro de 2022, com o retorno da taxa para baixo de R$ 5.

Para o período como um todo, tem havido uma direção de desvalorização, como mostra a linha de tendência do gráfico. Essa tendência não deve ser extrapolada, pois há vários fatores que podem alterá-la para cima ou para baixo no futuro próximo.

Esses movimentos podem ser parcialmente explicados pela ação de dois fatores principais: o comportamento do dólar em relação a uma cesta ampla de moedas (taxa efetiva de câmbio do dólar) e o diferencial de juro entre o Brasil e o resto do mundo. Quando o dólar valoriza, o real tende a desvalorizar e vice-versa. Quando o diferencial de juro é favorável ao Brasil, entra capital e a taxa de câmbio aprecia. Vejamos cada um deles.

O Gráfico 2 apresenta a taxa efetiva de câmbio do dólar, apurada pelo Federal Reserve, com base em ampla cesta de moedas. Novamente aqui, observamos tres movimentos distintos. O primeiro é de valorização do dólar a partir de 2018, com nítida aceleração nos primeiros meses da pandemia (fevereiro-abril de 2020). O segundo é de desvalorização acentuada a partir daí, até meados de 2021 e o terceiro é de valorização moderada a partir de então até hoje. Pelo menos dois fatores estão associados a esses movimentos. De um lado, deve-se lembrar o fenômeno conhecido como flight to quality: toda vez que aumenta a incerteza (e a percepção de risco) na economia mundial, por qualquer motivo, ocorre um aumento na procura por dólar (títulos norte-americanos) como uma salvaguarda contra eventos adversos nos demais mercados.

No período observado, a incerteza aumentou por dois fatos. A pandemia atingiu primeiramente a China e a Europa, para logo depois propagar-se para o resto do mundo. Naquele momento, houve fuga de capitais para os EUA e forte valorização do dólar. Mais recentemente, o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em fevereiro de 2022 novamente produziu incertezas, especialmente na Europa, favorecendo nova valorização do dólar.

De outro lado, nos meses mais recentes ficou claro que o Fed, depois de medidas paliativas (redução dos estímulos monetários mensais), iria finalmente iniciar uma fase de aumentos da taxa básica de juro para controlar a elevada taxa de inflação, o que torna os títulos norte-americanos relativamente mais rentáveis aos investidores e atrai capitais para os EUA. Os mercados financeiros já vinham ajustando a curva de juros mesmo antes da ação do Fed. Nos últimos seis meses, a taxa sobre o T-bond de 10 anos, por exemplo, aumentou 1,5 ponto percentual para 2,75% em abril, contra a meta da Fed funds, de apenas 0,5%. Ou seja, a yield curve (curva da taxa de juros) tornou-se bastante inclinada para cima em antecipação à ação do Fed.

Voltando ao Brasil, deve-se destacar o papel do diferencial de juro como indutor dos fluxos de capitais de curto prazo. De um lado, o Banco Central tem realizado agressivos aumentos do juro básico e ainda anunciado que o processo de alta vai continuar nos próximos meses. De outro lado, os bancos centrais dos EUA e Europa têm sido bem mais reticentes em apertar suas políticas monetárias. Isso tem criado um crescente diferencial de juro a favor do Brasil e induzido a entrada de capital especulativo, com a consequente valorização do real nos últimos meses. Como essa situação deve persistir ao longo deste ano, é provável que a taxa de câmbio brasileira permaneça em torno do patamar atual (abaixo do ano passado).

Para finalizar, deve-se reconhecer que existem fatores não econômicos que afetam a formação de expectativas dos agentes, como o atual conflito institucional entre os três poderes da República e as eleições gerais de outubro próximo. Na medida em que o ano avança, esses fatores podem crescer de importância e conduzir a cotação de nossa moeda para cima ou para baixo, gerando maior volatilidade nos mercados financeiros. Entretanto, os fatores fundamentais para a determinação da taxa de câmbio continuam sendo a variação do dólar nos mercados globais e o diferencial de juro entre o Brasil e o resto do mundo.


Celso Luiz Martone - diretor da área de Economia da Abinee

Fevereiro de 2022 - Os efeitos da guerra na economia brasileira


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Os efeitos da guerra na economia brasileira

A guerra entre Rússia e Ucrânia já vem produzindo efeitos negativos de grande magnitude na economia global. Os cenários benignos desenhados no final do ano passado pelo FMI e pela OECD, tanto em crescimento do PIB mundial quanto da queda da inflação, foram rapidamente superados. Mesmo que a guerra termine em curto prazo, o que não parece provável, esses efeitos se propagarão ao longo do ano, o que faz antever um desempenho econômico aquém do que se havia projetado. O primeiro impacto da guerra foi a disparada nos preços das commodities em geral. Como mostra o Gráfico 1, o índice CRB spot, que é uma média ponderada de preços em dólares de todas as commodities, subiu nada menos do que 20% no primeiro mês da guerra. Os Gráficos 2 e 3 mostram a subida dos preços do petróleo, da soja e do trigo. O fato é que o temor do desabastecimento faz com que todos desejem ampliar seus estoques, o que leva ao aumento dos preços.

O segundo impacto, ainda em seu início, refere-se às sanções econômicas impostas sobre a Rússia pela Europa e EUA, com o objetivo de estrangular a economia russa, o que provavelmente deve ocorrer. O objetivo é fazer com que, em face de queda recorde de renda real e disparada da inflação, as lideranças russas revejam sua estratégia agressiva. Mas as sanções também possuem um efeito de feedback sobre os países que as impõem, dada a interdependência do comércio entre os países. Isso é claro no caso do petróleo e gás, especialmente na Europa, que depende de importações da Rússia.

No caso do Brasil, os efeitos mais visíveis da guerra ocorrem em três frentes. Primeiro, a elevação dos preços de commodities tende a tornar mais resistente a taxa de inflação. A expectativa de que seria possível reduzir a inflação dos 10,1% em 2021 para cerca da metade disso neste ano tornou-se irrealista. No momento, as projeções já estão na faixa dos 6,5% e tendem a aumentar, mesmo com a agressiva política de juro do Banco Central. Como sabemos, a eficácia do aperto monetário em face de uma inflação de custos é limitada, o que amplifica seu efeito negativo sobre a atividade econômica em geral. O efeito benéfico, se assim se pode chamar, é a manutenção de um enorme diferencial de juro entre o Brasil e os principais mercados e a atracão de capitais de curto prazo, com a consequente apreciação do real e a atenuação do impacto inflacionário vindo do exterior.

Segundo, podemos ter problemas de abastecimento de insumos importados ao longo do ano, além daqueles que decorreram da pandemia, como se tem destacado no caso de fertilizantes, semicondutores e outras matérias-primas industriais. O efeito disso é constranger a oferta doméstica e reduzir o espaço para o crescimento da economia. De fato, no momento a previsão para o PIB deste ano é de quase estabilidade, especialmente na indústria, talvez o setor mais afetado, já que o setor agropecuário tende a se beneficiar de preços internacionais mais elevados. Os indicadores do mês de janeiro, portanto antes da guerra, já foram bastante decepcionantes.

Terceiro, a estagnação da economia e as pressões por subsídios temporários sobre os bens mais afetados (petróleo e derivados, por exemplo) criam novas incertezas sobre o curso da política fiscal, especialmente em ano eleitoral. Apesar da garantia dada pelas autoridades federais de que o programa de consolidação fiscal não será afetado, temem-se novos déficits primários e nova expansão da já elevada proporção entre a dívida pública e o PIB.

Em resumo, o cenário relativamente favorável que se tinha para o desempenho brasileiro em 2022, com a volta à normalidade econômica pós-pandemia, foi abalado com as incertezas produzidas pela guerra em curso. O melhor cenário seria o fim rápido da guerra e a normalização dos mercados, porém não há neste momento indicações de que isso venha a ocorrer.


Celso Luiz Martone - diretor da área de Economia da Abinee

Janeiro de 2022 - Bons resultados fiscais em 2021


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Bons resultados fiscais em 2021

Pela primeira vez em sete anos, o setor público consolidado teve um pequeno superavit primário, assim como o menor déficit nominal, como vemos no Gráfico 1. É claro que o crescimento estimado em torno de 4,5% do PIB no ano passado, depois de anos seguidos de quase estagnação (e da recessão de 2020), ajudou a derrubar os números em proporção do PIB. Mesmo assim, o resultado foi bem mais favorável do que as projeções indicavam para o ano. No caso do Governo Central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social), a receita líquida subiu 31%, ao passo que a despesa caiu 17%. Esses percentuais exagerados em relação ao ano anterior se explicam pelo efeito das medidas adotadas durante a pandemia e não irão se repetir no corrente ano.

Da mesma maneira, a relação entre a dívida bruta e o PIB caiu mais de 8 pontos percentuais, contra a previsão do início do ano de que atingiria a casa dos 90% (vide Gráfico 2). Aqui também o crescimento do PIB e as taxas de juro reais negativas praticadas pelo Banco Central, que reduziu o serviço da dívida, favoreceram a queda. É claro que uma dívida bruta de 80% ainda é alta demais para um país emergente, com elevada instabilidade macroeconômica, como tem sido o Brasil, principalmente se considerarmos que, sem as reformas fiscais paradas no Congresso, provavelmente ela continuará subindo nos próximos anos.

O baixo desempenho da indústria

Em cartas anteriores, já destacamos o fato de o desempenho do setor industrial ter ficado bem abaixo da economia como um todo. Se tomarmos o período acumulado de 2013-2021 (8 anos), o PIB brasileiro caiu 1,8%, ao passo que o produto da indústria de transformação caiu 16%. A participação da indústria no PIB, portanto, continua sua trajetória de queda, iniciada na segunda metade dos anos 80. O Gráfico 3 mostra o IBC-Br e o produto industrial numa base mensal, onde as linhas tracejadas indicam as tendências das duas séries.

Em 2021, para um crescimento esperado do PIB da ordem de 4,4% (ainda não divulgado), a indústria cresceu 4,3%. Por setores de atividade, os bens de capital expandiram 28,3%, os bens intermediários 3,3%, os bens duráveis caíram 1,8% e os não duráveis ficaram estáveis. O crescimento elevado do setor de bens de capital decorre da expansão de 18% dos investimentos no ano passado. A indústria elétrica e eletrônica teve um desempenho bastante modesto em 2021, com crescimento de 1,4%. Esses números mostram que, a despeito da recuperação pós-pandemia, a demanda final dos consumidores continua quase estagnada, devido à corrosão inflacionária das rendas reais e à elevada taxa de desemprego, além da forte elevação do custo do crédito.

O cenário de baixo crescimento não deverá se alterar em 2022. O setor industrial deverá ter incremento da ordem de 1%, em linha com o crescimento esperado para o PIB. É possível que, com a queda esperada da inflação dos atuais 10% ao ano para 5,5%, haja uma recuperação parcial da renda real ao longo do ano, o que favorece o consumo. De outro lado, é provável que os investimentos continuem se recuperando. Esses fatores mais favoráveis podem gerar uma expansão maior no segundo semestre.


Celso Luiz Martone - diretor da área de Economia da Abinee

 

Análise de Conjuntura 2018


Informações Adicionais

Cristina Keller

Analista de Economia

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