Conjuntura Econômica

Análise econômica produzida pela Assessoria Econômica da Abinee, com base em informações da Sondagem Conjuntural realizada mensalmente pelo Departamento de Economia junto às empresas associadas e, também, nos aspectos econômicos do país.

Novembro de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Para um ano que iniciou com forte instabilidade nos mercados emergentes, mas que trazia uma aura de recuperação, principalmente das economias americana e europeia, seria imprudente afirmar que termina bem. Excetuando-se a gradual, mas firme, retomada americana, as demais economias oscilaram entre sinais de vigor e fragilidade como no caso da Zona do Euro, do Japão e da própria China, cujo crescimento não ultrapassará 7,5% este ano e tende a ser menor no próximo.

Organismos internacionais (FMI, Banco Mundial e OCDE), ao reverem o cenário econômico para 2014 e 2015, notaram o rápido enfraquecimento da atividade produtiva. Em suas projeções iniciais, o FMI previa expansão de 3,7% para o mundo e de 2,3% para o Brasil em 2014. Ao revisar as informações em outubro, o crescimento mundial foi reduzido para 3,3% e o brasileiro para mísero 0,3%. Para 2015, no caso da economia mundial, as projeções do Fundo passaram de 3,9% para 3,8% e para a economia brasileira de 2,8% para 1,4%. Cabe alertar que o avanço em 2015 pode ser ainda menor, por conta de fatores que se manifestaram com mais força no segundo semestre deste ano, como a forte queda do preço do barril de petróleo e das commodities agrícolas e minerais, a estagnação da economia japonesa, o enfraquecimento da atividade nos países europeus, em especial Alemanha e França, o possível colapso da Rússia, a intensificação da crise argentina e venezuelana e o fim da permissiva política monetária americana (Quantitative Easing), que será acompanhada pelo aumento da taxa básica de juros no próximo ano.

O próximo ano vai inaugurar um período de expressivos ajustes. Esse processo afetará os diversos blocos econômicos, inclusive o próprio EUA, pela via da política monetária. Em nosso caso, a ação precisa ser rápida e exemplar para evitar o rebaixamento da nota de grau de investimento. Por um lado, com uma base de apoio fragmentada, o quórum qualificado e a complexidade que envolve a tramitação congressual tornam inexequível a aprovação das reformas que o País tanto necessita no próximo ano. Por outro, dada a urgência na correção dos desequilíbrios macroeconômicos, a política econômica dos próximos 2 (dois) anos estará marcada por um retorno à ortodoxia. Com uma inflação beirando o teto da meta, conviver-se-á com um severo ajuste fiscal (corte, redução de despesas e aumento de receitas da ordem de R$ 100 bilhões em 2015), aumento da taxa básica de juros, desvalorização mais intensa do Real, realinhamento das tarifas públicas e, consequentemente, ligeira melhora do déficit em transações correntes – queda de 3,7% para 3,5% do PIB em 2015 –, redução real dos salários (e dos salários medidos em dólar) e aumento da taxa de desemprego,

Seria ilusório, no entanto, imaginar que o maior compromisso com o equilíbrio fiscal, por si só, poderá mudar rapidamente o comportamento da economia e das expectativas. Deve-se frisar que as circunstâncias internas e externas são hoje bem mais difíceis do que aquelas que marcaram períodos anteriores de ajustes.

A recuperação da credibilidade/confiança dos agentes é decisiva para que retornem as apostas no País. Todavia, há uma questão que ainda não foi completamente digerida. Considerando-se que o temor dos agentes se acentuou com a reeleição da presidente, expresso no “derretimento” do Índice Bovespa e na “explosão” da taxa de câmbio (gráficos abaixo), como confiar na autonomia da futura equipe econômica, conhecendo-se o estilo da presidente? Por certo, não se põe em dúvida a capacidade dos escolhidos, mas sim a capacidade de atuarem livremente para definir os rumos da “velha” matriz econômica.

Evolução

Para a indústria de transformação, o contexto de austeridade fiscal e monetária traz riscos e oportunidades. Não se descarta a possibilidade de recessão no próximo ano, a depender do grau de severidade do ajuste e do “esticão” na taxa básica de juros, necessários para recolocar a economia em trajetória de reequilíbrio (a taxa Selic avançará para um patamar nominal próximo ou superior a 12,5% em 2015, com perspectiva de juro real entre 6,5% e 7,5% a.a). Por outro lado, uma desvalorização mais forte, advinda das complicações externas, provoca a redução dos salários medidos em dólar, ampliando a competitividade das empresas.

Há, no entanto, duas observações a serem feitas aqui. Primeiro, atividades “ancoradas” na aquisição de insumos importados devem se beneficiar menos do estímulo competitivo. Considerando-se que o coeficiente de importações da indústria de transformação acelerou nos últimos anos (gráfico) muito acima do coeficiente de exportações, é preciso analisar com cuidado os impactos que esse novo contexto trará.

Evolução

Em segundo lugar, o processo de desindustrialização lançou a indústria de transformação em uma crise estrutural que tomará largo período para ser superada. A lenta capacidade de resposta da indústria à desvalorização cambial recente é uma das expressões dessa crise. Abaixo, o gráfico mostra que o melhor desempenho da taxa de câmbio efetiva real, ainda que em ritmo menor no caso da indústria de transformação, não foi acompanhado por um aumento consistente das exportações de manufaturados. Ao contrário, a variação acumulada em 12 meses mostrou recuo em meses recentes, exibindo a fragilidade do parque industrial brasileiro.

Outra maneira de se enxergar a crise da indústria de transformação consiste na larga distância entre os desempenhos da produção física da indústria e o comportamento do volume de vendas do comércio varejista (gráfico). A distância entre ambos está ocupada pelas importações.

Evolução

O ano de 2015 será bem difícil. Sabemos que essa afirmação já se tornou lugar comum, mas o alerta é sempre válido. Ao concluirmos nossa análise, julgamos importante listar o conjunto de ameaças externas e internas que poderão afetar o desempenho da nossa economia, levando-a a trilhar um percurso entre recessão e baixíssimo crescimento.

Ameaças externas:
- Encaminhamento da Zona do Euro para um quadro de deflação e baixo crescimento;

- Agravamento da crise na Rússia (com recessão), caso o preço do barril de petróleo persista em nível próximo ou abaixo de cinquenta dólares. Em caráter emergencial, buscando evitar maior desvalorização do rublo, que depreciou cerca de 10% em um único dia, o banco central elevou recentemente a taxa básica de juros dos 10,5 pontos percentuais anuais para 17% ao ano;

- Estagnação da economia japonesa, dada a baixa eficácia da política de estímulos monetários (“Abenomics”) promovida pelo primeiro ministro;

- Limitações para a atuação do Banco Central americano (FED), preso em sua própria armadilha de juros a 0%, agravada pela alavancagem do balanço da instituição. Atualmente não há casamento entre passivo e ativo: US$ 4,3 trilhões de passivo e US$ 56,2 bilhões de ativos. Alavancagem 77 para 1 ( hipoteticamente, o FED está insolvente);

- Alteração no modelo de crescimento chinês, com menor dependência do vetor externo e maior ênfase para o desenvolvimento do mercado interno.

Ameaças internas:
- Incapacidade, por diferentes motivos, de recuperar a confiança na economia brasileira;

- Baixo crescimento da economia (pibinho), inibindo os investimentos domésticos, sobretudo em infraestrutura, com reação negativa dos investidores estrangeiros;

- Manutenção da inflação em patamar elevado, próximo ou acima do teto da meta;

- Elevados déficits gêmeos: déficit fiscal e em transações correntes ao redor de 4,0% do PIB;

- Atraso na reorganização dos canais de comercialização no exterior, o que impediria um ritmo mais forte de crescimento das exportações de manufaturados, apesar do câmbio favorável;

- Enfraquecimento do mercado de trabalho, com aumento do desemprego e ritmo menor de crescimento da massa salarial Os reajustes em 2015 tendem a se alinhar ao crescimento da produtividade, reduzindo o espaço para o aumento do rendimento médio real e do crédito, e, consequentemente, do consumo interno.

Outubro de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

A volatilidade marcou os meses de setembro e outubro no calor da peleja eleitoral, com repercussões que se estenderam para o mês de novembro. Intensificaram-se as variações diárias do câmbio (R$/US$) no período, preservada a firme tendência de valorização da moeda americana frente ao Real, que oscilou de R$/US$ 2,23 no início de setembro para a faixa de R$/US$ 2,60 a partir de 14 de novembro (ver gráfico abaixo).

Em outubro, apesar das fortes oscilações diárias, o índice Bovespa encerrou com valorização de 0,95%. No confronto de fim de período, o Real cravou desvalorização de 0,80%, com sensíveis oscilações intra e entre pregões. Os juros no mercado futuro também mostraram forte volatilidade, principalmente após a surpresa preparada pelo Copom, que elevou a taxa Selic para 11,25%, sem qualquer indicação anterior, mas trilhando um caminho que busca recuperar a credibilidade arranhada pelos atritos da campanha eleitoral.

Evolução

Portanto, oscilações do dólar em faixa superior a R$ 2,50 no curto prazo se mostram factíveis até que haja definição dos membros da nova equipe econômica, sobretudo do futuro Ministro da Fazenda. Além disso, aguarda-se para 2015 alterações na direção da política monetária americana, com possível elevação da taxa básica de juros, o que poderá afetar novamente a cotação da moeda americana.

Em uma perspectiva temporal mais abrangente, nota-se que a depreciação nominal da moeda brasileira, que alcançou 36,8% entre janeiro de 2012 e outubro de 2014 (ver gráficos), não produziu efeitos significativos para a performance das exportações, sobretudo de manufaturados. As dificuldades geradas pela crise internacional, somadas à precariedade da infraestrutura local e os elevados custos internos têm impedido o avanço consistente das exportações, em que pese os esforços do governo (renovação do REINTEGRA, entre outras ações) e das empresas sediadas no país.

Evolução

Superada a disputa eleitoral, a agenda econômica tem enfatizado a escalada dos problemas que devem ser superados para que seja possível recolocar a economia em uma rota de crescimento.

Entre os problemas imediatos, é possível listar:

- O necessário combate à inflação a fim de recolocá-la em trajetória convergente à meta (4,5%), dado que este ano ela se manterá próxima à meta ou deverá superá-la. Preocupa o fato de que o combate se fará mediante prévia exigência de recomposição de algumas tarifas – transporte urbano, que acumula defasagem em torno de 16%; energia, com novos reajustes para compensar a fragilidade financeira das concessionárias de distribuição e combustível, cuja defasagem em relação ao preço internacional foi reduzida, mas não totalmente eliminada;

- O equilíbrio para a retomada do investimento privado que convive em ambiente de baixa confiança; taxa real de juros em 4,5% este ano e, com provável elevação para 5,6% em 2015, face à perspectiva de elevação da taxa básica; além dos problemas de natureza jurídica e regulatória;

- Recuperação das contas públicas, o que exigirá severa redução do gasto e ampliação do superávit primário, prevendo-se a necessidade de um ajuste que poderá representar uma economia da ordem de 3 a 4 pontos do PIB. Como fatores que podem complicar o processo de ajuste fiscal, encontram-se o baixo crescimento da receita esperada, dada a fraqueza da atividade econômica ainda em 2015, a recente alteração nas regras de endividamento de Estado e municípios, com mudança do indexador das dívidas, o que abriu espaço para que governadores e prefeitos se endividem mais para atender novos investimentos e o próprio aumento da taxa de juros que exigirá maior economia para honrar os encargos da dívida pública federal;

- Em um contexto marcado por maior ortodoxia, a definição de uma nova estratégia (leia-se política industrial), a fim de impulsionar a produção industrial, impedir a crescente desindustrialização e ampliar as exportações de manufaturados. O traço comum que definirá esses objetivos consiste em aumentos da produtividade, com repercussões diretas para a competitividade das empresas;

- Limitação ao papel dos bancos públicos. Haverá necessidade de redução gradual de subsídios e repasses do Tesouro para bancos públicos por exigência da própria crise fiscal. No entanto, a situação é muito mais complicada do que parece. Primeiro, se o aumento da TJLP afetar os contratos passados, quase todas as concessões recentes terão que ser renegociadas. Segundo, se o aumento da TJLP afetar apenas o futuro, o impacto na redução do custo de juros para o Tesouro será menor do que se afetasse o passado. Terceiro, uma definição gradualista para redução dos repasses do Tesouro mostra-se incompatível com o calendário imposto pela crise fiscal.

Portanto, as prerrogativas internas vão sedimentar a agenda econômica dos próximos anos. Em um momento de relativa melhora do quadro internacional, conciliar o ajuste interno com as oportunidades que vão surgir lá fora pode, em parte, ajudar na superação dos problemas. O foco central residirá nas escolhas feitas pela nova equipe econômica, de modo a permitir que crescimento do país se sirva dessas oportunidades.

Setembro de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Não se justifica o otimismo com a economia identificado por recente pesquisa do Datafolha, publicada na Folha de S. Paulo, no dia 22 de outubro. Se os economistas de organizações internacionais, bancos e indústria, acadêmicos notáveis e analistas de mercado estiverem errados em suas análises de curto e médio prazo para a economia brasileira, honestamente, precisamos parar e revisar tudo: da teoria econômica ao senso prático que guia as investigações econômicas.

No momento em que o FMI revisou para baixo as projeções da economia mundial, reduziu o crescimento brasileiro (0,3%) para este ano e projetou expansão de míseros 1,3% para 2015, mostra-se antagônica (para não falar estranha) à percepção demonstrada.

O cenário mundial permanece tenso, embora venha firmando uma separação muito clara. De um lado, o contínuo avanço da economia americana, cujo crescimento no segundo trimestre foi de 4,6% em relação a igual período do ano anterior, compensando, com relativa folga, a queda de 2,1% do primeiro trimestre do ano. Para além dessa informação, os indicadores mais recentes continuam mostrando recuperação. Tanto a produção industrial quanto as vendas do varejo permanecem em expansão. A taxa de desemprego atingiu 5,9% em agosto último – menor patamar desde o início da crise de 2008. Frente a essas condições, há uma convergência das estimativas de crescimento para a economia americana que deverá alcançar 2,2% neste ano e 2,8% em 2015.

De outro lado, encontramos a Europa, em particular os países da Zona do Euro, envolta em dificuldades de liquidez, reforma do sistema bancário, baixo nível de confiança, taxa de investimento em queda e entraves para superar as taxas de desemprego acima de dois dígitos. Entre agosto e setembro, a queda das exportações (-5,8%) e da produção industrial (-4,0%) na Alemanha trouxeram novas preocupações para as perspectivas da região, afinal se trata da economia mais desenvolvida e dinâmica do continente. Segundo o FMI, o crescimento da Zona do Euro ficará em 1,3% em 2015, levemente superior ao 0,8% projetado para 2014.

Por conta das ameaças de estagnação e deflação, o Banco Central Europeu anunciou em setembro um programa de compra de dívidas privadas para estimular o crédito e estancar os sinais de estagnação da economia. O foco são as compras de bônus cobertos e títulos lastreados em ativos que deverão injetar até € 1 trilhão, durante dois anos, na economia da região.

E a China continua no terreno da incógnita. O crescimento de 7,3% no terceiro trimestre deste ano reabriu o debate sobre as possibilidades de um pouso suave (soft landing) ou mais abrupto do “dragão asiático”. O resultado foi o mais fraco desde o início de 2009, quando a taxa de crescimento caiu para 6,6% por causa da crise das hipotecas subprimes. De qualquer modo, as perspectivas para o crescimento chinês se encontram ameaçadas pela expectativa de alta da taxa básica de juros nos EUA (Fed Funds), intensificação dos conflitos políticos em várias partes do mundo, que tendem a frear o comércio exterior, e a transição para um modelo mais voltado à demanda interna e menos às exportações.

No campo doméstico, é visível a fragmentação do quadro econômico. Abaixo listamos uma série de indicadores e estatísticas que corroboram este fato:

- Com a divulgação do PIB do segundo trimestre, o Brasil entrou em recessão técnica, apresentando dois trimestres seguidos de queda do produto. Não há como crescer mais do que 0,5% este ano.

- Em setembro, a inflação (IPCA) acumulada em 12 meses atingiu 6,75%, superando o teto da meta. São remotas as possibilidades de um recuo para um limite próximo ao centro da meta, por causa do atual arranjo de política econômica;

- O saldo líquido de contratações, informado pelo CAGED, foi de 123,7 mil em setembro. O pior resultado desde 2001 para os meses de setembro;

- A balança comercial registrou déficit de US$ 939 milhões em setembro, sendo o pior resultado para este mês desde 1998. Não há quem arrisque superávit comercial acima de US$ 2,0 bilhões para este ano;

- De acordo com a Serasa Experian, a demanda dos consumidores por crédito caiu 1,6% em setembro, na comparação com agosto, e elevou 10,4% ante o mesmo período do ano passado. No ano, todavia, a procura tem queda de 3,6%.

- Embora tenha apresentado queda de 4% entre agosto e setembro, a inadimplência do consumidor aumentou 1,3% na comparação com setembro de 2013, de acordo com a Boa Vista SCPC. No acumulado do ano, a inadimplência apresentou alta de 2,4%, enquanto no mesmo período de 2013 havia queda de 0,9%.

- O Índice de Confiança da Indústria (ICI), calculado pela FGV, recuou 2,8% em setembro sobre agosto, marcando a nona queda seguida e passando ao menor patamar desde março de 2009;

- O Índice de Confiança do Setor de Serviços (ICS) da FGV caiu 3,2% em setembro. A deterioração do sentimento atingiu 10 dos 12 segmentos pesquisados pela instituição.

Em um contexto recessivo, chama também a atenção o fato de que a expansão das vendas do comércio varejista, em virtude da desaceleração do crédito e da piora na confiança dos consumidores, está mostrando comportamento declinante e próximo à tendência apresentada pela produção da indústria (ver gráfico).

Em outras palavras, a propalada “boca de jacaré” (ritmo da produção industrial inferior ao das vendas do comércio), que foi a marca do período de forte expansão do crédito e valorização do câmbio está desaparecendo. Menos por causa da desvalorização e mais pela fraqueza da atividade econômica.

Confiança do Empresário

Agosto de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Ainda sob o efeito do desastroso resultado do PIB do segundo trimestre, que confirmou a recessão técnica em que se encontra a economia brasileira, foram divulgados alguns indicadores em agosto que sugerem uma discreta melhora do quadro econômico.

O Índice de Gerência de Compras (PMI) da Indústria de Transformação Global apresentou leve avanço em agosto ao passar de 52,4 para 52,6 pontos, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Markit & J.P.Morgan. De acordo com a publicação, a saída de produtos e novas encomendas permaneceram no mesmo patamar de julho, todavia, houve avanço em novos pedidos de exportação e no nível de emprego, o que sugere discreta recuperação da indústria mundial. O custo de produção também mostrou recuo na passagem de julho pra agosto. Os maiores pedidos de exportação se devem à maior demanda dos EUA e do Japão, enquanto que a região da Zona do Euro ainda patina. Entre os países emergentes, mostra-se corte de empregos nas indústrias, com destaque para China e Brasil.

Em linha com as projeções do PMI, encontram-se os resultados do comércio exterior. Embora tenha sido o pior resultado para os meses de agosto desde 2001, a balança comercial encerrou o último mês com superávit de US$ 1,2 bilhão. O resultado reflete o aumento das exportações (alta de 0,1% em relação à média de dias úteis de agosto de 2013, totalizando US$ 20,5 bilhões), bem como a alta das importações (que somaram US$ 19,3 bilhões, crescimento de 0,1% em relação à média diária de igual mês do ano anterior). Frente a julho deste ano, houve elevação das exportações de manufaturados (3,8%), a despeito da contabilização positiva da entrega de plataforma de petróleo no valor de US$ 1,1 bilhão. Sem uma reação mais forte dos emergentes e com um quadro de estagnação na Zona do Euro, as vendas externas dos produtos básicos (-3,3%) e semimanufaturados (-1,8%) recuaram. Do lado das importações, a recessão doméstica impôs um freio maior à demanda por bens de consumo (-8,2%), bens de capital (-7,3%) e matérias-primas e intermediários (-1,1%)

Outra sinalização favorável foi o resultado para emprego, apresentado pelo CAGED, com geração líquida de 101,4 (em julho havia sido de apenas 11,4 mil). Nesse cômputo, a indústria se manteve distante. Embora tenha reduzido o volume de demissões, o saldo líquido (contratações – desligamentos) ainda foi negativo. Foram fechadas 4.111 vagas na indústria frente às 45.000 do mês anterior. De todo modo, esse resultado comprova que a crise econômica atual é uma crise eminentemente da indústria de transformação do País.

Além disso, o índice ABCR, que quantifica o fluxo de veículos em pedágios, aumentou 4,7% em agosto perante o mês anterior. Essa variação significa um avanço considerável, tendo em vista que havia sofrido retração de 2,3% em julho. A variação interanual, comparação de agosto com igual mês no ano anterior, manteve crescimento de 1,9%. Na composição do índice existe, no entanto, um sinal negativo. O tráfego de veículos pesados, principalmente caminhões, sofreu contração de 0,5% em comparação ao mês anterior, quando havia crescido 3,2%, A variação interanual permanece negativa em -5,4%, corroborando a hipótese de menor movimentação de cargas nas estradas do País, fruto da recessão em que se encontra.

Foi divulgado também o índice ABPO, o qual pode ser considerado, em conjunto com o da ABCR, um indicador antecedente de grande relevância em se tratando da produção industrial. O índice evoluiu, livre das influências sazonais, 1,1% em agosto, o que simboliza uma desaceleração no crescimento quando comparado ao mês de julho, em que avançou 4,3%. A variação interanual apresentou modesta recuperação, pois atingiu 3,1% em relação a agosto de 2013, superando o resultado de julho (+2,0%).

As informações disponíveis indicam um provável crescimento da produção industrial em agosto, reproduzindo expansão da indústria pelo segundo mês consecutivo, dado que em julho a produção avançou 1,5% na comparação interanual. Isto não traduz, no entanto, a existência de um cenário favorável para este ou mesmo para o próximo ano. No caso do setor eletroeletrônico, a Sondagem Conjuntural mostrou resultados tímidos no mês de agosto, quando havia expectativa de recuperação. Frágil avanço da produção parece ser a marca que acompanhará o setor até o fim do ano, observando-se discreto avanço sazonal em virtude das encomendas de fim de ano.

Independentemente de quem vença as eleições, a tarefa primordial para que a recuperação se consolide dependerá da reconquista da confiança do empresariado. De acordo com levantamento da CNI, a confiança do empresário industrial nunca esteve tão baixa, o que impacta, logicamente, as decisões de produção e investimento.

Confiança do Empresário

Julho de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Definitivamente o Brasil parou nos meses de junho e julho e não deverá apresentar resultados auspiciosos nos próximos meses. Para além do efeito Copa do Mundo e do calendário eleitoral, as razões que produziram esse freio na economia, atingindo vários setores, sobretudo a indústria, estão relacionadas aos equívocos da política econômica, ao exacerbado intervencionismo governamental e, at last but not least, à lenta recuperação internacional. A resultante desse conjunto de forças antagônicas é uma crise de confiança sem precedentes.

O desânimo e o pessimismo em relação aos rumos da economia e da política do país ficaram mais evidentes neste ano em relação ao mesmo levantamento feito em 2013. Tamanha verdade está retratada nas perspectivas do investimento para o ano. Analistas apontam que o péssimo desempenho da atividade no segundo trimestre do ano será acompanhado por uma queda acentuada dos investimentos, o que comprometerá o restante desse ano e o próximo. Estimativas apontam que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), após ter recuado 2,1% no primeiro trimestre, deverá apresentar queda de 3% a 5% no segundo. Em outras palavras, para o investimento o ano está perdido.

Nesse contexto a tese da estagflação vem ganhando força. Os indicadores e estatísticas mais recentes da atividade econômica no País, como o recuo da produção industrial nos últimos quatro meses até junho, têm estimulado o debate sobre a instalação (ou não) de um processo em que se vivencia persistente aumento (ou manutenção em patamar elevado) do nível geral de preços com baixo crescimento da economia.

Para o entendimento da tese é necessário reconhecer a existência de duas dinâmicas distintas na economia brasileira. De um lado, verifica-se a supressão de fatores que estimulariam o crescimento da produção industrial, marcada pela desenfreada concorrência com os bens importados. De outro, convive-se com um persistente avanço dos setores non-tradables (não exportadores), basicamente os serviços, que têm sustentado o bom desempenho do mercado de trabalho e do nível de renda das famílias. É possível cogitar a hipótese de que, enquanto o agronegócio, e principalmente o setor de serviços, tiverem força para “segurar” o mercado de trabalho, a economia brasileira manterá certa letargia em seu crescimento, com baixa taxa de desemprego e modesto avanço do consumo das famílias.

Do lado da indústria, explica-se a estagnação pelo fato dela não estar tendo acesso à demanda doméstica, uma vez que tal acesso depende da sua competitividade, a qual vem sendo corroída sistematicamente pelo crescimento dos salários acima da produtividade do trabalho e pela apreciação da taxa de câmbio real. A relação custo unitário do trabalho/taxa real efetiva de câmbio aumentou nada menos do que 60% entre dezembro de 2001 e dezembro de 2011. Disso decorre o fenômeno da substituição da produção doméstica por importações, que se expressa na brutal elevação do coeficiente de importações, que passou de 10%, em 2003, para 21%, em 2012.

O problema, que começa a ser percebido, é que o fraco dinamismo da indústria e dos investimentos tende a afetar os setores mais ativos da economia. A tese da estagflação, portanto, fundamenta-se também na possibilidade da contaminação dos setores dinâmicos (leia-se serviços e agronegócio) por esse estado de reduzida confiança. Assim, a possibilidade dessa situação se arrastar por um tempo maior ou menor dependerá da capacidade da autoridade monetária promover a redução da inflação, convergindo-a para o centro da meta, e destravar os canais do crédito.

Interpretando o momento atual apenas como um problema de “empoçamento da liquidez” - para usar um jargão do economês -, ou seja, um quadro de maior insegurança em que as instituições financeiras estão sendo mais seletivas e vem retraindo a oferta de crédito, o governo tem procurado de várias formas acelerar a expansão do crédito. Em final de julho, em uma primeira rodada, e, posteriormente, em meados de agosto, a autoridade monetária alterou regras do sistema financeiro para incentivar o crédito consignado, o financiamento de veículos e o crédito imobiliário.

O novo conjunto de medidas incluiu a liberação adicional de R$ 10 bilhões em depósitos compulsórios para os bancos aplicarem em crédito e um alívio de R$ 15 bilhões nas exigências de capital, a fim de incentivar a expansão dos financiamentos. Contempla também mudanças que visam facilitar a execução de garantias, desburocratizar o processo de concessão de créditos e ampliar as possibilidades de captação de novos recursos.

Se as alterações vão funcionar só o tempo dirá, mas com toda certeza serão insuficientes para levar a economia brasileira de volta ao nível próximo ao produto potencial, ou seja, uma taxa de crescimento anual entre 3% e 4%.

Enquanto não houver clareza sobre o que nos aguarda no horizonte - e isto somente se resolverá após as eleições - não há porque clamar pelo “animal spirit” (espírito animal) dos empresários. Sem uma orientação segura acerca do futuro, é piada de mau gosto ou falta de compreensão da realidade acusar o setor empresarial de pessimista ou impatriótico.

Junho de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Marcado pelo evento da Copa do Mundo e, portanto, com menor número de dias úteis, o mês de junho trouxe uma forte deterioração nas expectativas de crescimento do PIB e da produção industrial. No início do mês, a mediana das expectativas para o PIB, compiladas pelo Relatório Focus, sinalizava para crescimento de 1,4% neste ano e de 1,8% em 2015. No decorrer do mês, as expectativas foram ruindo e as taxas de crescimento esperadas recuaram, respectivamente, para 1,1% e 1,5% nos anos em tela.

Como o quadro só fez se agravar a partir daí, não se observando mais quaisquer perspectivas de reversão da queda por parte do mercado, é legítimo afirmar que junho marca uma inflexão negativa para o cenário da economia brasileira neste e no próximo ano. Embora exista a perspectiva de que o PIB cresça mais em 2015 do que neste ano, o fato é que os ajustes necessários (ajuste dos gastos públicos, correção dos preços administrados, ação para a convergência da inflação para o centro da meta, dentre outros), previstos para acontecer no próximo ano, podem ocasionar dois anos consecutivos de estagnação (considerando-se um crescimento do PIB abaixo de um por cento).

A crise de confiança que assola o ambiente de negócios no País está bem ilustrada na evolução das expectativas para a produção industrial. No decorrer do mês de junho, a mediana das previsões recuou de 0,96% para -0,14% (a última edição do Focus traz retração de 1,15% para este ano). Pela primeira vez, o olhar para a indústria a colocou em uma zona de recessão, o que tende a agravar o processo de desindustrialização no país. Para 2015, as previsões ainda sustentam crescimento de 1,7%, a despeito de tudo o que nos espera. De todo modo, o avanço esperado é bem inferior aos 3,0% que se imaginava nas previsões feitas em janeiro deste ano.

De olho no processo eleitoral e na tentativa de melhorar o relacionamento com a classe empresarial, a Presidenta da República anunciou em 18/06 um conjunto de medidas de política industrial para atender à indústria de transformação, que enfrenta sérias dificuldades desde o início do seu governo.

São objetivos do chamado "Pacote de Bondades”": fortalecer a indústria, estimular aumentos de produtividade e da competitividade, promover a inovação e a modernização, aumentar a inserção externa e assegurar emprego e renda para os trabalhadores da indústria.

As proposições estão divididas entre medidas tributárias, financeiras e creditícias e outras, que se encontram organizadas no quadro abaixo.

Medidas Tributárias, Financeiras e Creditícias e Outras

Medidas tributárias:

Desoneração permanente da folha de pagamentos: o governo anunciou que a desoneração da folha para os 56 segmentos já beneficiados (indústria, comércio e serviços) será permanente a partir de 2015. A renúncia estimada é de R$ 23,4 bilhões;

Reintegra permanente: o Reintegra é um regime especial que vigeu em 2012 e 2013 e devolve parcela dos tributos cobrados sobre as exportações. O regime passa a ser permanente, com alíquotas entre 0,1% e 3% (a ser fixada a cada ano). Para 2014, a alíquota fixada é de 0,3%.

Desonerações tributárias permanentes: 1º) As alíquotas do IPI para material de construção e bens de capital (máquinas e equipamentos, caminhões e ônibus) foram mantidas em zero; 2º) Mantidos os regimes tributários especiais.

Refis remodelado: o Refis da Crise foi modificado, reduzindo-se o percentual da entrada para 5% no caso das dívidas até R$ 1,0 milhão;

Medidas financeiras e creditícias:

PSI-BNDES 2015: o PSI foi prorrogado até o final de 2015;

PSI-Leasing: financiamento para a aquisição de máquinas e equipamentos novos de fabricação nacional, para operações de arrendamento mercantil;

Incentivos para abertura de capital de empresas de porte médio: foi estabelecida a isenção do IR (alíquota atual de 15%) sobre ganho de capital com duração até 2023;

Debentures de infraestrutura: o governo decidiu prorrogar os incentivos tributários (alíquota zero sobre os ganhos de capital) para a emissão de debêntures de infraestrutura para 31/12/2020. Planeja-se incluir projetos de infraestrutura na área de educação, saúde, hídrica e irrigação e ambiental.

Outras medidas:

Compras governamentais: o governo anunciou a fixação de alíquotas de 25%, até 2020, para as margens de preferência aplicadas aos setores produtivos;

Conteúdo local: maior rigor do BNDES / maior rigor na indústria de gás e petróleo / maior rigor nos fundos constitucionais;

Pronatec 2: será feita a expansão e modernização das redes de educação profissional para o período 2015-2018;

Lei da Biodiversidade: promover o desenvolvimento de novas tecnologias e produtos em diversos setores (farmacêutica, química fina, higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, biotecnologia, produtos de limpeza e insumos agrícolas e pecuários).

Programa “Brasil sem Burocracia”: o programa pretende simplificar e reduzir as exigências e informatizar os procedimentos tributários.

Maio de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Os ânimos estão mais frios, o que é percebido na Sondagem da ABINEE deste mês de maio. A repercussão de dois importantes indicadores econômicos abalou a fragilizada expectativa de melhora da economia para este ano, com prováveis efeitos para 2015.

O primeiro foi o “magérrimo” resultado do PIB (+ 0,2%) no primeiro trimestre do ano. A queda do consumo das famílias e do investimento revelou que a expansão do mercado interno – motor do crescimento da economia nos últimos anos - dá claros sinais de esgotamento. Por seu turno, a contribuição das exportações para o PIB permanece negativa, em razão da ligeira (re)valorização do moeda doméstica no período e do fraco dinamismo das nações desenvolvidas, em especial Estados Unidos e Zona do Euro, e demais emergentes.

Ao abrir o segundo trimestre em queda, a produção industrial de abril acrescentou novas ameaças ao desempenho econômico de 2014. Houve retração de 0,3% na passagem de março para abril e de 5,8% em comparação a abril de 2013 (Para informações detalhadas sobre o resultado da produção industrial em abril, sugerimos análise e tabela apresentadas na Sondagem).

Em época de safra de estatísticas de PIB, trouxe algum incômodo o fraco desempenho da economia americana e da Zona do Euro. Prejudicado pelas fortes geadas do início do ano, o crescimento americano derrapou. O PIB dos EUA mostrou recuo de 2,9% no primeiro trimestre deste ano na taxa anualizada (dado revisado), em comparação ao trimestre anterior. O resultado não agradou ao mercado, que esperava retração de apenas 0,5%, em uma primeira leitura, e de 1,7% com a revisão.

Contribuíram para uma queda mais forte: as exportações de bens e serviços (-6,0% no primeiro trimestre de 2014 perante avanço de 9,5% no último de 2013); a formação de estoques (-1,6%); o investimento em formação bruta de capital fixo (-1,6% no primeiro trimestre em comparação ao avanço de 5,7% no último de 2013) e o investimento em residências (-5,0% frente a recuo de 7,9% no trimestre imediatamente anterior).

No caso da Zona do Euro, o PIB da região cresceu 0,2% no primeiro trimestre, implicando em um resultado inferior ao esperado, apesar da recuperação da Alemanha (crescimento de 0,8% no período) ter ajudado a compensar a queda na maior parte dos países do bloco.

A imediata reação do Banco Central Europeu (BCE) ao baixo crescimento e à ameaça de deflação foi o anúncio de um pacote de medidas que incluiu o uso de taxa de juros reais negativas. Para alavancar o crédito e estimular os gastos na região, o BCE promoveu a redução da taxa básica de juros de 0,25% para 0,15% ao ano, a diminuição da taxa marginal de empréstimos de 0,75% para 0,40% e a redução da taxa de depósito, paga pelo BCE aos bancos comerciais nos recolhimentos compulsórios.

Na China, os números têm sido desfavoráveis para a produção industrial e exportações. Para impedir uma desaceleração mais aguda da economia e assegurar a meta de crescimento de 7,5% em 2014, o governo chinês tem editado sucessivas medidas de estímulo. Em abril, lançou um pacote de mini-estímulos, com investimentos em ferrovias, casas populares e redução de impostos para pequenas empresas. Em maio, reduziu o compulsório dos bancos rurais e pequenas instituições financeiras em meio ponto percentual, para que possam suprir a necessidade de crédito das pequenas e médias empresas. Concomitantemente, o Banco Central da China continua despejando recursos no mercado interbancário para garantir liquidez e reduzir o custo de captação de grandes bancos.

Com os resultados do primeiro trimestre, instituições financeiras, consultorias privadas e entidades de classe refizeram as suas projeções econômicas para 2014 e 2015. Nos quadros abaixo, selecionamos algumas destas projeções, destacando-se que:

Desidratou a perspectiva de crescimento da economia brasileira acima de 2,0% para este ano. O mais provável é que a economia brasileira cresça entre 0,8% e 1,2%. Para 2015, as perspectivas são melhores, mas não representam um crescimento robusto;

A indústria amargará mais um péssimo ano, com firmes apostas de que sofrerá retração em 2014. Logo, o desemprego no setor continuará avançando e os investimentos aguardarão fase mais promissora. Isto talvez ocorra em 2015, desde que as previsões correntes não se agravem a ponto de influenciar negativamente as decisões para o próximo ano;

Não há previsão econômica que sinalize para o retorno da inflação ao centro da meta. Em 2014 e 2015, a taxa de inflação permanecerá encostada no teto superior da meta, forçando a manutenção da Taxa Selic em 11% a.a. até o final de 2014 e forte tendência de elevação em um ponto percentual ou um ponto e meio percentual no próximo ano;

Com a inflação pressionando, torna-se impraticável uma desvalorização mais forte. Para enfrentar essa situação, o Banco Central declarou que manterá a política de compra e venda de “swaps cambiais” até o final do ano. Nesse contexto, a taxa média de câmbio deverá ficar próxima a R$/US$ 2,30 e R$/US$ 2,45, respectivamente, para 2014 e 2015.

Abril de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

A economia internacional prossegue em sentido de gradual melhora. Em abril, os indicadores da produção industrial e das vendas no varejo tanto na Zona do Euro como nos Estados Unidos continuaram dando sinais de recuperação. Encerrado o primeiro quadrimestre, não restam muitas dúvidas sobre a possibilidade dos EUA crescerem mais de 2,0% este ano e da Zona do Euro ao redor de 1,0%.

Infelizmente, esse quadro de modesta expansão, atrelada à desvalorização média do Real, não vem se refletindo positivamente na balança comercial do País. A perda de competitividade das nossas exportações, principalmente de manufaturados, é gritante. Em abril, pela média diária, as exportações totalizaram US$ 19,7 bilhões, com incremento de 5,2% sobre abril de 2013 e de 6,3% em relação a março de 2014. Por sua vez, as importações somaram US$ 19,2 bilhões. Sobre igual período do ano anterior, as importações registraram queda de 2,2%, e crescimento de 4,2% sobre março de 2014. Desse modo, o saldo comercial ficou positivo em apenas US$ 506 milhões, praticamente não oferecendo qualquer contribuição para reverter o déficit de US$ 5,6 bilhões acumulado nos quatro primeiros meses do ano.

No mês passado, as exportações de produtos básicos (US$ 10,6 bilhões) registraram valor recorde para meses de abril; enquanto os semimanufaturados e manufaturados alcançaram valores de US$ 2,1 bilhões e US$ 6,5 bilhões, respectivamente. Em comparação ao ano de 2013, cresceram as exportações de básicos (+11,4%), por outro lado, retrocederam as vendas de semimanufaturados (-4,0%) e manufaturados (-1,8%). É o reforço da “primarização” da pauta de exportação.

A insuficiência do canal externo e dos investimentos e o relativo esgotamento do vetor consumo reforçam as perspectivas desfavoráveis para o crescimento brasileiro este ano. O IBC-Br, proxy mensal do PIB calculado pelo Banco Central, refletindo a estagnação da produção industrial e o ritmo de crescimento mais vagaroso do comércio no primeiro trimestre do ano, apresentou recuou de 0,11% na passagem de fevereiro para março, após estagnação na apuração anterior. Para o acumulado do ano, o índice avançou 1,02% em relação ao primeiro trimestre de 2013 e 2,11% nos últimos 12 meses.

Ao ser divulgado em 30 de maio¸ o resultado do PIB do primeiro trimestre deste ano deverá corroborar algumas das nossas conclusões. Primeiro, a contribuição do comércio exterior para o PIB permanecerá negativa. Segundo, a formação bruta de capital fixo se revelará nula ou com avanço muito modesto em relação ao primeiro trimestre de 2013. Terceiro, o consumo das famílias apresentará desempenho positivo, mas aquém do que se observou no segundo semestre de 2013. Por sua vez, a indústria de transformação apresentará contribuição negativa, puxada principalmente pelo fraco desempenho de veículos automotores, petróleo e gás e metalurgia.

Em linha com o cenário macroeconômico, a Sondagem da ABINEE mostrou que, em abril, as vendas/encomendas do setor elétrico e eletrônico voltaram a recuar na comparação com igual mês do ano anterior, sinalizando a possibilidade do início de um descenso cíclico. Refletindo a queda das vendas, os fabricantes consultados indicaram que o maior problema reside no nível indesejado de estoques de bens finais. Na passagem de março para abril, a indicação desse fator subiu, respectivamente, de 32% para 39% das respostas.

A nosso ver, são fatores que podem explicar o que está acontecendo:

1º) o caráter mais seletivo imposto ao crédito pelo sistema bancário, em função da redução dos prazos e do aumento das taxas de juros “na ponta”. Em janeiro deste ano, o saldo final das operações de crédito cresceu 14,8% em relação ao mesmo mês de 2013. Em março, com base na mesma modalidade de comparação, o saldo havia cedido um ponto percentual, apresentando variação de 13,7%. Para abril, há fortes indícios de que o crédito desacelerou novamente, utilizando-se a comparação interanual.

2º) os reflexos efetivos do aperto monetário (elevação da taxa Selic), iniciado em abril de 2013, que, em virtude do hiato de tempo, deverão ser mais sentido a partir do segundo trimestre deste ano;

3º) o fraco desempenho das exportações de manufaturados, embora se observe a recuperação da economia mundial e a moeda brasileira (Real) mais desvalorizada;

4º) a baixa confiança que predomina na economia brasileira atualmente, o que impacta principalmente as decisões de investimento. Todos os índices de confiança apurados pelo IBRE/FGV apresentaram piores resultados em abril, principalmente na componente que as perspectivas futuras. Assim, o índice de confiança da indústria de transformação (IBRE/FGV) recuou 0,6% na comparação de abril frente a março. O índice de confiança do comércio apresentou queda de 3,1% na comparação entre o primeiro trimestre deste ano e o do ano anterior. E o índice de confiança do consumidor recuou 0,8% na passagem de março para abril.

Em nossa avaliação, os meses de maio e junho não trarão noticias favoráveis. Em maio, por conta das recentes manifestações de rua, da contínua fragilidade da atividade industrial e dos imbróglios políticos, principalmente a CPI da Petrobras e preparação das convenções partidárias que são fatores que contribuem para imobilizar as decisões de governo. Em junho, o efeito Copa do Mundo cuidará de derrubar os negócios relacionados à atividade industrial e de comércio, devendo favorecer apenas às de serviços.

Março de 2014


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

A rebelião da base aliada, liderada pelo PMDB, a crise na Ucrânia, que tem favorecido o País por causa da revoada dos capitais externos (cerca de US$ 70 bilhões saíram da Rússia desde o início da crise) e do aumento dos preços das commodities, a retórica do governo com respeito ao cumprimento da meta fiscal (1,9% do PIB em 2014), a crise financeira e os escândalos da Petrobrás ou mesmo o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela S&P não atiçaram tanto o humor do mercado como os resultados das pesquisas eleitorais divulgadas em março e abril. No dia em que foi divulgada a primeira pesquisa CNI/IBOPE, apontando queda na aprovação do governo Dilma, o Índice Bovespa saltou 3,5%, puxado pela valorização das ações de empresas estatais. O ressentimento do mercado com as ações intervencionistas do governo leva a presumir que quanto mais a Presidenta perde densidade eleitoral maior é a euforia e a confiança dos agentes.

A respeito do cenário externo, duas boas notícias vieram na primeira semana de abril. A primeira foi a sinalização do Banco Central Europeu (BCE) de que poderá usar novos instrumentos monetários para impedir que a inflação permaneça baixa por muito tempo ou que ocorra uma deflação. Portanto, novos estímulos podem ser adotados para expandir o nível de atividade. A segunda diz respeito ao pacote de estímulos econômicos anunciado pelo governo chinês. As medidas abrangem isenções de impostos para micro e pequenas empresas, ajuda aos bairros urbanos mais pobres e a criação de um fundo para investimentos na malha ferroviária que receberá entre 32 e 48 bilhões de dólares.

Da forte desconfiança que se abateu sobre os países emergentes no início do ano ao retorno dos capitais a partir de março – variações ocorridas em um único trimestre –, notou-se aumento da instabilidade mundial e dos prêmios de risco no período. Para o Brasil, as mudanças nos fluxos internacionais e o rebaixamento da nota de crédito não produziram fortes alterações em câmbio e juros. Após a revisão da rating brasileiro, o certo é que a incerteza foi varrida do horizonte de curto prazo, estimulando o capital financeiro a regressar ao país.

Como o Banco Central manteve a política de aperto monetário – elevando a taxa Selic para 11,0% a.a. no início de abril – e o ritmo de recompra de swaps cambiais, as expectativas se mantiveram estabilizadas. Do primeiro Relatório Focus (03/01) de 2014 ao mais recente (17/04), a previsão é de que a taxa de câmbio encerre o ano cotada a US$/R$ 2,45 e alcance US$/R$ 2,51 no final de 2015. Para a taxa de juros, em virtude da ameaça de rompimento da meta de inflação (o relatório mais recente já prevê inflação acima da meta), os agentes apostam em uma taxa de 11,25% a.a. no encerramento de 2014 (era de 10,50% em janeiro) e de 12% a.a. no próximo ano.

Persiste o cenário de baixo crescimento para a indústria de transformação em 2014, sobretudo por causa do fraco desempenho do setor externo. As exportações de manufaturados recuaram 8% no primeiro trimestre do ano em comparação a igual período do ano anterior. Já a balança comercial acusou déficit de US$ 6,07 bilhões no primeiro trimestre, com as exportações totalizando US$ 44,6 bilhões e as importações, US$ 55,7 bilhões.

Para surpresa de alguns analistas, a produção industrial teve desempenho favorável nos dois primeiros meses do ano. Feitos os ajustes sazonais, a produção da indústria subiu 2,9% na passagem de dezembro para janeiro e 0,4% de janeiro para fevereiro, recuperando parte da retração verificada em dezembro de 2013. Por categoria de uso, destaca-se no acumulado do bimestre a expansão de 8,0% de bens de capital e de 6,9% de bens de consumo duráveis. Na mesma base de comparação, a única categoria que apresentou retração foi a de bens intermediários (-0,8%).

Outros indicadores da indústria também mostraram bom desempenho no período. De acordo com a CNI, o faturamento real cresceu 6,6% no primeiro bimestre do ano contra igual período do ano anterior. As horas trabalhadas, 1,2%; o emprego, 1,4% e a massa salarial real, 6,7%, considerando-se a mesma base de comparação.

 
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