Conjuntura Econômica

Análise econômica produzida pela Assessoria Econômica da Abinee, com base em informações da Sondagem Conjuntural realizada mensalmente pelo Departamento de Economia junto às empresas associadas e, também, nos aspectos econômicos do país.

Abril de 2015


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

Após quase seis meses de atraso, a divulgação do balanço da Petrobrás, relativo ao terceiro e ao quarto trimestre de 2014 e ao exercício do ano, transformou-se na principal notícia dos últimos tempos. Após recuos e indefinições, a apresentação do balanço trouxe algum alívio para investidores e governo. Não resolve tudo, sobretudo os atrasos nos pagamentos e as fragilidades na cadeia de petróleo e gás, mas, ao menos, serviu para atenuar as expectativas. Sob a ameaça de perder o “grau de investimento”, o que renderia novo ciclo de avaliações sobre a economia brasileira, a calmaria despertada veio em boa hora. Após a divulgação dos resultados, a Fitch retirou a observação negativa que impusera à empresa e reafirmou o rating BBB-. Já a Moody’s mudou a perspectiva da nota da estatal que estava “sob revisão” para estável, eliminando o risco do rebaixamento no curto prazo.

A companhia registrou prejuízo de R$ 21,6 bilhões no exercício de 2014, perante lucro de R$ 23,6 bilhões em 2013, devido à perda de R$ 44,6 bilhões por desvalorização de ativos (impairment) e à subtração de gastos adicionais oriundos do esquema de pagamentos indevidos descoberto pelas investigações da Operação Lava Jato em um total de R$ 6,2 bilhões. Em regra, foi o maior prejuízo contabilizado por uma companhia com ações na Bovespa nos últimos 20 anos.

No caso do impairment, a Petrobras atribuiu a desvalorização dos ativos a três ordens de fatores: 1º) refino no país (R$ 31,0 bilhões), devido à avaliação dos projetos do 2º trem da Refinaria Abreu e Lima (RNEST) e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ) separadamente da unidade geradora de caixa do refino, tendo em vista a postergação desses projetos por extenso período, motivada por medidas de preservação do caixa e problemas na cadeia de fornecedores oriundos das investigações da Operação Lava Jato; 2º) exploração e produção de petróleo e gás natural (R$ 10,0 bilhões), reflexo do declínio nos preços do petróleo e 3º) petroquímica (R$ 3,0 bilhões), em decorrência do cenário de redução na demanda e nas margens.

Também impactaram os resultados, o provisionamento de perdas com recebíveis do setor elétrico, R$ 4,5 bilhões; as baixas relacionadas à construção das refinarias Premium I e II, R$ 2,8 bilhões; e o provisionamento decorrente do Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário - PIDV num total de R$ 2,4 bilhões.

A despeito da crise institucional, a geração de caixa alcançou R$ 59,1 bilhões em 2014 e o lucro bruto somou R$ 80,4 bilhões, sendo 15% superior ao de 2013. Os valores refletem o aumento da demanda e os preços maiores de venda de derivados no mercado interno.

Esperamos que superadas as incertezas quanto às relações contábeis da Petrobrás, cujos investimentos respondem por cerca de 10% da Formação Bruta de Capital do país, possa ser estabelecida gradual normalidade nas relações com os Sistemistas – ainda fortemente envolvidos nas apurações da Lava Jato. A orientação nesse sentido beneficiaria a cadeia de óleo e gás e, em alguma medida, o conjunto da indústria brasileira que enfrenta severas dificuldades. Como visto, a produção industrial apresentou recuo de 0,9% na passagem de janeiro para fevereiro, com queda de 7,1% neste ano e de 4,5% nos últimos 12 meses.

Além disso, destravar os investimentos da Companhia – estimados, após revisão, em US$ 29 bilhões (R$ 87 bilhões) para 2015 – torna-se uma ação relevante para os próximos anos, em um momento em que o governo reacende as discussões sobre as concessões nas áreas de rodovia, ferrovias, portos e aeroportos, cujo programa prevê dispêndios de R$ 150 bilhões, e sobre o estimulo às exportações¹. Orientariam os investimentos privados e serviriam para superar a recessão a partir do próximo ano.

Simulações feitas pela FGV, por solicitação do Jornal Estado de São Paulo, mostraram que a Petrobras tem contribuído para travar a economia brasileira. Os exercícios feitos indicaram que, se não fosse o freio nos investimentos da companhia, a queda da participação dos investimentos no PIB em 2014 e 2015 seria 1,4 p.p. menor.

Em 2014, segundo o IBGE, a Formação Bruta de Capital caiu 4,4%, mas a retração seria de 3,7%, se a Petrobras tivesse cumprido o seu plano de investimentos. Para este ano, a FGV espera uma queda de 7,2% nos investimentos, que poderia ser menor (-6,5%), se a empresa cumprisse o seu cronograma de investimentos.

Acreditamos que esse caminho, acrescido do ajuste das contas públicas, revela-se exequível para alterar as perspectivas internacionais (e também internas) acerca da economia brasileira. Em suas projeções de médio prazo, o FMI declarou que espera que o Brasil cresça, em média, 2,5% até 2020. Após o “tombo” deste ano (-1,0%), a recuperação viria de forma gradual com expansão de 0,9% em 2016; 2,2% em 2017; 2,3% em 2018; 2,4% em 2019 e; 2,5% em 2020. Países vizinhos como Peru, Colômbia e Paraguai, no entanto, deverão crescer a taxa média entre 3% e 5% no mesmo período (ver quadro abaixo).

Em termos da economia mundial, o Fundo espera que crescimento atinja 3,5% em 2015 e 3,8% em 2016. De um lado, a lenta recuperação da Zona do Euro e a nova realidade que abraça a China, implicando em menor ritmo de crescimento, após anos de expansão a dois dígitos, inibem o ímpeto mundial. Vale mencionar que, no primeiro trimestre do ano, o PIB chinês cresceu 7,0% anualizado e 1,3% em comparação ao trimestre anterior. De outro, a recuperação americana reforça as esperanças em anos melhores, a despeito do deslize no primeiro trimestre do ano, cujo crescimento anualizado foi de apenas 0,2%.

Fatores como a elevação da taxa Selic (de 12,75% a.a para 13,25% a.a), o aumento do desemprego (6,2% em abril) e a queda do rendimento médio real dos assalariados (-2,8% frente a março e -3,0% em comparação a abril de 2014), embora afetem o volume dos negócios, não mostraram influência imediata (pelo menos, ainda) nas expectativas dos empresários do comércio e serviços. O estado de confiança nesses setores apresentou ligeira melhora nos meses de março e abril, provavelmente, puxado por um cenário mais ameno nas relações entre Executivo e Legislativo, pela votação da regulamentação da terceirização na Câmara de Deputados e a valorização do Real em abril.

No setor industrial, todavia, o estado de ânimo não exibe qualquer variação. Sondagem Industrial da CNI, referente ao mês de março, mostrou que, embora o índice relativo à produção nacional do setor tenha avançado de 40,1 pontos para 48,2 pontos, permaneceu abaixo de 50,0 pontos indicando contração da produção.

Ramos Industriais

1. A OMC divulgou, recentemente, que o comércio mundial deverá crescer 3,3% em 2015 e 4,0% em 2016. Entre as economias responsáveis pelas maiores parcelas de exportações, destacam-se a China (12,4%), Estados Unidos (8,6%), Alemanha (8,0%), Japão (3,6%) e Países Baixos (3,6%). Nesse grupo, a participação do Brasil está ligeiramente acima de 1%.

Março de 2015


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

O Brasil enfrenta uma das piores crises de credibilidade e confiança da sua história. As manifestações populares que tomaram conta das principais capitais e cidades do País em 15 de março - com promessa de retorno nos próximos meses - vieram carregadas de simbolismo e forte mensagem: os brasileiros desejam reconquistar a confiança, hoje abalada, nas instituições públicas, em seus representantes políticos e em um futuro melhor. Mudanças são necessárias e requeridas. Fundamentar discursos nos avanços sociais da última década tem se revelado um erro crasso. O anseio popular é de que as conquistas se perpetuem, com baixa probabilidade de retrocesso.

Reconquistar a confiança impõe que os atores políticos e as autoridades econômicas promovam incessantemente por maior credibilidade. Nesse sentido, é oportuno não misturar os significados de confiança e credibilidade. A baixa popularidade da Presidente Dilma, em nível historicamente decepcionante, reflete a falta de credibilidade em seu governo e nas soluções que possa encaminhar para superar a crise. Isto promove uma desconfiança crescente.

Pesquisa realizada pela CNI mostrou nova queda do Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI). Entre fevereiro e março, o indicador recuou 6,7%, com ligeira melhora ao que fora observado na leitura anterior (-9,5%). O ICEI encontra-se 19,0 pontos abaixo de sua média histórica de 56,5 pontos, registrando o menor valor da série desde o início em 1999.

Em um ambiente em que a confiança torna-se "joia rara", não há motivação para que os investimentos se concretizem. Sondagem recente feita pela FGV perscrutou a tendência dos investimentos produtivos para os próximos 12 meses. As respostas mostraram que 27% das empresas consultadas preveem investir mais e 31% preveem investir menos que nos 12 meses anteriores, retratando uma piora das expectativas em relação aos investimentos produtivos.

Portanto, o saneamento das instituições públicas, a normalização das relações entre o Executivo e o Legislativo e a proposição de políticas que sinalizem a retomada do crescimento são condições sine qua non para o afastamento das incertezas. É fato que a equipe econômica vem adotando providências para reverter no curto prazo o cenário decepcionante dos próximos anos (ver quadro ao final do texto). O próprio Ministro da Fazenda tem se envolvido diretamente nas negociações com o Congresso Nacional e este esforço assegurou, até o presente, o selo de investment grade do País.

Entre as medidas que visam corrigir os desequilíbrios das contas públicas, pode-se destacar: 1º) elevação da taxa básica de juros (Selic) de 12,25% a.a. para 12,75% a.a, bem como da TJLP para 5,5% a.a; 2º) contingenciamento e cortes orçamentários em um total de R$ 57,5 bilhões, distribuído entre o Ministério da Educação (R$ 14,5 bilhões); Minha Casa Minha Vida (R$ 7,3 bilhões); Ministério Desenvolvimento Social e Combate a Pobreza (R$ 3,1 bilhões); PAC (R$ 4,37 bilhões) entre outros; 3º) redução das despesas com seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte no total de R$ 18 bilhões; 4º) aumento de arrecadação (R$ 20,6 bilhões) com a elevação da CIDE, IOF, PIS/Cofins na importação e IPI de cosméticos; 5º) elevação das alíquotas previdenciárias sobre faturamento (R$ 5,35 bilhões); 6º) diminuição do subsídio do Reintegra (R$ 1,8 bilhões) e 7º) redução do repasse para a CDE (R$ 7,75 bilhões).

Embora ações para a correção do rumo sejam imprescindíveis, há que se ter em conta as conseqüências não desejadas que podem produzir. Afinal, a dose que cura, se ministrada em excesso pode matar.

O crescimento nulo em 2014 trouxe novos desafios para os formuladores da política econômica. Não tanto pelo resultado geral em si, mas por alguns aspectos que trazem importantes desafios para um novo ciclo de crescimento. Com exceção da indústria, que amargou queda de 1,2%, as demais atividades apresentaram expansão, ainda que modesta. No caso da agropecuária, houve avanço de 0,4% e nos serviços de 0,7%. O valor adicionado do comércio (incluso na atividade de serviços) encolheu 1,8% em relação a 2013.

Especificamente no caso do setor industrial, a extração mineral cresceu 8,7%, com desempenho bem superior aos demais segmentos. A indústria de transformação sofreu retração de 3,8%, influenciada pelo fraco desempenho da indústria automotiva, máquinas e equipamentos, siderurgia e metalurgia e aparelhos elétricos. Já a construção civil e a eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caíram, igualmente, 2,6%.

Não bastasse a fragilidade da indústria de transformação, outro destaque negativo ficou por conta da Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF) - que representa os investimentos produtivos - com queda de 4,4% em relação a 2013. Naquele ano, houve avanço de 6,1% da FBKF. Embora crescendo menos, o consumo das famílias progrediu 0,9%, por conta do ritmo de crescimento moderado da massa salarial, do aumento da taxa básica de juros e da maior seletividade na concessão de crédito. O gasto do governo também cresceu menos do que no ano anterior (1,3% em 2014 contra 2,2% em 2013) e as exportações e as importações apresentaram queda de 1,1% e 1,0%, respectivamente.

Com esse olhar no espelho retrovisor, é importante apreender o que as informações das Contas Nacionais podem estar mostrando para o futuro. Em primeiro lugar, a enorme fragilidade da indústria, que poderá não oferecer a resposta desejada à retomada do crescimento. Por sinal, as exportações de manufaturados, que seriam a solução natural em um período recessivo, não mostraram até agora o impulso esperado, a despeito da desvalorização de mais de 20% do Real frente ao dólar. Em segundo lugar, o crítico estado de confiança dos empresários, somado aos entraves produzidos pela Operação Lava Jato para novos compromissos com a infraestrutura, dá sinais de que o retorno dos investimentos vai demorar. Por fim, a aceleração da expectativa de inflação, associada ao aumento do desemprego, tende a reduzir os rendimentos reais dos trabalhadores, o que já foi percebido nos dados do Caged de fevereiro. Sendo assim, impõe-se um freio adicional ao gasto das famílias.

Por isso, ao governo caberá implementar o reordenamento econômico, para além do ajuste fiscal, com a atenção voltada aos desdobramentos das suas ações. Há sempre o risco de que ao combinar um aumento de impostos sobre a produção e o consumo com cortes de gastos não seletivos, o governo penalize as políticas sociais e os investimentos. Além disso, com a correção dos preços de bens e serviços essenciais para a população, como energia elétrica, água e combustíveis; e a elevação da taxa básica de juros, o ajuste aniquile a demanda e a oferta, empurrando a economia, já em recessão, ladeira abaixo, asfixiando ainda mais o crescimento econômico. É o risco de um ciclo vicioso na economia.

Tabela Resultados Econômicos (2013 e 2014) e Projeções para 2015 e 2016

Fevereiro de 2015


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

A indústria brasileira enfrenta a pior crise da última década, excetuando-se, por certo, o momento atípico de auge da crise internacional de 2008/09. Com a divulgação pelo IBGE dos resultados de 2014 se tornou evidente a acentuada queda da produção da indústria, cujo precedente mais próximo se encontra na crise financeira do último quartil da década passada (ver gráficos).

Consequência da falta de uma política industrial robusta, que viesse estabelecer um planejamento de longo prazo, ao invés de medidas intempestivas e ocasionais, a crise da indústria de transformação no Brasil não será superada se não houver um intenso diálogo entre governo e o setor produtivo.

Longo e Acentuado

Como apontam os dados do IBGE (ver gráfico acima), a indústria extrativa conseguiu recuperar o nível de atividade observado em 2011, o que não se verificou para a indústria de transformação que pela dimensão e peso arrastou o indicador da indústria em geral para baixo. Constata-se que a indústria de transformação, ao final de 2014, reproduzia o nível de atividade apurado no período de recuperação da crise financeira em meados de maio/junho de 2010. Ou seja, a indústria de transformação regrediu ao patamar de quatro anos atrás.

Percebe-se como grave nesse processo o fato de que o declínio se espraia por todas as categorias de uso e diversos ramos da indústria. O gráfico abaixo sinaliza para uma forte queda na maioria das categorias analisadas, tendo por base de comparação a produção industrial acumulada nos últimos 12 meses. O único grupo que se manteve estável, com variação praticamente nula, foi a de bens de consumo semiduráveis e não-duráveis. Todos os demais recuaram intensamente a partir do terceiro trimestre de 2013 e encerraram o ano passado em um dos piores níveis da última década

Produção Industrial

A crise de confiança que inoculou empresários produtivos, investidores e consumidores, fruto de uma maior intervenção do governo na economia e de medidas de política econômica equivocadas, como a persistente sobrevalorização cambial, somada à desatenção e ausência de medidas que efetivamente servissem ao aumento da competitividade das empresas, levou ao desastroso cenário de queda acentuada das exportações e aumento explosivo das importações de manufaturados.

O gráfico abaixo destaca o explosivo aumento do coeficiente de penetração das importações de manufaturados, frente a uma relativa estagnação das exportações de manufaturados. Problemas de infraestrutura, custo salarial e carga tributária somaram-se à falta de câmbio para reproduzir o quadro abaixo. A reversão dessa situação no presente não será simples. Embora a taxa de câmbio próxima a R$/US$ 3,0 beneficie os produtos tradebles, não será suficiente para recuperar no curto prazo os canais de distribuição que foram interrompidos, a recomposição das equipes de comércio exterior nas empresas e a superação das dificuldades decorrentes das limitações impostas pelo acordo do Mercosul e a credibilidade do país, comprometida com os escândalos recentes.

Indústria de Transformação

Para nos apropriarmos da verdadeira dimensão e extensão da crise da indústria de transformação, cabe notar que 19 setores apresentaram retração em 2014 contra 11 em 2011 (ver quadro abaixo). Mesmo para os setores que apresentaram queda nos dois anos, aquela verificada no ano passado foi mais intensa. Destaque-se a perda do viço dos ramos de Fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias (-16,8%); Metalurgia (-7,4%); Fabricação de produtos de metal (-9,8%); Fabricação de máquinas, aparelhos e material elétrico (-7,2%) e Fabricação de móveis (-7,4%).

Os únicos segmentos que apresentaram taxas negativas piores em 2011 do que em 2014 foram Fabricação de Produtos Têxteis (-16,0% em 2011 e -6,4% em 3014); Confecção de artigos de vestuário e acessórios (-3,7% em 2011 e -3,2% em 2014) e Preparação de Couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (-1,5% em 2011 e 4,5% em 2014).

Ramos Industriais

Não fossem suficientes as dificuldades atuais, o setor industrial foi surpreendido pela decisão do governo de alterar as alíquotas de desoneração da folha de pagamento, por meio da MP nº 669, de 26 de fevereiro de 2015, de suspender o Programa Minha Casa Melhor, que vinha beneficiando fabricantes de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos e a redução de 3% para 1% da alíquota do Programa Reintegra (Decreto nº 8.415, de 27 de fevereiro de 2015).

As medidas impõem aumento de custos para as empresas, retiram competitividade e inibem o ímpeto exportador, justo em um momento em que o canal externo pode se tornar a melhor (talvez única) alternativa para a retomada do crescimento.

Por fim, é importante notar que o setor elétrico e eletrônico não tem passado incólume por esta crise. A Sondagem da ABINEE do mês de fevereiro mostrou que a produção de bens da área eletrônica encerrou o ano com queda de 2,4% e da área elétrica Apesar da retração, o bom desempenho em 2014 dos mercados de tablets e smartphones permitiu crescimento de 3,3% na produção de equipamentos de informática e periféricos e de 4,2% nos equipamentos de comunicação. O problema é que esses resultados não se repetirão em 2015.

Janeiro de 2015


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Conjuntura Econômica
(Carlos Cavalcanti, assessor econômico da Abinee)

"Sem prejuízo de atender à demanda interna é, realmente, indispensável expandir o perímetro da nossa economia. A expansão do nosso comércio exterior, mesmo em um quadro em que a economia internacional não anda muito forte, vai ser essencial. E vai requerer esforço e agilidade, porque os principais parceiros regionais enfrentam problemas e a possibilidade de ampliar os estímulos fiscais e creditícios se esgotou”. - Joaquim Levy, Ministro da Fazenda

Desde a semana do Natal, os holofotes se voltaram para a composição, declarações e apresentação das medidas de ajuste endereçadas pela nova equipe econômica. Das ações adotadas dependerá a reconquista da confiança de empresários (nacionais e estrangeiros) e consumidores e a retomada do crescimento. Em suas primeiras declarações, o Ministro da Fazenda dividiu, ainda que não de forma explícita, a estratégia do ajuste em três etapas. A primeira, de caráter emergencial, circunscreveu-se à eliminação das distorções existentes em certos benefícios trabalhistas e previdenciários, ao aumento da arrecadação no curto prazo e restrições mais fortes à execução do orçamento, limitando a 1/18 avos a dotação mensal, quando, em regra, costuma-se restringir a 1/12 avos até a aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA).

No âmbito das urgências - primeira fase do ajuste- foram adotadas as seguintes medidas:

1º) Fim da redução do IPI para veículos automotores, móveis e linha branca;

2º) Correção das distorções existentes em benefícios aos trabalhadores e segurados da Previdência Social, como no caso do seguro-desemprego, abono salarial, auxílio-doença e pensão por morte (para maior conhecimento das medidas, ver anexo);

3º) Redução dos subsídios em empréstimos feitos pelo sistema público de crédito, o que obrigou a revisão do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e o aumento da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) - de 5,0% para 5,5%.

4º) Elevação da taxa de juros dos empréstimos habitacionais concedidos pela CEF. As novas taxas visam maior alinhamento com a Selic (redução do subsídio implícito), que por conta do ciclo de aperto monetário vem subindo desde 2013;

5º) Veto presidencial à correção de 6,5% da tabela do IR. O governo encaminhará Medida Provisória propondo correção de 4,5%.

Anunciou-se também novo pacote tributário, cujas principais medidas encontram-se relacionadas no Anexo. Visando ao aumento da receita – estimado em R$ 20 bilhões – para compensar os desequilíbrios fiscais existentes, o governo federal priorizou alterações no âmbito das contribuições sociais, já que estas não são divididas com Estados e municípios. A única exceção é a Cide, que tem 29% das receitas compartilhadas com as esferas subnacionais de governo. O governo sancionou também a lei que altera a tributação do setor de bebidas frias que entrará em vigência a partir de maio e representará um aumento da carga tributária do setor em 10%.

A segunda fase do programa consistirá na redução definitiva de despesas, por meio do contingenciamento e extinção de gastos orçamentários, assim que o Orçamento de 2015 for aprovado pelo Congresso Nacional. Há previsão de cortes em custeios que poderão representar uma economia de R$ 22,0 bilhões anuais. Além disso, a nova equipe econômica estuda reduzir em R$ 20 bilhões os investimentos previstos no projeto de lei do orçamento.

Por fim, a terceira etapa do programa de ajuste abrange os procedimentos formais para proibição e cancelamento de novos empréstimos e autorização para que governos estaduais e municipais aumentem o endividamento, bem como a liberação de garantias para empréstimos tomados dos bancos por esses entes. A estratégia de recuperação da credibilidade fiscal conta com a elevação do superávit primário de Estados e municípios, mesmo porque, conforme definido na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), caso estes não concretizem o superávit estabelecido (0,2% do PIB) será a União responsável por elevar o seu próprio superávit (tarefa complexa face ao cenário atual para as contas públicas) a fim de compensar e assegurar a meta global de 1,2% do PIB.

O fim da chamada “contabilidade criativa” se soma a adoção de medidas que impeçam o crescimento da dívida bruta do governo para compor a terceira fase do programa. Uma das principais tarefas, segundo palavras do Ministro Levy, consistirá na redução do patamar do endividamento bruto dos atuais 63% do PIB para algo próximo a 50% do PIB. Por isso, a terceira fase do ajuste deverá contar com uma série de micro reformas cuja prioridade será a reestruturação do setor elétrico e a solução para a crise financeira das distribuidoras.

Embora necessário, os reflexos do ajuste fiscal serão marcantes para atividade econômica. Não é por menos que as projeções de crescimento para 2014 e 2015 situam-se abaixo de 2,0% (projeções nos quadros abaixo). O caráter transversal das medidas afetará diversos segmentos da indústria, promovendo elevação de custos e tendência à propagação por toda a cadeia produtiva.

Caso o programa de afrouxamento monetário na Zona do Euro, recentemente anunciado, não imponha novo ritmo de valorizações à taxa de câmbio doméstica, tornar-se-á sedutora a alternativa do comércio exterior para os produtores locais. Recomenda-se a releitura do texto em epígrafe.

Projeções Econômicas

 
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